quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Clube do Conto expõe contos

A exposição Parede Poética está em cartaz no Sesc até o final do mês

A atual Parede Poética do Restaurante da Gente - aberta ontem - mudou de cara. Ao invés da poesia, nove contos se unem à arte visual, numa Parede - ainda inédita - assinada por escritores que participam do Clube do Conto.

A exposição realizada pelo Sesc é aberta, todos os dias, a partir das 10h30 e fica em cartaz até o final do mês.
Nove contos foram escolhidos para integrar a nova Parede Poética, assinados por André Ricardo Aguiar, Cláudio José Lopes, Dora Limeira, Joana Belarmino, Laudelino, Maria Valéria Resende, Raoni Xavier, Ronaldo Monte e Waldir Pedrosa Amorim.

Três anos de clube

Há três anos, cerca de 20 pessoas se reúnem "religiosamente" todos os sábados, às 17h00, para a leitura de contos de uma mesma temática - definida na semana anterior. Os contos são escritos no prazo de uma semana ou duas, dependendo do ritmo do grupo.

Segundo André Ricardo, integrante do Clube desde a sua fundação, cerca de 15 pessoas o freqüentam ativamente e mais de 20 vão de forma rotativa.

O Clube do Conto se reúne no Shoppping Sul, nos Bancários, por trás da Livraria Almeida, aos sábados, por volta das 18 hs.

Correio da Paraíba, João Pessoa, ed. de quarta-feira, 8 de novembro de 2006 (Caderno 2 - P. C-4).

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Duas atas sobre Eclipse (21 outubro)

Eclipse visto por Joana

O eclipse do Rona foi uma transmutação de cara, de ana de lua, que de repente entrou em eclipse total. Pepita virou uma cidadezinha de cabeça para baixo por causa de um eclipse, a ponto de transformar um padre num boi cagão. Cláudio, no seu melhor estilo bem humorado, colocou um achado valioso nas mãos de uma família endividada, mas, quando o homem abriu a caixa do tesouro, era somente clips.
O moço de Porto alegre, Mainiele? enviou sua história de jornalista que vai cobrir um eclipse mas acaba entrando em situação de cópula com o seu fotógrafo. Valéria também veio provida com uma caixinha machetada, um armário e o escuro para o amor e o desamor. O meu eclipse foi para homenagear Belo, meu irmão, que acabou finalmente seu doutorado na UFCG. Raoni trouxe a eterna briga do irmão mais velho, que conseguiu eclipsar o mais moço, na hora de verem o eclipse.
Ainda pegamos nossa quota de livros livres, foi muito bom!

Joana Belarmino


Eclipse visto por André

Eu prometi que faria a ata, mas acho que será a ata mais irresponsável dos últimos tempos. Baseada numa vaga lembrança.
Os eclipes foram a contento. Contos que foram observados a olho nu, sem interferências de nuvens.
Estiveram presentes muitos como Dora, Barreto, João, Mariano, Joana e Belo e a menina que esqueci o nome, Pepita e Valéria, Cláudio e Raoni. E me bate agora uma dúvida.. alguém mais? Algum fantasma?
Decidimos pelo tema Autógrafo.
E estamos fechados com a programação para o dia 9/11 na Biblioteca, com contos sobre biblioteca.
E foram distribuídos livros para o projeto Livro Livre.
Algo mais?
Quem quiser que conte - e corrija - outra (ata).

André

Obs.: A menina de nome esquecido é a filha de Joana, Mariana.

Ata do Barulho (14 de outubro)

Teve muito barulho no sábado passado (dia 14 de outubro), compareceram, eu, Ronaldo, Barreto, Valéria, Dôra, Pepita, André, João, Alexandre e sua mãe, Cláudio, Raoni, mais uma mulher (que não lembro o nome), Waldir e não sei se esqueci alguém, foram muitas pessoas. André, Valéria, Ronaldo, João, Cláudio, Waldir e Pepita (não necessáriamente nesta órdem) fizeram muita zuada com seus contos; Dôra e Ronaldo pediram silêncio porque adentraram no tema biblioteca; eu refleti e finalizei as leituras com o tema espelho. Tiramos um tempinho para discutirmos a respeito do projeto livro livre e sobre um futuro conto com o tema hepatite. No final, ficou decidido que o próximo tema será ECLIPSE, lunar ou solar, tanto faz.

Observação enviada por André: A mulher em questão é uma entusiasta do Clube, chamada Anne Catão.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte 4

Clube do Conto

A oficina no porão

Sérgio Castro Pinto

Desde há muito existe uma espécie de discriminação com o Regionalismo. E eu não tenho dúvidas: é mais uma estratégia de parte da crítica preconceituosa do sudeste para desqualificar um movimento que foi quem melhor respondeu aos anseios de se responder ao Brasil a partir do Brasil. Quem, depois de 1930, superou, em termos de qualidade, a ficção brasileira de 1930? Guimarães Rosa? Mas, o próprio Rosa se abeberou, e muito, do regionalismo. No entanto, para muitos, o Regionalismo acabou. Acabou coisa nenhuma! Nenhum assunto se esgota, a não ser que não se tenha engenho e arte para se inovar, através do estilo, avesso a clichês, jargões e chavões.. E chego ao que eu quero: Ronaldo Monte. É regionalista? É. Mas de um regionalismo da alma que, ao fim e ao cabo, termina em se transformar universal.

Existe uma história de Jung segundo a qual o homem tem medo do porão. E realmente tem, pois, afinal de contas, o porão é subterrâneo, é a ausência do sol, é um mundo impregnado de sombras, de objetos imprestáveis, heteróclitos, desencontrados, faltos de tudo e de todos.

Daí, ainda segundo Jung, o homem preferir o sótão em função do seu medo, pois o sótão é o consciente, o mundo claro, solar, onde tudo é bem visível, previsível e definido.E tanto é assim que o próprio Jung arremata: "A consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade esse homem prudente não ousou aventurar-se ao porão".

Em outras palavras, no sótão - reduto do consciente - o homem não só racionaliza os seus medos como cria mecanismos de defesa para melhor combater os seus fantasmas, fobias, neuroses e angústias, ao passo que no porão - reduto do inconsciente - a "racionalização é menos rápida e menos clara".

Ronaldo Monte montou a sua oficina de escrever no porão. E, como bom e ousado psicanalista que é, escreveu a partir daí o excelente "Memória do fogo" (Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro, 2006), cujos personagens, "Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste Brasileiro - conforme bem o diz Rosa Amanda Strausz -, perderam-se também do fio que conduz à vida. Em volta do fogo, partilham apenas da cachaça, água que queima". Os estranhíssimos viventes de Ronaldo são sombras que só ardem e "brilham" ao pé das fogueiras acesas. E embora de carne e osso, parecem fantasmas saídos de um livro-porão: este "Memória do fogo", um dos grandes lançamentos do ano de 2006.

Jornal O Norte, 5 de outubro de 2006.

Como se faz o Clube do Conto

Clube do Conto

Muita gente anda perguntando como é que se faz esse Clube do Conto? decidimos recolocar aqui uma (das)história (s) do Clube... avisando, porém, que a versão contada por cada um dos membros do Clube será certamente bem diferente das outras... assim é o Clube do Conto da Paraíba.

A HISTÓRIA DO CLUBE DO CONTO DA PARAÍBA

Segundo DORA LIMEIRA:

PRIMEIRO CAPÍTULO:

Tudo começou quando o poeta Antônio Mariano criou a lista de contistas na internet e nos convidou para participar. Na lista, conversa vai, conversa vem, MValéria Rezende dizia que mora atrás do shopping sul. Ainda através da lista, eu dizia que moro bem pertinho, que às tardinhas eu costumo tomar cafezinho no shopping. Daí que Valéria dizia: "Ah, Dôra, quem sabe tomamos cafezinho toda tardinha sempre em mesas vizinhas sem nos conhecer!" Através da lista, marcamos encontro, eu e ela naquele mesmo dia, à tardinha, para nos conhecer. Essa foi a primeira idéia nova: extrapolar o virtual para um encontro presencial. Daí que, olho no olho, conversamos muito, tomamos muito cafezinho, muito chocolate, compartilhamos coisas que escrevemos, nossos métodos ou modos de criar, facilidades, dificuldades, a solidão do ato de escrever, a falta de partilhamento, e por aí vai. Daí trocamos a seguinte idéia: E se?...

SEGUNDO CAPÍTULO - E se?

E se pudéssemos reunir o pessoal da lista para umas conversas informais nos finais de tarde dos sábados? Os encontros poderiam acontecer ao redor de uma mesa do Cafézinho. Dito e feito. Primeiro veio Mariano, depois André Ricardo Aguiar, eu, Valéria, depois chegou Dira Vieira. Eu ainda nem conhecia Dira pessoalmente. Foi uma festa. Trazíamos nas bolsas nossos contos inéditos. Marília Carneiro Arnaud também chegou. Líamos nossas histórias, nos comentávamos. Os assuntos e os contos eram aleatórios. Mais pessoas iam chegando. Barreto (Geraldo Maciel), por exemplo. A cada sábado, mais gente. Juntávamos duas mesas do cafezinho. Era uma coisa muito apertada, um pouco tumultuado devido à promiscuidade com os passantes e alguns ficantes curiosos. Muito barulho no hall do shopping, ora era dia da criança, ora era desfile de modas infantis, ora era música ao vivo lá em cima, ou baile de deficientes físicos da APAE, enfim, um barulho infernal. Pensamos em mudar de lugar. Eis outra idéia nova: mudar de lugar. E se?

TERCEIRO CAPÍTULO

Pensamos levar os encontros para a livraria de Assis, naquelas mesas de vidro redondas que existem lá dentro da livraria. Quem sabe teríamos um pequeno público para escutar nossos contos, os frequentadores da livraria. Mariano e Valéria chegaram a falar com Assis. E mais gente ia chegando. Foi nos encontros aos sábados que conheci pessoalmente Pepita, uma das "quatro luas". Depois Zezé Limeira também se juntou ao grupo. Zezé Limeira também é uma das quatro luas, juntamente com Pepita (Mercedes Cavalcanti), Valéria e Marília. Até Lau Siqueira apareceu por lá. Foi uma festa. André com suas menininhas passantes sempre vinha com uma enorme bolsa, de onde sempre retirava alguma novidade: um jornal, uma revista, um livro ou mesmo um correio das artes. Era sempre um regozijo cada encontro. Num determinado momento, Dira falou que nem sempre poderia estar presente aos encontros, por causa "das teias que a prendiam em casa". Foi o suficiente para surgir outra idéia nova: a idéia dos contos temáticos. O primeiro tema, nem precisaria eu estar dizendo, foi exatamente retirado do mote dado por Dira: "As Teias". Outras idéias surgiriam ao longo da história.

QUARTO CAPÍTULO - Objetos de cena

Depois das teias, que seriam o tema geral de nossa primeira mini publicação, outras idéias surgiriam ao longo da história. A essa altura, Ronaldo de todos os Montes já estava integrado, dando sustança ao grupo. Seu texto sobre as teias foi um poema, ao contrário de todo o mundo que fez conto."Velório" foi outro tema. Todos se esmeraram em torno de defuntos imaginários, viuvas chorosas, amantes disfarçadas, coroas de flores, velas e não faltou uma mosca perturbando o sono eterno dos defuntos, pousando às bordas dos narizes de alguns finados. Para completar o clima, André resolveu acender uma vela no meio da mesa, em pleno cafezinho. Não sabíamos se ríamos com a vela de André ou se chorávamos penalizados com tantas viuvas, órfãos e outros desprezados da sorte.Enquanto isso, as negociações com Almeida prosseguiam acerca de um lugar mais sossegado para os encontros da galera. Onde? Mas, ainda não seria naquele dia que teríamos a definição. Valéria e Mariano se empenhariam mais nesse sentido. O grupo se animava. Aécio é um amigo de Mariano que mais pareceu um meteoro. Apareceu apressado e, com a mesma pressa, sumiu até hoje.Ah, e o próximo tema? Huuummmm... Escatologia! As mentes perversamente iluminadas dos contistas já elaboravam idéias acerca do possível objeto de cena.

QUINTO CAPÍTULO - Um tema difícil

Huuummmm... Escatologia! Que tema imundo. A turma sapateou em cima de catarro, vômito, merda, sangue se derramando, borbulhando, saindo de jugular afora. Eu preferiria não citar nomes, mas não posso deixar de citar Regina, se revelando, já bem integrada ao grupo, falando de sebozeiras, assim desenvolta, sem a menor cerimônia. Se eu não me engano Rona falou de mosca em defunto. O bicho é seboso, quando quer ser. E ainda fala de mim.Mas, vamos ao que interessa: Eu levei o objeto de cena, desfilei com ele de shopping adentro até chegar à mesa do cafezinho, onde já estavam reunidos Barreto, Zezé Limeira, André, acho que Simone Maldonado, Regina Behar, Valéria se eu não me engano. Ah, Dira também estava, e registrou tudo com sua máquina indiscreta. Ronaldo Monte também chegou junto. Me desculpem os que foram esquecidos, sinto muito. Faz parte.O objeto de cena era um imenso penico de alumínio com um bolo inglês dentro (massa pronta). O bolo estava desarrumado, todo troncho, com uma cobertura marrom escura de chocolate, gosmenta, desarranjada. Misturados àquela cobertura gosmenta, havia pedaços de papel higiênico, sujos de chocolate. Parecia que alguém com diarréia braba tinha usado o penico, tinha se limpado e jogado o papel lá dentro. E assim, inspirados nesse cenário, íamos lendo nossos contos. Tinha gente que se contorcia de tanto rir. Como ainda estávamos usando o espaço do cafezinho, os passantes olhavam, detinham-se um pouco e nada entendiam. As paquerinhas de André que passavam por ali devem ter ficado horrorizadas. Vale ressaltar que, à época, Veruska ainda não tinha pintado no pedaço.Ao término das leituras dos contos escatológicos, foi a hora do lanche. Todos comeram da sebozeira que estava dentro do penico. Aliás, uma delícia. Só quem não comeu foi Barreto. "Quero comer essa porcaria, não!!!", dizia ele. Mas, que cabra besta.Parece que foi nesse dia que Assis Almeida nos deu a notícia de que teríamos o espaço por trás da livraria à disposição pros nossos encontros. Cadeiras e mesas estariam disponibilizadas por cortesia da Associação dos Lojistas do shopping. Assim, no sábado seguinte, ocupamos o novo espaço, com faixa fixada na parede e tudo. E se chovesse?Muito obrigada, Laudelino, por ter se manifestado a favor da continuidade dessa história verídica, científica, factual. Com alguns respingos de ficção.

SEXTO E ÚLTIMO CAPÍTULO – Novas gentes, novo espaço, novas idéias.

Acomodados, descortinando o estacionamento externo e as pessoas passantes na rua, dispondo de três mesas, doze ou quinze cadeiras, inauguramos o novo espaço. Por coincidência, esses tempos de mudanças trouxeram João Batista B. de Brito e Carlos Cartaxo ao convívio dos sábados à tardinha. Excelente aquisição. Já no novo espaço, enquanto conversamos, lemos textos e sorrimos, as pessoas na rua nos olham com certa curiosidade, uns achando que estamos em algum cursinho, outros pensam que fazemos estudo bíblico, outros indagam se estamos em reuniao da paz pela paz. Um menino que toma conta dos carros falou para Mariano: “Já vai para a aula, professor?” Um senhor bastante idoso, quando me dirigi ao carro após uma das reuniões, perguntou se qualquer pessoa pode participar “nesse tal de clube do conto”, se existe limite de idade, se é de graça, o que precisa para participar, se precisa se cadastrar. Às vezes as pessoas se intrigam e, querendo saber do que se trata, resolvem se aproximar, sentar e participar, nem que seja meteoricamente. Uma das coisas boas daquele espaço é que fica às margens de um pequeno jardim, a grama muito verde. Do local das reuniões dá para se ver toda a extensão da frente e da lateral da casa de Valéria.Assis da livraria Almeida mandou fazer uma faixa grande e mandou colocar no alto da parede, escrito assim na faixa: “Clube do Conto da Paraíba”. Fábio, do Cafezinho, se dispôs a segurar a infraestrutura de cafezinho, chocolate, água e outras coisas que a gente por ventura venha a precisar.Claro que nem tudo são apenas jardinzinho e grama verde, cafezinho e chocolate, contos e capítulos de romances. É verdade que às vezes passa um trio elétrico em frente ao clube, no meio da rua a gritar fazendo propagandas de lojas, lanchonetes, peças de teatro besteirol, etc. Mas, são coisas passageiras, e fazem parte.Lembro-me de que um dos primeiros temas já no espaço novo foi exatamente “celular”, aproveitando o mote de uma companheira cujo celular não parava de disparar: era a filha. No sábado seguinte, antes de iniciarmos as leituras, decidimos juntar todos os celulares no centro da mesa e deixar que tocassem sem que ninguém atendesse. Seria o objeto de cena para as leituras dos textos. Dira fotografou, por sinal ficou ótima a fotografia daquele monte de celulares amontoados no meio da mesa, uma das melhores fotos. Ainda guardo em meus arquivos.As semanas foram se passando. Um grupo de pessoas mais entusiasmadas sentiu necessidade de maior divulgação do grupo. Daí surgiu a idéia de Barreto de André de editar as “Atas do Clube do Conto”, que deveriam ser espalhadas onde fosse possível espalhar como forma de divulgação de nossos trabalhos. O primeiro número trouxe os textos em torno do tema “Teias”, e gerou comentários no Correio das Artes e uma certa polemica. Tudo bem. Foi bom, porque nos divulgou.Mais gente chegava. Uma onda de jovens começou a invadir. Alexandre, o mais novo, 16 anos, Raonix, 21 anos, Laudelino, 22 anos, e um rapaz que de vez em quando aparece: Eduardo, 20 anos. Gente muito participativa e curiosa, querendo fazer, escrever, aprender. Raonix é excelente chargista, além de contista e pretende fazer as charges de todos os participantes. já fez a minha e a de Mariano, por sinal, muito boas.Agora, há a perspectiva de publicaçao de antologias do Clube do Conto - "Histórias de sábado" -, caso o BNB aprove nosso projeto. E a FUNJOPE de João Pessoa só está esperando que lhe entreguemos a seleção de contos para lançar outra antologia do Clube. Tomara.Assim tem sido a história de uma idéia nova – a concepção do Clube do Conto. Muito simples, esta idéia tem se mostrado charmosa, atraindo gente de várias faixas etárias que interagem, criam, desafiam, aceitam desafios. Sem hierarquia, sem exigências de diplomas nem currículos, sem academicismos ou doutorados, a coisa tende a se renovar.Encerro aqui este meu trabalho. Mas a história não se esgotou. São muitas e muitas as nuances, muitas e muitas as facetas. Admito que exagerei no factual, mas essa era minha proposta.

Dôra Limeira

domingo, 3 de setembro de 2006

Autoras do Clube do Conto: Sônia Van Dijck; Mercedes Cavalcanti, Marília Arnaud

Clube do Conto

Memórias Rendilhadas

Sônia Van Dijck, Mercedes Cavalcante e Marília Arnaud, três autoras que participam do Clube do Conto, estão incluídas na bela coletânea Memórias rendilhadas: vozes femininas (João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2006) organizada pelas professoras Neide MEDEIROS e Yolanda LIMEIRA, da UFPB.
O belo texto de Sônia Van Dijk pode ser lido em seu site.

Saiba mais sobre o livro:

Escritoras lembram as histórias que as encantaram na infância

Jornal da Paraíba - ASTIER BASÍLIO

Uma coletânea no mínimo diferente. Ao invés de se reunir textos de ficção ou ensaios, Memórias Rendilhadas: Vozes Femininas (Editora da UFPB, 106 páginas), organizado pelas escritoras Yolanda Limeira e Neide Medeiros, apresenta artigos que relatam histórias de leituras feitas na infância. (...)
A idéia de fazer este livro partiu da professora Neide Medeiros. Para realizar a empreitada, quinze escritoras paraibanas foram convocadas para relatar experiências vividas. Nas veredas das memórias das autoras, paisagens e lugares, principalmente, nas cidades de João Pessoa e Campina Grande são revividos.

Participam da coletânea as escritoras Adylla Rabello, Cristina Guedes, Emília Guerra, Lourdinha Luna, Marília Arnaud, Mercedes Cavalcanti, Mila Cerqueira, Neide Medeiros, Petra Ramalho, Pié Farias, Socorro Loureiro, Sônia van Dijck, Terezinha Fialho, Vitória Lima e Yó Limeira.

Nas evocações das autoras são lembrados nomes como José Lins do Rêgo, Balzac, Cervantes, Victor Hugo, entre vários outros que acenderam a chama da imaginação no primeiro contato com o rico universo da literatura. Os relatos trazem este tom memorialista e pessoal. Vejamos o texto “Memória e leitura”, da escritora Marília Carneiro Arnaud: “Cresci vendo meu pai ler livros, jornais e revistas, diariamente, e bastava observá-lo naquela atividade para saber o quanto o fazia com prazer. Talvez tenha sido este um dos motivos que me conduziram ao mundo mágico da leitura. Até oito, nove anos, fui apresentada a Monteiro Lobato, e dos seus livros, o primeiro que conheci foi As Reinações de Narizinho”.
A obra traz ilustrações dos livros citados na abertura dos capítulos.

ORGANIZADORAS

Neide Medeiros é professora aposentada da UFPB e doutora em Estudos Literários. Dedicada à literatura Infantil, tem vários trabalhos na área publicados em jornais e revistas do País. É representante e membro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil aqui na Paraíba. Publicou também os livros: A Hora e a Vez da Literatura Infantil e Guriatã: Uma Viagem Mítica ao País-Paraíso.

Yolanda Limeira é professora e animadora cultural, fundadora da revista Verdes Anos. Licenciada em História pela Universidade Federal da Paraíba, atuou em vários órgãos de cultura do Estado (como Iphaep, DGC, Funesc), tendo participado da organização de vários eventos culturais a exemplo dos Festivais de Arte de Areia. Faz parte do quadro de sócios da Associação Paraibana de Imprensa e tem publicado poemas e algumas crônicas em jornais e revistas da Paraíba e de outros Estados. Participou da Coletânea de Poetas Paraibanos (Ed. Universitária da UFPB -1999).

sábado, 2 de setembro de 2006

Autores do Clube do Conto: Raoni Xavier de Lucena

Clube do Conto

Premiado no concurso da Editora Idéia


Em maio deste ano, a Idéia Editora , de João Pessoa, realizou o seu Iº Concurso de Contos.

O jovem (muito jovem mesmo!) participante do Clube do Conto da Paraíba, Raoni Xavier de Lucena, foi um dos premiados, o que enche de orgulho seus sompanheiros do Cluibe!

Agora, após selecionar os 10 melhores contos inscritos, através de uma comissão formada 3 escritores renomados (Marília Arnaud, Hildeberto Barbosa Filho e Mercedes Cavalcanti), Magno Nicolau convida para o lançamento da coletânea CONTOS PREMIADOS, que será no dia 28 de setembro, no Parahyba Café, a partir das 19h.

(Parahyba Café - Av. Juarez Távora - início da Epitácio Pessoa - Centro Cultural Saelpa)

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (3)

Clube do Conto
Publicado no Correio das Artes, João Pessoa, 28/07/2006
(CAPA)

Memória literária

Por Patrícia Braz

Ele diz que da memória só bebem os justos. Àqueles que merecem guardar a memória depois da morte. Sobre seus personagens presentes na obra "Memória do Fogo" (Objetiva, 128 páginas), o escritor Ronaldo Monte diz que eles morrem sem memória. A memória que os habita é a do fogo, a do deus que os recolhe finalmente em seu seio. E explica: "O conceito psicanalítico de memória com o qual eu trabalho não coincide exatamente com o de lembrança ou recordação. Nem toda memória torna-se lembrança. Nem toda lembrança é confiável como factível", arremata. Para o autor que estréia no gênero romance, a memória do fogo é o que resta daquilo que não foi perdido e se descortina na história dos personagens entremeada pelo fogo, cada qual ao seu modo, compondo um manto tal qual uma colcha de patchwork, cujos retalhos medidos são trechos de vidas.Ronaldo Monte se debruça sobre o tema da memória chamuscada pelo fogo das vidas dos personagens que inspiraram o escritor ainda quando perseguia o doutorado, desde os anos de 1990 e 1991, em Campinas. De lá para cá tem sido um exercício constante de lapidação. Segundo o autor o texto estava pronto há cinco anos. "Mas como eu não queria mais uma "edição do autor" e não aparecia oportunidade de furar o mercado nacional, o texto foi sendo revisado, comentado por gente de confiança. Acho que esse tempo de espera fez bem ao livro. Ele amadureceu", avaliou."Memória do Fogo" (R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou "O vôo da Guará Vermelha", de Maria Valéria Rezende, e "Voláteis", de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, "buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo". Mas está longe de ser enquadrada como literatura regional, algo há algum tempo atribuído ao estilo de Ronaldo. E o autor explica: "acho que esta questão já está superada. De uma forma ou de outra, todos somos regionalistas. O escritor que conta as tramas de um quarteirão da avenida Paulista ou de uma favela do complexo do Alemão está, a seu modo, sendo regionalista. No final das contas, falamos todos de uma região virtual que nos habita e nos constrói. Ela é composta dos lugares em que vivemos, das pessoas que roçamos, dos livros que lemos, dos quadros que vimos, dos filmes ou novelas que vemos. Esta região nos acompanha e exige que falemos dela". Na opinião de Maria Valéria Rezende, a obra a que se remonta é digna de ler uma e outras vezes seguidas, sob a doce pena de descobrir uma nova viagem a cada processo. Sobre o possível aspecto regionalista do texto ela afirma: "vida humana é vida humana em qualquer lugar, e dar conta dela é o papel da literatura, em qualquer lugar"

Ao ser questionado sobre qual o ponto de partida para criar e construir um trabalho literário a exemplo deste último recentemente apresentado ao público (Memória do Fogo foi lançado em João Pessoa na última sexta-feira, 21), Ronaldo, tomado pelo ímpeto de soltar uma despojada risada que se dissipa pelos quatro cantos do terraço azul da casa onde mora, no Bairro dos Estados, na pacata João Pessoa, diz, entre risos: "não sei". Assim, curtinho e simples, deixando a impressão de que entre concepção e tradução em palavras até formar uma obra de reconhecimento literário autenticado por doutores em Letras a exemplo de Neroaldo Pontes e João Batista de Brito, há uma distância que não se traduz em tempo nem em forma.As idéias, segundo Monte, surgem como algo que não é buscado. Sua inspiração, conta Ronaldo Monte, resulta do encontro de uma impressão do cotidiano com uma exigência de expressão de alguma coisa interna que a princípio lhe é desconhecida. Diz não ser do tipo de escritor que se cerca de silêncio e distância para expelir sua genialidade. E acrescenta: "Claro que não escrevo com gente bisbilhotando às minhas costas nem fazendo zoada no meu pé de ouvido. Mas mostro logo tudo que faço ao pessoal da casa. Minha mulher é meu primeiro censor, mas nem sempre a escuto. A experiência com o Clube do Conto de João Pessoa é muito boa para uma avaliação permanente da minha produção. Toda semana tem um tema para o dever de casa. Nos fins de tarde dos sábados nos reunimos e lemos a produção da semana. Se o autor autorizar, faz-se a crítica do texto, evitando-se o clima persecutório. Devo ao Clube do Conto o aprimoramento do meu texto, além da publicação do "Memória do Fogo". Sobre o ato em si de traduzir a história reservada na mente em palavras com sentido e ordem, Ronaldo diz que nesse ponto cabe ao escritor, "dominar o impulso. Domesticar a sua exigência". E como que frente a um segundo personagem que responde pela alcunha de "Idéia" apresenta-se a ela como se a tal sujeita fosse seu oponente e concorda: "tudo bem. Eu escrevo", para em seguida ordenar:" Mas há as exigências. As minhas exigências". À esta altura, caro leitor, permitam a esta repórter tentar descrever a cena que se fazia compor durante o exercício jornalístico de entrevistar uma sumidade como Ronaldo. Enquanto seguia explicando a dinâmica da escrita, acrescentando o diálogo mantido com a tal da "Idéia", Ronaldo se desprende do momento em que está contextualizado, ou seja, concedendo uma entrevista exclusiva para este suplemento literário, perde-se em segundos e assume ares de um autêntico ator em pleno exercício de interpretação dramática. Um só instante, diriam agentes do fazer teatral, em que o personagem toma conta do ser. Revelado o momento de interação entre escritor e idéia, Monte ressalta que, como tal, tomado pelo desejo de dominar o elemento matéria-prima da história, é necessário colocar-se como escritor de fato e atuar, tirar os excessos, conter as palavras pomposas e dar espaço para a emoção do leitor.E confessa que não escreve para si nem acredita tampouco que alguém o faça. Também diz que não escreve para qualquer um. "Acho que assim estaria fazendo bobagem. Escrevo para certas pessoas". Sobre a obra Memória do Fogo, Sergio Rodrigues diz: "não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Ronaldo tem voz própria e um admirável domínio da linguagem". O rápido flagrante do transe voltará a marcar essa entrevista que em tom descontraído e despretensioso navegou pela narrativa apresentada pelo escritor sobre sua vida. Além de psicanalista, Ronaldo foi também repórter foca do Caderno de Esportes, do Jornal do Comércio, em Recife, e ainda publicitário. È também, e especialmente, nesta fase em que atua como criador de textos publicitários que o psicanalista diz ter exercitado sobremaneira a construção da linguagem. Lembra que nessa época trabalhou com Ítalo Bianchi, profundo conhecedor do latim, da língua portuguesa. E, numa "espécie" de competição com Bianchi na busca constante do texto perfeito acabou por esmerar a construção textual.O ofício da escrita veio, portanto, antes do outro ofício que carrega, o de psicanalista. O escritor conta que já na infância se aventurava pelo sabor de escrever poemas. Mais tarde vira redator de propaganda, em Recife. "Afiei meu texto a soldo. Aos poucos fui tentando o texto curto, uma crônica aqui, um conto ali, alguns textos inclassificáveis que teimavam em continuar poemas. Foi a psicanálise que cafetinou minha escritura. Meus textos acadêmicos são palatáveis, o que não quer dizer que sejam de fácil digestão". Ronaldo considera natural que as pessoas, ao saber que também é psicanalista, passem a procurar e até, achar em seu texto referências ao Édipo, à castração, etc. E confessa: "Mas até onde eu saiba, não procuro deliberadamente tratar de temas psicanalíticos. Mas como nada do que é humano é estranho à psicanálise, é natural que os personagens vivam certos temas visados pelo saber psicanalítico. Só não posso negar que minha forma específica de escuta, marcada por uma neutralidade benevolente, influencia o modo como permito que os personagens se expressem, como consigo sintonizar com seus sentimentos, numa espécie de identificação que aprendi a usar no consultório".

O argumento central da história apresenta um grupo de cachaceiros, totalmente vividos pela embriaguez e que se junta em um determinado lugar para enfrentar um destino comum. Segundo o autor, o que ele fez foi acompanhar a trajetória de cada um desses homens desde a meninice até o momento do encontro. "Estabeleci que cada um deles teria uma profissão ou uma experiência marcante ligada ao fogo. Mas logo no primeiro capítulo apareceu uma mulher com uma filha no colo. Darque, Joana Darque, é o seu nome. Ela vai cruzar com cada um destes homens ao longo da narrativa. Aproveitei dela para contar evolução do uso do fogo nas cozinhas. Ela só se casará com um homem que lhe der um fogão a gás", conta o autor. De acordo com Ronaldo a história conta a trajetória de pessoas que são lançadas no mundo em completo desamparo e não conseguem construir suas vidas. São devorados pelo fogo do álcool que toma conta de suas memórias. Antes, lhes empresta uma memória construída em torno de quase cinzas. No final, o fogo é como um deus benevolente que consome seus filhos a partir do dentro de seus corpos. Como uma graça por haverem se embebido da água ardente. "Podem até pensar que fui cruel com meus personagens. Mas eu fui misericordioso", pondera. No romance, o elemento fogo aparece revestido nas suas mais diversas manifestações, e, de alguma forma, costura os personagens que desfilam pelo livro de Ronaldo. Ele ressalta que há uma relação entre o fogo que consome e a tal água ardente. Eles incorporam como divindade. E a memória que lhes vem a partir dessa ingestão é a memória dessa divindade. O elemento central é falar da transcendência do íntimo de modo pífio, já que não se tem muito por onde transcender. O autor revela que o livro traz muitas referências que levam o leitor a entremear-se entre as palavras e que tem mais cheiro do que cor. "O cheiro das cozinhas, por exemplo, é fortemente emergido", lembra. No texto é visível a permanência da estrutura do conto em cada um dos capítulos. Mas eles só fazem sentido quando vistos em conjunto. No tempo de construção do livro, Ronaldo Monte conta que logo após o que pensou ser uma obra literária concluída expoente do gênero romance - pelo menos era o que ele pensava já ter feito -, colocou a versão (a primeira) nas mãos de dois amigos sobre os quais resguarda grande admiração e sobretudo, respeito, Neroaldo Pontes e João Batista. Segundo o escritor eles foram unânimes em afirmar que o texto era muito bom, mas que não era um romance. "Voltei para casa e tentei criar um eixo que costurasse mais firmemente os capítulos. Mesmo assim, eles guardam ainda uma certa independência", e brinca: "espero um crítico generoso que chame isto de pós-modernismo".A oportunidade de lançar o romance pela Objetiva, na opinião de Ronaldo demonstra que não é necessário estar dentro do "eixo" São Paulo/Rio para fazer parte dele. E diz: "Nem todo escritor do falado 'eixo' está dentro dele. O 'eixo' é o mercado", define. Ronaldo mora em João Pessoa e não vê isso como obstáculo para inserir-se no mercado. Nascido em 1947, em Maceió (AL), é psicanalista radicado na Capital paraibana onde além de escrever também atua como psicanalista e clinica no oitão de sua casa. Confessa ser um leitor que não dispensa o que lhe cai as mãos. "Não sou um leitor sistemático. Minha família não tinha tradição de leitura e tive que me virar sozinho. Mas lá em casa tinha uma coleção do Tesouro da Juventude que foi a minha salvação. Comecei com José Lins do Rego de quem tomei emprestado o imaginário rural". À esta altura Ronaldo se declara um nordestino urbano do litoral, um caranguejo, como disse Gilberto Freire", conta. E acrescenta: depois vieram Machado de Assis, Graciliano, Guimarães Rosa e quase todo o Mário de Andrade e um poço do Oswald. Os poetas também pontuaram o seu acervo de leituras literárias. Entre eles "Bandeira, Vinicius, Drumond, Murilo Mendes, João Cabral, Mário Quintana, enfim, o serviço militar obrigatório e passagem também obrigatória por Fernando Pessoa, Lorca e Octavio Paz. E ainda um pouco de Baudelaire, para não esquecer os franceses". Entre as mulheres Monte destacou. Clarisse Lispector e Adélia Prado. E na confluência da poesia com a psicanálise tem Hölderlin. Dos pernambucanos, além do texto de Gilberto Freire, relata que recebeu forte influência de Hermilo Borba Filho, passou um tempo querendo ser o João Ubaldo. E lê, mais ou menos por livre associação Thomas Mann, Günter Grass, Antonio Callado. "Um texto que muito me espantou foi o de Saramago. Li o "Memorial do Convento" numa edição da Difel, muito antes dele se tornar famoso. Hoje, estou enjoado da sua forma. Recentemente, ando encantado pela narrativa de Ítalo Calvino. Gostaria de ter a delicadeza dele". E para arrematar, comentário de Chico César, músico paraibano, sobre obra e autor de Memória do Fogo: "estou lendo e ouvindo a música que vem das palavras de Ronaldo que conheço de longa data e ainda me espanta".
Saiba MaisRonaldo Monte é autor dos livros: "Pelo Cantos dos Olhos", "Memória Curta", "Tecelagem Noturna", "Pequeno Caos" além de ter publicado em parceria com Pedro Osmar o poema intitulado "W.T.C", (de World Trade Center).

(Correio das Artes, 29 e 30 de julho de 2006)

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Autores do Clube do Conto: Dôra Limeira

Clube do Conto

Os restos de Dôra

Ronaldo Monte – Poeta e psicanalista

Dôra Limeira é barra pesada. A tinta de sua escrita é feita metade de adrenalina, metade dos excrementos do corpo e da alma dos humanos.

Dôra escreveu dois livros de contos. O primeiro é Arquitetura de um abandono, de 2003. O outro é Preces e orgasmos dos desvalidos, de 2005. Desaconselho os dois às almas leves e afeitas a desmaios. Os contos de Dôra doem como uma espremida de carnegão.

A escrita de Dôra se faz com o que sobra, o que resta, o que excede dos corpos. Mas os donos desses corpos, eles mesmos, restam, sobram, excedem num mundo de lugares e cartas marcadas. E estes seres nos incomodam de dentro da escrita de Dôra, da mesma forma que nos causa incômodo vê-los nas ruas. Mas se nas ruas podemos virar os olhos a estas exceções humanas, não podemos evitá-las nos textos de Dôra.

O trabalho de Dôra se assemelha ao de uma irmã de caridade que vai ao encontro dos sofredores nos lugares sórdidos do mundo e os acolhe nas páginas dos seus livros. E ao nos mostrar o sofrimento em toda sua crueza, Dôra nos convoca a ser co-responsáveis por este sofrimento. Coisa não muito difícil de alcançar, pois, no fundo, aqueles lá somos nós, sem tirar nem pôr. Apenas relutamos em nos reconhecer. Encontro com Dôra quase todo sábado, no Clube do Conto. Para brigar e beber chocolate quente. Com o tempo que sobra, lemos e ouvimos contos nossos e alheios. A cada novo conto de Dôra que conheço, mais me aproximo de sua humanidade. Mais me aproximo de minha própria humanidade. Quanto mais ela apura o seu estilo, mais me sinto instigado a escrever melhor a cada dia. Ninguém sai de perto de Dôra Limeira do mesmo jeito que chegou. Eu já disse e repito: esta senhora é barra pesada.

Como se fosse uma ata... (registro do dia 26/08/2006)

A reunião passada [do dia 26/08/2006] registrou a volta gloriosa da companheira Valéria, após suas peripécias angustiosas em torno de ambulância, UTI no ar, hospital e coração. Chegou e já levou um texto sobre "chuva". Bravo, Valéria!

Foi sensacional nossa última reunião. É interessante como um tema banal como a chuva, pode originar expressões tão diversificadas. Quase todos levaram textos para serem lidos.

Alguém leu o conto de Mainieri, que foi bastante comentado. Quase todos concordaram que o elemento "flagrante", com a chegada repentina dos patrões teria dado mais impacto ao final do conto. Alguns outros acharam que outro impacto foi quebrado logo no começo da história: o fato da personagem ser "empregada doméstica". Acharam que se isso fosse revelado no final, o texto ficaria mais forte, mais impactante. As discussões foram muito animadas em torno desse texto, o pessoal sempre admirando o empenho com que o tal "gaucho" vem participando ativamente das atividades em torno de cada tema. Outra pessoa leu o conto de Laudelino, que não pôde comparecer, mas enviou o texto sobre "viagem no tempo". Surpreendentes sempre, o Laudelino e seus textos. Mas, Pepita registrou que o autor, por um lapso, trocou os dois nomes dos dois personagens no final da história. "Isso, em cinema, se chama 'erro de continuidade'", declarou o cinéfilo, professor, crítico de arte e contista João Batista.

Quanto ao próximo tema, sugeri "eleição", mas o pessoal optou por "coração", obviamente uma homenagem à nossa amiga Valéria, em franco processo de recuperação da saude.

Marília compareceu com bolo e velas de aniversário para que comemorássemos os aniversários de André e Mariano. Mas, que coisa. André não compareceu. Mariano, após saber que havia um bolo sobre a mesa da reunião, veio correndo e trouxe seu conto sobre "chuva".

Bem, gente, eu sinto falta dos tempos em que cada reunião gerava uma ata, geralmente jocosa, bem humorada. Sinto saudades também dos tempos em que, sem programação, sempre havia objstos de cena ou adereços sobre a mesa, conforme os temas. Era muito bom quando sempre havia alguém fotografando, registrando nossas imagens tão descontraidas. Dira faz falta.

Espero ter assinalado nesta quase ata realmente o que aconteceu na reunião de sábado passado. Claro que devo ter omitido ou fantasiado algum fato, que minha cabeça não é de ferro. Mas, espero que me corrijam, que acrescentem alguma coisa que, por acaso, eu tenha esquecido.

Tirando André, Ronaldo, Dira, Brendan, Raonix, Alexandre, os demais estiveram presentes, se não me falha a memória.

Dou fé.

Dôra

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Autores do Clube do Conto: Antonio Mariano (1)

Clube do Conto

Moção de protesto contra o contista Antonio Mariano

Imensa asa sobre o dia
Antônio Mariano
Coleçao Tamarindo, Dinâmica Ed. João Pessoa, 2006.


Nós, abaixo assinados, protestamos contra os maus-tratos infligidos pelo contista Antônio Mariano ao seu personagem Jailson em seu novo livro Imensa Asa sobre o dia.
Concordamos que tem muita criatura que sofre nas mãos do seu criador. Mas poucas sofrem tanto quanto Jailson nas mãos de Antônio Mariano. Em noventa e cinco páginas o pobre leva uma surra, confundido com um ladrão que ele mesmo perseguia; é tratado como uma criança invisível pelos pais; é demitido por justa causa sem justa causa; morre de uma porrada do próprio pai; morre envenenado pela tia que ele mesmo tentou um dia envenenar mas se arrependeu; morre outra vez picado por uma viúva negra que o tirou para dançar; fica com fome enquanto os outros comem – por via oral – sua namorada Maria Dulce; leva um sopapo entre o nariz e o beiço com o caroço de uma fruta atirado por uma menina que ele queria bem; é internado na Colônia Juliano Moreira por descobrir-se poeta; é responsável pelo desaparecimento de Alice, sua irmã, num poço que aparece de repente no meio do caminho. Por fim, Jailson morre definitivamente nas mãos de um amarelo, quando “o sol apontava no nascente espantando a sombra da noite, imensa asa sobre o dia.”

Imensa asa sobre o dia, da Coleção Tamarindo, é o título do livro de contos em que Antônio Mariano maltrata o pobre do Jailson. E faz isto com tamanha competência sádica que leva o leitor ao deleite, cooptado pelas astúcias do estilo e da imaginação do autor. Quanto mais sofre Jailson, mais goza quem lê Mariano. Sabemos que assim é a vida, pelo menos a vida que imita a arte, mas não precisava exagerar.
Além do mais, o autor nos engana ao se fazer de contista. O que esperar de um poeta que se lança aos contos? Que recheie seus contos de poesia, como um confeiteiro rechearia um pão; um sacoleiro, a sacola; um traficante, o fundo falso da mala. Um inspetor de alfândega competente não deixaria passar como simples prosa os contos de Imensa asa sobre o dia, cuidadosamente editado por Juca Pontes para a Editora Dinâmica. O próprio título do livro já denuncia a presença dos grãos finos da poesia no granulado da prosa. E quanto mais Antônio Mariano domina os dois ofícios, mais sofre o pobre do Jailson em suas mãos.

Por tudo isto, senhoras e senhores, eu vos convoco a assinar comigo esta moção de protesto, para que não se alastre entre a nossa juventude os pendores sádicos revestidos de uma prosa cavilosa e cativante, na esteira deste mau exemplo que nos dá o poeta e contista Antonio Mariano.

João Pessoa, 19 de agosto de 2006

Ronaldo Monte.

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (2)

Clube do Conto


Publicado em RASCUNHO, o jornal de literartura do Brasil - Curitiba, 28 de agosto de 2006
http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=25&lista=0&subsecao=0&ordem=956


O PÓ E AS BRASAS

por Suênio Campos de Lucena • São Paulo – SP

No novo romance de Ronaldo Monte, a memória é tratada como alegoria contra o apagamento das coisas


Memória do fogo Ronaldo Monte Objetiva 128 págs.

A Objetiva está lançando mais um volume da série Fora dos eixos. Após publicar os livros do gaúcho Paulo Scott (Voláteis) e "descobrir" a excelente escritora Ma. Valéria Rezende (O vôo da guará vermelha), freira que surpreende pela qualidade de sua prosa, a editora carioca edita agora o livro Memória do fogo, de Ronaldo Monte, 59, alagoano radicado na cidade de João Pessoa, Paraíba. Professor de psicologia, psicanalista, poeta e colunista do jornal Correio da Paraíba, Monte já publicou os títulos Pelo canto dos olhos (1983), Memória curta (1996), Tecelagem noturna (2000), Pequeno caos (2003) e World Trade Center (2004).

A idéia da série Fora dos eixos é bastante válida (tanto que nos perguntamos por que só agora estaria acontecendo) e merece todos os louros, sobretudo, por colocar no mercado brasileiro vozes que dificilmente ultrapassariam as cercanias de suas regiões, uma vez que, lamentavelmente, quase não há editoras com boa distribuição fora do eixo Rio - São Paulo. O que não quer dizer que os autores que residem nesse (tal) eixo gozem da glória e que seus livros se transformem instantaneamente em best-sellers. Ainda há uma infinidade de nomes que não chegaram às escolas, à academia, às indicações de vestibulares, adaptações, traduções, etc. Assim, o mais interessante é pensarmos sempre em como pulverizar mais e mais a produção de bens literários, fazendo-os chegar a um contingente cada vez maior de pessoas. Felizmente já existem muitos exemplos. Alguns autores como Rinaldo de Fernandes (que vem revelando muita gente de talento como na recente coletânea Contos cruéis, Geração Editorial), Ruy Espinheira Filho e tantos outros, além de periódicos como Et cetera (Curitiba), Continente multicultural (Recife), Correio das artes (João Pessoa) e o próprio Rascunho vêm fazendo isso, todos com alcance nacional. Isso para não falarmos na febre do momento, que são os blogs e sites literários.

Em Memória do fogo temos, entre outros, um canavieiro, um lanceiro de maracatu, um padeiro, jovem vidente, um órfão e um mecânico, distribuídos em sete episódios (Cara preta, Caboclo de lança, Boca de forno, Massapê, Meia luz, Darque e Cinzas), personagens imersos numa espécie de névoa, de sonho, isso num universo claustrofóbico, de almas e contextos áridos e que nos remete vagamente à armadura de Vidas secas, o célebre romance de seu conterrâneo Graciliano Ramos. Não que Memória do fogo tenha forte conteúdo regionalista (a despeito de se passar numa região que lembra o sertão, a caatinga, um canavial), mas porque é possível ler suas histórias independentemente, apesar de serem interligadas. Aos poucos, o leitor perceberá que são blocos intermediários que se montam, mosaicos que ganham muito se lidos em conjunto. Cada "episódio" conta um pouco da vida de cada personagem. Aos poucos, eles se aproximam. E se encaixam.

O entrechoque entre a urbis e o rural, a idéia de desenvolvimento em paralelo ao sujo, à pobreza, à miséria e ao pitoresco são elementos que convivem fortemente numa linguagem que busca certa eufonia musical ("Menino feio me proteja, que mesmo eu não sendo negro - que eu não sei que cor eu tenho - preciso de proteção nessa hora tão escura. Menino feio, que eu não sei quem é você, me livre dessa agonia, que eu não queria ficar aqui", pág. 34), uma poeticidade para além do simples desenrolar de fatos. Esforços do autor em alcançar uma linguagem tersa, pois não há diluição nem fragmentação e, embora em alguns momentos o texto possa parecer rebuscado, isso não acontece porque o livro está amparado em linguagem e expressões populares, reforçando o conhecimento do autor nas guiadas, chapeados (carregadores), jiraus e demais vocábulos típicos dos sujeitos, objetos e ambientes retratados. Pode-se dizer que o falar popular está representado com intensa força dramática. Talvez por isso, o livro não tenha gordura nem excessos. Ao contrário, Memória do fogo vai do pungente gracilianismo à densidade e dicção cabralinas.

Leitura da alma

A noção de memória é colocada em prática por Ronaldo Monte no sentido de herança, verdade. No capítulo inicial/primeira história, por exemplo, enquanto aguarda um trem, um menino começa a "descobrir" alguns segredos dos outros. Ele lê/vê a alma das pessoas, o que elas realmente sentem, muito além das idéias de passado e futuro elencados pelos ciganos e sensitivos. Uma leitura da alma e de aura, da verdade escondida do outro.

Memória aqui é alegoria que luta contra o apagamento das coisas, a morte, o esquecimento. Em Teogonia, de Hesíodo, Jaa Torrano relata que a memória é a quinta união de Zeus. Depois de suas uniões com Mêtis, Thémis, Eurynóme e Deméter, Zeus se junta à Memória. Na lista de suas esposas, Memória está entre Deméter e Lete. Alétheia, explica Adélia Bezerra de Meneses, "é o não esquecimento: alétheia (a, ou alfa privativo + letheia, de lethe = esquecimento)". Para os gregos, memória é uma deusa, Mnemosyne, que, em sua união com Zeus, gerou nove musas em nove noites passadas. Elas lembram aos homens a recordação dos heróis e seus feitos e, sobretudo, inspiram os poetas.

Em Mito e pensamento entre os gregos, Jean-Pierre Vernant destaca a noção de "força infernal" do esquecimento, que surge num contexto carregado de negatividade, destruição, desterro, abismo. A idéia de esquecimento associada à morte ocorre a partir da união entre Mnemosyne (memória) e Lethe (esquecimento):

Léthe, Esquecimento, associada a Mnemosyne e formando com ela um par de forças religiosas complementares. Antes de penetrar na boca do inferno, o consultante, já submetido aos ritos purificatórios, era conduzido para perto das duas fontes chamadas Léthe e Mnemosyne. Ao beber na primeira, ele esquecia tudo da sua vida humana e, semelhante a um morto, entrava no domínio da Noite. Pela água da segunda, ele devia guardar a memória de tudo o que havia visto e ouvido no outro mundo... Como a mãe das Musas, ela tem a função de "revelar o que foi e o que será". Mas, associada a Léthe, ela se reveste do aspecto de uma força infernal, agindo no limiar do além-túmulo.

Ressaltando que a evocação do passado não faz reviver o que não existe mais, ou seja, a simples rememoração, a volta ao tempo não faz "esquecer" nem apaga a realidade, Vernant lança (e procura responder) uma questão que, aliás, persegue boa parte dos estudos sobre memória: "Qual é então a função da memória? Não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol".

Vendo o esquecimento como cativeiro ("o cativeiro e o esquecimento de Matyendranâth constituem um motivo pan-indiano. Os dois infortúnios exprimem, plasticamente, a queda do espírito... no circuito das existências e, conseqüentemente, a perda de consciência de Si"), Mircea Eliade afirma no ensaio Mitologia da memória e do esquecimento (no livro Aspectos do mito) que
na medida em que é "esquecido", o "passado" é identificado com a morte; ressaltando que a literatura indiana utiliza imagens de prisão, ignorância e esquecimento para representar a condição humana; e, ao contrário, imagens de liberdade, memória e recordação para exprimir a abolição (ou a transcendência) da condição humana, a liberdade, a libertação.

E é exatamente isso o que buscam os personagens de Ronaldo Monte. Todos trazem essa crença de não esquecer a memória do fogo para não serem vencidos, não se rebaixar, apesar das agruras de suas existências.

O fogo é a marca principal que os faz agir - é a memória de nossos antepassados diante da aparente surpresa da combustão emanada pelo bater de pedras ("o que tem para lembrar um homem que entregou sua memória ao fogo? A memória do fogo. O que o fogo deixou de si nos buracos da memória que ele mesmo roeu", pág. 15). Eles passam essa força (que nunca seca), a fim de enfrentar os medos primitivos da morte, do frio, da fome e da solidão que acompanham o homem: "Não, eu não vou morrer!". É o que parecem nos dizer seus personagens. Eles carregam essa memória de luta, refletindo a condição humana de pobres seres desamparados e fadados à destruição.

No lamento do aspirante a caboclo de lança ("Queria ser caboco de lança e o feitiço da cachaça e da mulher não deixou. Queria amar uma mulher e seu Zé não deixou. Agora estou aqui, debaixo desse sol, cercado por essas canas, indo não sei pra onde, com um camarada que sabe quem eu sou, mas não me diz", pág. 44), culpado e só, não há derrota, mas constatação - é preciso fazer algo urgentemente; é preciso lutar para não se apagar. Assim também é o lamento da protagonista de Darque: "Só me caso quando puder ter um fogão a gás" (pág. 96). Tudo conflui para esta memória de dor, de exploração, de tristezas e misérias abismais, mas ainda assim não irreversíveis.

Romance quase todo composto por imagens, o elo maior que une os fios e teias dessa gente sofrida, para além da memória, é esta lembrança do fogo, lembrança que não se apaga, não se esquece, esta memória do fogo, mesmo que no fim (vale destacar que não há começo nem fim nessa(s) história(s) de Ronaldo Monte) restem apenas o pó, as brasas, ou melhor, as Cinzas, como nos lembra o autor em seu último texto.

Sobre o autor: Ronaldo Mote é alagoano radicado na cidade de João Pessoa (PB). É professor de psicologia, psicanalista, poeta e colunista do jornal Correio da Paraíba. Autor dos livros Pelo canto dos olhos, Memória curta, Tecelagem noturna, Pequeno caos e World Trade Center.

Autores do Clube do Conto : Ronaldo Monte (1)

Clube do Conto
em no mínimo TODO PROSA 24/06/06
http://todoprosa.nominimo.com.br/?p=81

Por Sérgio Rodrigues

Primeira mão

Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’

“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.
O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.
Até que uma hora só ficaram cinco pessoas. Cinco não, seis, pois eram quatro homens e uma mulher com uma menina no colo, os olhos das duas meio desencontrados, quase zarolhos, fazendo sentir uma nesga de pena. Os outros, reparando bem, não eram homens feitos. Metidos no trabalho da palha da cana ou no calor da moenda da usina, seus corpos atarracados pareciam de homens, pois ninguém ali crescia muito, era difícil distinguir pelo tamanho um homem de um menino. Mas a cara deles era de menino. Cara de quem ainda espera pelo tempo. E estavam ali para saber o que o tempo havia de lhes dar. O menino olhou de um em um e foi sentindo um aperto no peito. Era difícil dizer o que via. Porque a bem dizer não via. Umas manchas se mexiam no espaço pouco iluminado entre ele e cada um, como a pedir me diga. E ele não sabia dizer. Olhou mais, olhou muito e aos poucos as manchas foram tomando sentido. Mas as palavras, as palavras que as manchas pediam, não se formavam no peito do menino, não subiam pela sua garganta, não ferviam em sua boca como as que cuspiu na cara dos primeiros adivinhados. Olhou primeiro para a mulher com a menina e não viu nada separando as duas. Eram uma coisa só, como se tivessem um só destino. Só no fim, sentia, alguma coisa ia quebrar em muitos pedaços o que agora ele via inteiro. No primeiro menino viu uma lança enfeitada de fitas espetando seu peito. Depois viu um com a cara vermelha de frente para o fogo. Numa cara de menino com dois olhos viu a cara de um homem com um olho só. Num outro, viu um corpo coberto de uma lama cinzenta, parecendo a armadura de São Jorge rachada pelo sol. Não sabia direito o que estava vendo. Baixou a cabeça e disse: não estou vendo nada não, minha gente, vão embora. A verdade da gente ainda está pra se fazer. Disse assim, da gente, sem saber direito por que se botava no meio deles. Nunca tinha visto aquelas pessoas, mas era como se fossem seus irmãos.

Publicado por Sérgio Rodrigues - 24/06/06 12:01 AM

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (1)

Clube do Conto

Publicado em NO MÍNIMO / TODO PROSA
http://todoprosa.nominimo.com.br/?p=81

Primeira mão

Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’

“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.
O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.
Até que uma hora só ficaram cinco pessoas. Cinco não, seis, pois eram quatro homens e uma mulher com uma menina no colo, os olhos das duas meio desencontrados, quase zarolhos, fazendo sentir uma nesga de pena. Os outros, reparando bem, não eram homens feitos. Metidos no trabalho da palha da cana ou no calor da moenda da usina, seus corpos atarracados pareciam de homens, pois ninguém ali crescia muito, era difícil distinguir pelo tamanho um homem de um menino. Mas a cara deles era de menino. Cara de quem ainda espera pelo tempo. E estavam ali para saber o que o tempo havia de lhes dar. O menino olhou de um em um e foi sentindo um aperto no peito. Era difícil dizer o que via. Porque a bem dizer não via. Umas manchas se mexiam no espaço pouco iluminado entre ele e cada um, como a pedir me diga. E ele não sabia dizer. Olhou mais, olhou muito e aos poucos as manchas foram tomando sentido. Mas as palavras, as palavras que as manchas pediam, não se formavam no peito do menino, não subiam pela sua garganta, não ferviam em sua boca como as que cuspiu na cara dos primeiros adivinhados. Olhou primeiro para a mulher com a menina e não viu nada separando as duas. Eram uma coisa só, como se tivessem um só destino. Só no fim, sentia, alguma coisa ia quebrar em muitos pedaços o que agora ele via inteiro. No primeiro menino viu uma lança enfeitada de fitas espetando seu peito. Depois viu um com a cara vermelha de frente para o fogo. Numa cara de menino com dois olhos viu a cara de um homem com um olho só. Num outro, viu um corpo coberto de uma lama cinzenta, parecendo a armadura de São Jorge rachada pelo sol. Não sabia direito o que estava vendo. Baixou a cabeça e disse: não estou vendo nada não, minha gente, vão embora. A verdade da gente ainda está pra se fazer. Disse assim, da gente, sem saber direito por que se botava no meio deles. Nunca tinha visto aquelas pessoas, mas era como se fossem seus irmãos.

Publicado por Sérgio Rodrigues - 24/06/06 12:01 AM

Autores do Clube do Conto: Geraldo Maciel

Clube do Conto
Estranhas criaturas em cenário desacertado

Cecília Zokner [22/07/2006]
www.parana-online.com.br

A primeira edição, com data de 1995 e pela Editora Rio Fundo, do Rio de Janeiro, esgotou e, dois anos depois, Aquelas criaturas tão estranhas foi, novamente, publicado pela Editora Manufatura de João Pessoa: pequeno volume de agradável manuseio, que reúne vinte e um contos de Geraldo Maciel, engenheiro civil que se revela um exímio contador de histórias. Sua galeria de personagens é instigante. Nela, embora alguns se abriguem, muito bem, sob o título do livro – o pai e seus dois filhos se refugiando num lugar inóspito, as três irmãs possuidoras de poderes misteriosos, Aldonário e suas mágicas deploráveis, Lezama, o bonequeiro que, embriagado, destruía os seus bonecos – outros não estão longe dos humanos que lhe serviram de modelo e, quer se queira ou não, ainda vicejam por esse país afora: Adãozinho que, na cidade, exercia “o férreo poder sobre várias cabeças de gado e gente”; o delegado que a enxaqueca fazia lembrar os “serviços” que fizera; o velho Pompeu que a vida inteira trabalhou fazendo estradas e se conforma com uma aposentadoria de “três tostões furados”; Agrípio que não conseguiu, pela miséria em que viveu, criar os filhos que tivera; o preso por ter matado mulher e filhos porque não podia, sequer, alimentá-los.
Obediência filial, cobiça, o drama da mulher, relações amorosas inusuais, autoridade arbitrária e desmedida, solidão, irreversível pobreza, ensejam relatos que testemunham a realidade do país ou ultrapassam as fronteiras do real para se aproximar do fantasioso de um moderno conto de fadas, para palmilhar caminhos delineados pelo sobrenatural. Universos que se recriam numa expressão que oscila entre o lirismo e a troça e se constrói com hábil e sutil manejo de um conhecedor de seu ofício.
Vozes anônimas como a da mulher do conto “Meus meninos” ou a do homem que “O que posso lhe contar?” que uma vida paupérrima leva à situações extremas. O sofrimento de quem deve – “desgraça silenciosa” – comerciar o seu corpo. E disso não apenas ter grande pejo como consciência de que é “surrupiado de uma outra vida” quase tão miserável quanto a sua, “esse dinheiro sebento e amarrotado” que recebe para não morrer de fome ainda que os bocados amarguem a boca e façam “marejar os olhos de lágrimas”.
Dirigida a uma senhora que o fora visitar na cadeia, a confidência iniciada com a pergunta que dá o título ao conto “o que posso lhe contar?” que encadeia as outras: “A senhora conhece o interior? Já viveu por lá? Sabe o que é uma seca?” Repostas que ele mesmo dá e que se referem a viver em chão alheio, em casa alheia, à injustiças, a trabalhar “de sol a sol”, “de inverno a verão” e comer pouco “para não ficar devendo ao patrão”. E, num crescendo, o testemunho de uma sobrevivência na miséria: a fome, o acirrado desespero de ser incapaz de supri-la, a louca decisão: “A mulher me olhou como quem já sabia o que eu ia fazer e tenho certeza que até pedindo para que eu fizesse logo”.
Contrapondo-se ao doloroso viver – martírio sem redenção – que tais vozes, perturbadoras e terríveis, afirmam existir, as seqüências que revelam situações tão descabidas que pareceriam uma invenção trocista não fossem as já conhecidas trapalhadas com que os governos subdesenvolvidos aquinhoam o seu povo: engenheiros do governo – “Pensavam que a terra era um pedaço de papel colorido e traçaram um risco preto de um ponto a outro” – a determinar, planejar, decidir tarefas e rumos, explicar muito, para fazer uma estrada que resulta em nada. Porque os “trechos se trespassaram com distância de léguas. Uma turma foi detida quando, já na Bahía, se preparava para demolir uma igreja que o imperativo da engenharia mandava demolir; uma outra turma desapareceu num túnel que ela mesma escavou num paredão da serra de Borborema. O grupo que abria caminho e piqueteava na vanguarda perdeu-se para sempre: ultrapassou os limites do mapa do engenheiro. Só foi encontrado o grupo que passou três anos trabalhando em círculos, atapetando de poeira os próprios rastros e dando acabamento naquele moto perpétuo. Os engenheiros também nunca mais apareceram”.

GERALDO MACIEL é membro do Clube do Conto da Paraíba.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Romeiros (Clube do Conto representado na FLIP)

Sem rumo certo, vão e vêm de cabeças baixas. Seus corpos ondulam numa coreografia sonâmbula. Sozinhos, aos pares ou em pequenos bandos, dão alguns passos e param. Só aí se vê que não é de tristeza a expressão de seus rostos. É de um certo êxtase, de quem não acredita de fato que está ali. Logo voltam a olhar para o chão e a caminhar lentamente sobre as pedras. São os romeiros de Parati, numa insólita procissão em louvor da palavra. A pluralidade das vozes denuncia: estão ali para a Festa Literária Internacional de Parati, a Flip. O comportamento estranho entre o cabisbaixo e o êxtase deve-se ao calçamento irregular feito de pedras no tempo da colônia. É impossível andar olhando para frente ou para os lados. É preciso parar para poder ver as casas, as galerias, as livrarias, os bares e botecos que disputam nossos olhos. É parado também que se vê o passar do tempo sobre o lugar. E somente parados podemos procurar o olhar do outro com quem compartilhar o deslumbramento. O Clube do Conto de João Pessoa estava lá. Na noite de quinta-feira, dia 10 de agosto, no Che bar, fizemos uma autêntica farra literária paraibana, batizada de Parathyba. Vendemos livros, sorteamos livros, demos muitos livros. O bar estava lotado. Muita gente estava lá para conhecer a turma daquela freira da Paraíba que tinha feito o maior sucesso na mesa de abertura da Festa, na manhã daquele dia. E foi a própria Valéria Rezende que apresentou o Clube.
Valéria, Barreto, Marília, Suênio Campos e eu erramos como romeiros pelas ruas de Parati. Fomos festejar a palavra. Cabisbaixos algumas vezes. Em êxtase na maior parte do tempo pela beleza da polifonia.
Ronaldo Monte

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Ata chocante (do dia 8/7/2006)

O Clube do Conto é uma entidade anarco-organizada, sediada num ponto indefinido preciso, com contos que falam e contistas que ouvem mudos. Na edição anterior, vários desgarrados apareceram. Regina, João Batista, Brendan, Laudelino, Alexandre e Eduardo, Barreto e Valéria, Dôra, Raoni e Cartaxo. Dos choques que ali tivemos, só eu e Dôra. Alguém me ajude, ou serei eletrocutado. Outras leituras: João, Raoni, Lau, Alexandre (conto dedicado a minha pessoa, muito legal). Barreto leu um esboço interessante de proposta de Cláudio, que também leu um conto sobre o tema capa. Estamos avaliando esta semana uma espécie de censo dos contos. E por último, ganho por votação, teremos o tema ônibus para o próximo sábado. Algo mais?

André Ricardo Aguiar

domingo, 9 de julho de 2006

Uma mera proposta sujeita a chuvas e trovoadas *

Sei que o Clube do Conto tem a informalidade como princípio. Nada de academicismo. Se bem entendi, a regra é evitar a regra. Na entidade prevaleceria um clima de descontração que induz seus participantes a cometimentos inusitados. Estimula-se, dessa forma, consciente ou inconscientemente, a criatividade – característica que tem iluminado essa grei sabatina, a começar pela escolha dos temas dos contos, alguns insólitos. Destaco, a escatologia – um tema imundo, nos termos da historiadora da confraria em seus registros internéticos (1). Imundo, repugnante, fétido, nauseabundo, grotesco, de extremo mau-gosto e muito impróprio para quem logo mais, no jantar, irá deglutir uma sopa. Impregnado pela enxurrada literário-escatológico de há pouco, o confrade ou a confreira poderá ter anulada a sua apetência. A trivial e até então bendita sopa poderá lhe parecer agora uma gosma marrom-diarréia onde bóiam restos de vômito, resquícios de expectoração e bem nutridas ascaris lumbricoides ao invés de nutritivos pedaços de legumes, saudáveis nacos de carne e suculenta porção de macarrão. A vítima trófico-literária poderá perder completamente o apetite. E ainda mais dificilmente conseguirá vencer a inapetência se após a sopa vierem quibes bem tostados.

Concordo com a contista e historiadora Dorinha Limeira quanto ser a escatologia um tema imundo. Mas, transcendendo a etiqueta pequeno-burguesa – ah, ninguém fala mais na ideologia pequeno-burguesa..., saiu da moda, desapareceu dos discursos progressistas –, reconheço, também, que os assuntos catarrais, pútridos, excrementícios e outros abundantes temas, têm sua validade como instigadores literários. Vejam-se, entre outros, os exemplos do norte-americano Charles Bukowski, do cubano Pedro Juan Gutiérrez e o do brasileiro Rubem Fonseca, que os inserem nos seus escritos. Agrego a esses o tabajara Augusto dos Anjos (rasgo nativista?), que, entre outras inspirados versos, poetou:

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(Psicologia de um vencido)

O injustiçado sapeense chegou a divinizar o Fator universal do transformismo/ Filho da teleológica matéria (...) no soneto O Deus-verme, cujos tercetos informam dietas alimentares da divindade:

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus a maior porção!

Indiferentes a eventuais engulhos, obstruções de narinas, rictos de nojo e outras reações voluntárias ou involuntárias, os temas evacuatórios e similares podem estimular outras dimensões da imaginação. Esse acréscimo criatico foi demonstrado pela contista historiadora em suas reminiscências ciberespaciais. No registro da sessão dedicada à escatologia, Dorinha Limeira acrescentou uma nova faceta criativa – um adereço original – ao clima literário da reunião:

O objeto de cena era um imenso penico de alumínio com um bolo inglês dentro (massa pronta). O bolo estava desarrumado, todo troncho, com uma cobertura marrom escura de chocolate, gosmenta, desarranjada. Misturados àquela cobertura gosmenta, havia pedaços de papel higiênico, sujos de chocolate. Parecia que alguém com diarréia braba tinha usado o penico, tinha se limpado e jogado o papel lá dentro. E assim, inspirados nesse cenário, íamos lendo nossos contos. Tinha gente que se contorcia de tanto rir. Como ainda estávamos usando o espaço do cafezinho, os passantes olhavam, detinham-se um pouco e nada entendiam. (...)

Ao término das leituras dos contos escatológicos, foi a hora do lanche. Todos comeram da sebozeira que estava dentro do penico. Aliás, uma delícia. Só quem não comeu foi Barreto (Geraldo Maciel). "Quero comer essa porcaria, não!!!", dizia ele. Mas, que cabra besta (e educado – acrescento eu – pois usou o termo porcaria evitando palavra mais realista).

A idéia da ilustração do tema é interessante, motivadora. Se a moda se consolidar, será necessária muitíssima ou nenhuíssima criatividade quando os escritos versarem sobre erotismo. Temática universal e imemorial, vem sendo explorada desde a conhecida história do binômio formado pela cobra de Adão e a maça de Eva, abordado naquela velha marchinha de carnaval, gravada pelo fanhoso Jorge Veiga. (A história da maça/ É pura fantasia/ Maça igual aquela/ O papai também comia/ Eu li num almanaque/ Que um dia de manhã/ Adão tava com fome/ E comeu a tal maça/ Comeu com casca e tudo/ Não deixando nem semente/ Depois botou a culpa/ Na pobre da serpente...).

Após tais considerações e cônscio de que o informalismo deve prevalecer no Clube do Conto, gostaria – sem desprezar tal princípio – de sugerir uma pequena inovação. Proponho que haja alguma discussão sobre os contos apresentados. Ao menos sobre uma amostra deles. Como fazê-lo, seria mais um desafio à nossa criatividade. É frustrante para quem escreve ter o laconismo ou o silêncio como reação ao seu texto. Após a leitura dos mesmos advirem apenas alguns elogios vagos (Beleza! Muito bem! Bom! Valeu...) ou aquele hum hum... hum hum que, muitas vezes, insinuam uma bem-comportada aprovação sobre algo que poderia ser melhor fruído caso houvesse algumas perguntas. Por outro lado, acredito que seria benéfico, enriquecedor, para todos nós, haver informações sobre o que gerou o texto, o que ele encerra de realidade e de ficção, quais as transformações sofridas por ele ao longo da sua feitura... enfim, qual o processo da sua criação.

Não estou propondo nenhuma defesa de tese, nenhum esgrima monográfico, nenhum pega-pra-capar teórico. Sugiro, apenas, uma troca de idéias mais acurada sobre os textos. Considero tal medida estimulante bem como uma forma de aprendizagem recíproca.

Cláudio José Lopes Rodrigues

* Texto apresentado na reunião do sábado, 08 de julho de 2006.
(1) Clube do Conto História do Clube - 5º capítulo - Um tema difícil. http://clubedoconto.blogspot.com/2006/04/clube-do-conto_07.html

terça-feira, 20 de junho de 2006

Um sábado de futebol e de contos (10/06/2006)

No 1.º tempo já haviam sido narrados os contos de Dôra, André, Dira e Cláudio José. No momento em que cheguei em campo estavam lendo uma coluna de João Batista que logo em seguida fez um lançamento e emendou com um conto. Barreto então pediu a bola e finalizou com um chute de canhota, foi comemorar com a sua torcida organizada TJNSQL (Torcida Jovem Num Sei Que Lá). No banco de reservas estavam Valéria e Mariano. Já nos acréscimos apareceram Brendan e Cartaxo. No final ficou empate e a decisão do próximo tema seguiu pra loteria dos pênaltis. Deu zebra, o tema Surpresa venceu.

Quem será que irá surpreender mais?

Ata do dia 3 de Junho de 2006

Um sábado atípico, com poucos contistas presentes, Ronaldo, Barreto, Mariano, Dôra, um rapaz que não sei o nome e os atrasados, eu, Regina e Elivan. Todos se infectaram com os 3 contos lidos e pra desopilar dessa chuva de bactérias, fomos caminhar um pouco para visitar Valéria. Pra finalizar, por conta da Copa do Mundo, foi decidido por unanimidade que o tema da próxima semana será FUTEBOL. Está lançado o desáfio. De quem será o gol mais bonito?

Obs.: O rapaz que eu não sabia o nome é Cláudio José.

domingo, 28 de maio de 2006

Há quem não goste do Clube do Conto

Saiu dia 22 de maio na coluna do Abelardo, do Correio da Paraíba:

Enviado por gilson salgado
Abelardo, Estive na Bienal ontem e fiquei feliz com o que ví nos estandes.Cousou-me espanto, no entanto, discussão ocorrida no auditório com pessoal do clube do conto da Paraíba , pensei em encontrar uma discussão literária, mas aqueles escritores me pareceram anacrônicos e medíocres. Sai com quinze minutos... Gilson.

....... bastaram quinze minutos para o moço descobrir que somos "anacrônico e medíocres"!!!

Deu no Jornal da Paraíba

Clube do Conto

21/05/2006
Escritores pessoenses reúnem-se para formar o ‘Clube do Conto’

ASTIER BASÍLIO

Ontem à tarde, a grande atração da abertura da Bienal Nacional do Livro da Paraíba, realizada em João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego, foi a reunião do Clube do Conto da Paraíba. Para quem nunca ouviu falar no grupo, o clube é composto por uma série de escritores que se reúnem com regularidade e nestes encontros apresentam seus trabalhos e propõem temas para futuros contos. De acordo com a escritora Dôra Limeira, a idéia de se reunir surgiu a partir de conversas na lista de discussão na internet “Contistas da Paraíba”, criada pelo escritor Antônio Mariano de Lima. “Víamos que morávamos bem próximos uns dos outros, por isso, resolvemos nos encontrar e as reuniões foram se repetindo, outras pessoas foram se aproximando”, recorda Dôra. O início foi em 2004, no Shopping Sul, localizado no bairro dos Bancários em João Pessoa. De lá pra cá, os escritores têm publicado fanzines com os contos cujo tema é proposto nos encontros e já planejam uma antologia, a sair este ano. Não existe diretoria, nem presidência. Os integrantes levam tudo na maior informalidade. “Fazemos uma ata bem divertida, sem aquela coisa rigorosa”, conta Limeira. Os temas propostos são os mais variados possíveis, de escatologia a celular, por exemplo. Dentre os escritores que fazem parte do Clube do Conto da Paraíba estão André Ricardo Aguiar, Dôra Limeira, Valéria Rezende e Antonio Mariano, Marília Arnaud, Mercedes Cavalcanti, entre outros. Quem quiser acompanhar as atividades do Clube do Conto pode fazer isso acessando ao blog do grupo: http://www.clubedoconto.blogspot.com

Coluna de Nara Limeira sobre o Clube do Conto da Paraiba

Clube do Conto

É o nome do novo movimento literário que surgiu em João Pessoa há 2 anos. Começou com um encontro virtual, troca de opiniões, textos e conversas on-line. Marcaram um café, um bate papo presencial e o grupo foi crescendo. A coisa tomou gosto. O movimento já tem cerca de 25 contistas botando a roda da prosa pra girar. Lá, num cantinho reservado do Shopping Sul (perto da livraria Almeida), escritores veteranos e novatos trocam sorrisos, experiências, palavras, textos, mini-contos. Sempre aos sábados, final da tarde.

Com esta prática, retomam elementos importantes para a cultura e para a vida. Reelaboram acordos, recriam regras, fazem leituras dos seus contos em diferentes dicções e possibilidades. Comentam entre si e, segundo depoimentos deles, ajudam-lhes a crescer muito. O Clube do Conto é anárquico no melhor sentido da palavra.

O mais jovem participante tem 16 anos e a faixa etária dos mais velhos chega perto de 70. Portanto, sem fronteiras entre décadas e gerações, o Clube do Conto é inclusivo e plural, admitindo todos os estilos e influências. Para participar basta gostar de literatura, querer escrever e não precisa ter publicado nada. Uma redação escolar pode ser o começo de tudo. Não significa obviamente que isto vá resultar numa carreira literária de sucesso, mas, o despertar de uma grande paixão pela literatura e, quando o assunto é livro, muitas portas se abrem. Na verdade, abrem-se mundos.

Assisti à participação do Clube do Conto na Bienal do Livro (sábado, 20, no Espaço Cultural) onde foi narrada a sua história com detalhes de bastidores que só eles conheciam. Hoje, o movimento computa mais de 150 contos produzidos para aqueles encontros dos sábados e está editada uma antologia que sairá ainda este ano. Além do projeto da antologia, o Clube do Conto quer levar a literatura para os lugares onde exista público em potencial. A idéia é invadir lugares como restaurantes, salas de teatro e cinema e declamar seus contos, distribuir folhetos com cópia de alguns e dizer da existência do movimento.

O que mais me impressionou, ao ver o Clube do Conto na Bienal do Livro, foi perceber como os seus componentes valorizam o encontro semanal. A literatura de cada um deles poderia existir individual e independentemente no papel, no livro ou no computador. Porém, o Clube do Conto, em si, só existe se eles se encontrarem presencialmente em torno do café, dos comentários, da troca de experiência e afetividade. Afinal, a vida é o alimento da arte. A comunidade aguarda a Antologia do Clube do Conto a ser editada neste ano de 2006 pela Funjope, a Fundação de Cultura de João Pessoa.

Nara Limeira

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Ata da reunião de 20 de maio de 2006, que se realizou na Bienal do Livro

A mais recente reunião do Clube do Conto aconteceu na Bienal do Livro Paraibano, no dia 20 de maio deste ano de 2006. Em sala fechada, ar condicionado, um número razoavelmente grande de pessoas se organizou em círculo para ver o que ia acontecer. Alguns escritores em geral, uns funcionários e professores da universidade, algumas pessoas curiosas, a representante da Bienal do Livro (Clotilde Tavares), a representante da Funjope (Petra Ramalho), o editor do Correio das Artes (Linaldo Guedes), todos queriam saber exatamente o que era o Clube do Conto, seus objetivos, seus modos de funcionamento. Dentre os contistas presentes, os que mais se pronunciaram foram Barreto e Valéria. Empolgaram-se nas suas explicações, falaram sobre as relações humanas que se desenvolvem entre as pessoas integrantes do grupo de contistas. Valéria fez um breve histórico sobre a origem do grupo, Barreto complementou a fala de Valéria em alguns momentos, preenchendo alguma lacuna. As pessoas visitantes fizeram perguntas, queriam saber mais coisas. Eu notei, pela expressão dos olhares, o interesse, a curiosidade. A representante da Funjope, que é a diretora da Divisão de Literatura (Petra Ramalho) se preocupou em colocar seu setor à disposição do Clube do Conto. Perguntou como poderia ajudar, o que fazer para melhorar. Barreto tentou mostrar a necessidade da Funjope cumprir o compromisso assumido há algum tempo de editar nossa primeira antologia, que está pronta. Se a Funjope tem interesse em colaborar com o Grupo, acrescentou Barreto, há necessidade da Funjope assumir as prováveis futuras edições de outras antologias e de outros impressos do Clube. Foram muitas as conversas, discussões, debates. A maioria das pessoas manteve-se em silêncio, no entanto as mais afeitas a discursos, falaram, falaram e falaram. De modo que muitas informações necessárias, interessantes e curiosas foram repassadas às pessoas presentes ao evento. As falas duraram quase uma hora e meia, tempo que a Bienal colocou à nossa disposição. Assim, pouco tempo restou para a já tradicional leitura dos contos. No entanto, assim mesmo imprensados, premidos pelo escasso tempo que nos restou, alguns de nós lemos nossos contos, mais precisamente, eu, Valéria e João Batista. Em seguida, aconteceram os agradecimentos de Clotilde Tavares (da Bienal) e de Petra Ramalho (da Divisão de Cultura da Funjope). Encerrada a reunião, todos bateram em retirada!!! Essas coisas se passaram segundo minha ótica. Quem tiver outra ótica ou quiser complementar, ou corrigir alguma coisa, que se pronuncie agora ou se cale para sempre. Assino em baixo de tudo que escrevi.

Dôra Limeira

terça-feira, 2 de maio de 2006

Ata do Clube

O Clube do Conto é composto com um sem-número de contistas com um sem-número de compromissos. Tem quem faça viagens ao redor do planeta, tem quem fique sob cobertas, outros que, tortos, desarranjam a realidade e mais alguns que, por força de querer segurar a barra dos horizontes, faça fogueira até em dia de chuva. O Clube se reúne aos sábados e mantém um corpo coletivo custe o que custar. É uma peste que assola do terraço dos fundos da livraria.
No último capítulo a presença de uma mesa, cadeiras e uns poucos remanescentes do grupo maior estiveram a cumprir as seguintes tarefas: tagarelar, falar mal dos outros, perguntar se o próximo fez o dever de casa, contar vantagens e desvantagens. Os presentes, numa ordem aleatória, foram André, Barreto, Dora, Raoni, Laudelino, Cartaxo, Regina, Brendan. Como eu temo esquecer algum nome, os que apareceram em forma de ausência estão aqui também. Fique registrado que as ausências são mais sentidas ainda.
O tema versado foi “nascimento”. O tema seguinte, “achados e perdidos”. O processo dos contos-parágrafos avança morosamente. Mas a simplificação para apenas dois contos pode resolver o assunto. De informes, a boa notícia do futuro lançamento do livro de contos de nosso querido Geraldo Maciel e as discussões em torno de nossa participação na Bienal.
Mas isso será assunto para uma posterior postagem.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Antologia à vista

A Funjope publicará proximamante uma antologia de contos do Clube do Conto da Paraíba. Os textos que comporão a Antologia, todos apresentados pelos contistas em sessões do Clube, já estão reunidos e em fase final de revisão.

Jabuti, o Clube do Conto já tem um!

Resenha do livro "A Família Canuto" premiado com o Jabuti de Literatura, de CARLOS CARTAXO, membro ativo do Clube do Conto da Paraíba

ANATOMIA DA RESISTÊNCIA NO LATIFÚNDIO AMAZÔNICO

Domingos Meirelles*

Ao resgatar a tragédia que se abateu sobre o clã dos Canuto no Sul do Pará, Carlos Cartaxo produziu um relato comovente de uma das páginas mais sórdidas da vergonhosa história do latifúndio na região amazônica: o confronto desigual e perverso entre os grandes fazendeiros e os trabalhadores rurais que lutam para sobreviver, num ambiente desapiedado e hostil, onde o código gelatinoso das leis se orienta mais pelo tilintar das moedas do que pela boa aplicação do direito.
Nessa terra de ninguém, onde os interesses econômicos se amancebam com a impunidade e a corrupção, é que trafega a narrativa romanesca de Cartaxo, em sua denúncia social sobre os crimes cometidos no rastro do destrambelhado processo de ocupação da Amazônia promovido pelos governos militares, a partir de 1964. Com um texto claro e contundente, despojado de arabescos literários, mas com sabor de romance, o autor nos conduz pela trilha de esperanças que João Canuto percorreu, do interior de Goiás ao Sul do Pará, onde seus sonhos foram enterrados junto com ele.
O tom romanesco que perpassa as páginas do livro, onde a mistura de jornalismo e literatura tem o compromisso de realçar a denúncia das misérias do campo, não compromete o caráter documental da obra; ao contrário, imprime ao relato de Cartaxo extraordinária dimensão humana, sem que ele se deixe contaminar pela criação de heróis bem construídos, criados ou revelados em narrativas semelhantes, como é comum no gênero. Os personagens que recolheu entre as muitas desgraças que povoam Rio Maria foram reconstituídos com alma, carne e ossos, sem que o autor lhe conferisse uma aura que os singularizasse como "seres excepcionais". Cartaxo não forjou mitos - ele fala apenas de homens e mulheres, gente pobre do campo que não se curvou diante da opressão e do arbítrio. Com a precisão e a clareza de uma aula de anatomia, ele expôs as misérias e grandezas de uma família de camponeses que se transforma num exemplo de resistência diante da espoliação dos fazendeiros da região.
Em sua maioria representantes de uma burguesia emergente e arrogante, vinda de outros lugares, os grandes proprietários não suportam a coragem, a determinação e a altivez dos Canuto - João, a mulher Geraldina e os filhos ainda adolescentes. Acusado de invadir fazendas, quase todas latifúndios improdutivos, em companhia de posseiros expulsos de outras roças, Canuto atrai o ódio dos novos ricos empenhados em aumentar seu patrimônio a qualquer preço na floresta amazônica. Em Rio Maria, havia ainda outro bom motivo para que essa oligarquia moderna, "cria da ditadura militar", detestasse a presença de Canuto naquele lugar: ele era também um dos mais ativos militantes do PC do B na região.
Numa tarde escaldante de dezembro de 1985, João Canuto foi tocaiado e morto por dois pistoleiros de aluguel com 14 tiros à queima roupa, um deles na cabeça, um pouco acima da sobrancelha direita. Foi morto na rua, para que todos vissem. A multidão compungida, que acompanhou seu corpo pelas ruas, entoava hinos religiosos e cantava a música Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré. Canuto foi enterrado no novo cemitério de Rio Maria, onde a maioria das covas abriga centenas de posseiros, vítimas como ele, da violência no campo.
A cena do enterro é uma das páginas mais comoventes do livro. Nas faixas que seguiam à frente do cortejo, lia-se uma palavra de ordem: "Reforma Agrária, Já!" Na floresta de estandartes e galhardetes, que seguia o caixão, viam-se bandeiras do PC do B e do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Rio Maria.
O fazendeiro mandante do crime foi solto através de habeas corpus. Os assassinos foram também contemplados com o mesmo benefício. Libertado, o mandante deixou a região, cumpriu breve exílio voluntário em Goiás, e quando o caso esfriou, retornou a seus afazeres, no Sul do Pará.
O Processo foi engavetado e ninguém foi condenado. A família Canuto ainda perdera mais dois filhos, executados a mando do latifúndio. Em 93, permaneci dez dias em Rio Maria produzindo um Globo Repórter. Então, pude entender porque a violência e a impunidade se apossaram daquela região. O livro de Cartaxo é um comovente libelo contra a barbárie no campo.

* Jornalista, apresentador do programa "Linha Direta" da Rede Globo, e escritor, autor de "As Noites das Grandes Fogueiras - Uma História da Coluna Prestes".

Resenha publicada na Revista "Saber" , Ano I - Nº 3, julho/agosto - 2001, p. 31.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Membros do Clube em Contos Crueis

Vários membros do Clube do Conto participam da coletânea "Contos Cruéis", que acaba de ser lançada pela Geração Editorial. São eles: Geraldo Maciel, Marília Carneiro Arnaud, Wellington Pereira, entre outros escritores da Pataíba.

Confira:

O livro Contos Cruéis, organizado pelo professor de Literatura Rinaldo de Fernandes, traz o que há de melhor sendo produzido na literatura nacional contemporânea sobre um tema polêmico: a violência, que está cada vez mais presente em nossas vidas.São 47 contos, entre inéditos e consagrados, um de cada escritor, entre canonizados, veteranos e novatos de várias regiões do país. Antes de cada conto há um pequeno perfil do autor, com a bibliografia de outros de seus trabalhos. Há trabalhos consagrados como Feliz Ano Novo (Rubem Fonseca), A casa de vidro (Ivan Ângelo), Venha ver o pôr-do-sol (Lygia Fagundes Telles), Capitu sou eu (Dalton Trevisan), O jardim das oliveiras (Nélida Piñon), entre outros. Há também obras de Marçal Aquino, André Sant'Anna e do próprio organizador do livro.Indicado para pessoas de estômago forte e não facilmente impressionáveis, que tem curiosidade em saber como escritores de diversas regiões do país convivem com um tema que atormenta, mas ao mesmo tempo fascina.
INFORMAÇÕES
Autor(a): Rinaldo de Fernandes (org.)
Páginas:420
Editora:Geração Editorial
ISBN:857509145-X
Preço Sugerido: R$ 48,00

Clube do Conto

Clube do Conto A HISTÓRIA DO CLUBE DO CONTO SEGUNDO DORA LIMEIRA:
PRIMEIRO CAPÍTULO:

Tudo começou quando o poeta Antônio Mariano criou a lista de contistas na internet e nos convidou para participar. Na lista, conversa vai, conversa vem, MValéria Rezende dizia que mora atrás do shopping sul. Ainda através da lista, eu dizia que moro bem pertinho, que às tardinhas eu costumo tomar cafezinho no shopping. Daí que Valéria dizia: "Ah, Dôra, quem sabe tomamos cafezinho toda tardinha sempre em mesas vizinhas sem nos conhecer!" Através da lista, marcamos encontro, eu e ela naquele mesmo dia, à tardinha, para nos conhecer. Essa foi a primeira idéia nova: extrapolar o virtual para um encontro presencial. Daí que, olho no olho, conversamos muito, tomamos muito cafezinho, muito chocolate, compartilhamos coisas que escrevemos, nossos métodos ou modos de criar, facilidades, dificuldades, a solidão do ato de escrever, a falta de partilhamento, e por aí vai. Daí trocamos a seguinte idéia: E se?...
(Aguardemos o segundo pequeno capítulo)

Dôra Limeira

Clube do Conto

Clube do Conto História do Clube - 2º Capítulo

SEGUNDO CAPÍTULO - E se?

E se pudéssemos reunir o pessoal da lista para umas conversas informais nos finais de tarde dos sábados? Os encontros poderiam acontecer ao redor de uma mesa do Cafézinho. Dito e feito. Primeiro veio Mariano, depois André Ricardo Aguiar, eu, Valéria, depois chegou Dira Vieira. Eu ainda nem conhecia Dira pessoalmente. Foi uma festa. Trazíamos nas bolsas nossos contos inéditos. Marília Carneiro Arnaud também chegou. Líamos nossas histórias, nos comentávamos. Os assuntos e os contos eram aleatórios. Mais pessoas iam chegando. Barreto (Geraldo Maciel), por exemplo. A cada sábado, mais gente. Juntávamos duas mesas do cafezinho. Era uma coisa muito apertada, um pouco tumultuado devido à promiscuidade com os passantes e alguns ficantes curiosos. Muito barulho no hall do shopping, ora era dia da criança, ora era desfile de modas infantis, ora era música ao vivo lá em cima, ou baile de deficientes físicos da APAE, enfim, um barulho infernal. Pensamos em mudar de lugar. Eis outra idéia nova: mudar de lugar. E se?

Dora Limeira