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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Conto de Romarta
Conto de Maria Romarta.
* * *
SEPARADOS
A chuva brincava de sumir e aparecer, então, Luíde nem se dava ao trabalho de fechar o guarda-chuva. Lílian havia esquecido o dela, por isso se abrigava ali, junto do ex-marido. As malas rente aos pés dos dois também se valiam daquele abrigo.
Eles estavam a passar um final de semana na casa de campo que tinham. Tudo ia muito bem até que Luíde, do filho, se pôs a lembrar.
- Se ele tivesse sobrevivido ia gostar de brincar naquele campinho.
-Com essa chuva toda?
-Não. Nos dias de sol.
-Também gostaria que ele estivesse aqui.
-Mas bem que eu pedi a você, Lilian, não vá ao trabalho, você precisa de repouso, fique em casa! Mas você foi. E lá acabou tropeçando, caindo da escada... Se tivesse me ouvido...
Depois disso, simultaneamente cada um fez as malas, cada um tirou seu carro da garagem e saiu estrada a fora. Foi aí que se tornaram ex. Porém, não foram muito longe, a estrada tentou, até que conseguiu prender os carros ao chão.
Juntos de novo, mas separados e numa ideia conjunta, o casal caminhou até outra estrada que havia mais adiante e cada um ligou pedindo um táxi.
Sob o mesmo guarda chuva os dois mentiam calados, sozinhos. Após uma eternidade, um táxi apontou naquela estrada, ziguezagueando pela lama. Era o que Lílian havia chamado. O taxista, eterno de simpatia, disse qualquer coisa sobre quase não ter conseguido chegar até lá. Ela não deu muita importância, foi guardando as malas, enquanto, Luíde somente observava a chuva ir abraçando o rosto dela.
- Você vem?- O taxista perguntou ao ex.
- Não, estou esperando outro táxi.
Lílian entrou naquele carro pela porta da esquerda e acenou pelo vidro, como quem dizia milhões de coisas.
Nesse momento, Luíde percebeu que despedida tem gosto, não necessariamente bom.
Aquela despedida, aliás, tinha um gosto. Gosto de quando a gente fala o que não deve.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Conto de Joedson Adriano
BOI PRO PALÁCIO
queriam dois jumentos ao cavalo igualar-se
começaram então a praticar em casa
a nobre equitação pra levar à praça
o coxear costumeiro que caçava disfarce
um quanto humilde e nem tanto muar
após muito treinar seus coices ao vento
percebeu que nem pra andar tinha talento
e ainda menos pro altivo cavalgar
entanto o outro mais vaidoso e marrento
além de sem dom nem aí pro treinamento
insistiu em ir contra a sua natureza
e sua vida mais que o comum foi dureza
em cada exposição as vaias e os urros
da sincera platéia a lhe chamar de burro
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Conto de Sérgio Janma
Mais uma estreia no blog do Clube, conto inédito de Sérgio Janma.
* * *
ISCA DE PEIXE E ESPINHAS
E que Shiva dance para ele a dança criadora de um novo mundo, podendo nele viver refeito.
A noite começou para Dartagnan com seu torpedo para sua ex-mulher e sempre amiga: - Tô angustiado. - Ponto. Só isso. E nenhum torpedo em resposta. Sem os remédios que o fazem dormir, sua angústia crônica levou-o então para as ruas. Caminhou-e-caminhou. Chegou a uma pizzaria onde talvez encontrasse seu melhor amigo. Não estava lá. Lá ficou. A música era boa. Anos 80. Saudosismo de cinqüentões. Na pizzaria não quis pizza. Pediu isca de peixe só para recordar e homenagear um tempo bom de Olinda que acabou mal. Também pediu uma cerveja e vieram logo três em um balde com muito gelo. O garçom adivinhou o quanto o seu organismo agüenta beber, ou serviu mais de uma para lhe poupar o trabalho de ser chamado tão cedo? Dartagnan achou que não terá que pagar as que não beber.Desliga o celular. É uma maneira de tirar férias do mundo, já que não consegue tirar férias de si mesmo.Depois das cervejas vem a isca. Após lambuzar a primeira fritura em um molho rosa, Dartagnan abocanha-a por inteira. - Coff! Coff! Coff... - Epa! Uma espinha atravessou sua garganta! - Já não se fazem isca de peixe como antigamente -, resmunga. - Antes era só com filé. Essa que serviram nem desossaram, pondera em silêncio, resignado. Poderia até ser uma metáfora: quando se isca o passado,ele vem inteiro: carne e ossos. Difícil de engolir como essa isca; ambos engasgam. A boa música mantém Dartagnan ali. Repara o ambiente. Na mesa em frente, o gordo casal balança os ombros ao ritmo da balada romântica. Os que estão à sua direita falam em inglês... acha, ou em alemão, sabe-se lá, com a música alta não dá mesmo para ouvir direito. A mesa a sua esquerda o deixa em dúvida. Das duas, uma: como gesticulam muito, ou eles falam por Libras, ou são italianos.Sente vontade de ir ao banheiro na metade da terceira cerveja. Onde é que fica? Na sua procura pelo alívio imediato não cruza com nenhum garçom para perguntar. Decide se deixar guiar pelo cheiro peculiar. Para sua felicidade, acha a gaiola dos desesperados com facilidade. Dartagnan percebe que o programa para o resto da sua noite seria aquele. Bom para no máximo uma hora. Pede a conta. Volta de táxi.Em casa, pensa no amanhã e no que ontem disse sua atual ex-mulher. Essa mulher, por ser amiga, ainda está presente no seu presente. Diferentemente da sua primeira ex-mulher que está em um passado que ela teima em querer fazê-lo presente. Sua amiga-e-mais-recente-ex-mulher disse que amanhã talvez fosse vê-lo. Talvez... talvez ele use sua isca e a puxe para dentro fechando a porta, aperte a bunda rija da moça ao encontro do seu rijo pau em riste. Ou feche a porta, deixando-a do lado de fora, depois de dizer – com licença, não me leve a mal, fica aí no meu passado, fora da minha casa, fora de mim. Talvez Dartagnan precise ficar só. Sem querer o mundo que acabou e que, por isso, não pode ser mais seu.Tenha talvez que parar de lançar suas iscas ao passado na intenção de pescar as sobras do que era gostoso pelo seu frescor. Porque o peixe do passado apodreceu. Trazê-lo, pela simples lembrança do prazer que ofereceu, o sufocará com as únicas coisas que sobraram: suas espinhas.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Thiago Arruda - Sessão de Contos (14)
Nesta semana, temos a estreia de Thiago Arruda aqui no blog!
***
AS SOMBRAS SABEM. AS SOMBRAS SÃO CÚMPLICES.
Sei que, quando essa vela acabar, vai incendiar aquela palha e finalmente pôr isto aqui abaixo. Sei que, quando ela acabar.
Não olho para ela. O fogo pede meu olhar, que eu nego. Não devo respeito nenhum a quem pode me destruir.
A sombra da cadeira observa tudo, flamejante. As sombras sabem. As sombras são cúmplices.
Vejo como o pavio queima, como a chama lhe espanca, numa batalha em que, apesar de árdua, já se sabe quem será o vencedor. Não é fácil para um homem derrotar um muro. O fim da vela é uma flor iluminada, é uma mesa de centro bonita de presépio.
A flor de fogo sacode. Avisa desesperada ou excita-se sob a proximidade do fim, a eternidade: nosso amor era um pavio. O pavio não deixa rastro, o pavio nunca existiu; o pó.
Deixo o cachimbo, ainda com fumo, que acendia com o fogo da vela. Reparo nas sombras que me traíram, omitindo-se de confirmar a minha versão dos fatos, o que quis dizer confirmar a sua; a sua versão filha da puta e mentirosa dos fatos. Os seus fatos.
Minha mão se movimenta independente de mim: falta muito pouco para nada. Tento fazer como daquela vez, sentir o meu corpo em ligação com uma parte do que eu espero. Estou num dia pouco inspirado. Talvez devesse ter escolhido um dia melhor para, finalmente, descer. (Velas parecem com crianças, que parecem com a vida: quando se está sempre observando, nunca se percebem as mudanças.)
Passo um a um por meus pensamentos. Retiro à força suas mãos da minha cabeça, de que querem se apropriar; sigo meu caminho. Essa obstinação não me vem todo dia. Pouco inspirado, mas obstinado, fiz a opção certa, terra. Só espero que a vela ainda me permita pensar um pouco mais, sobre ela.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Norma Alves - Sessão de Contos (13)
A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.
Nesta semana, exibiremos um conto inédito de Norma Alves. Boa leitura!
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VAMPIRO EM CRISE
Conto inspirado no personagem Bento Carneiro de Chico Anysio.
Nesta semana, exibiremos um conto inédito de Norma Alves. Boa leitura!
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VAMPIRO EM CRISE
Que desespero! Sair do túmulo gemendo, procurando sangue e nada.
Cadê os dentes? Será que existe dentadura pra vampiro? Como ser respeitado sendo banguelo! O jeito é incomodar com uivos, assim todos ficariam acordados . É isso aí. Antes do sangue dos defuntos virar goiabada, o povo começou a drená-lo. Eram tantas mamadeiras nas madrugadas! Mas a coisa começou a ficar feia. Não estava dando pra matar a sede. Notei os olhares dos vivos, preocupados. As mulheres menstruadas corriam como o diabo da cruz; os homens em crise de hemorroidas sentavam-se, na tentativa de enganar o olfato.
Ei, você aí! Tá rindo de quê? Tá pensando que é mentira minha? Tomara que você caia de uma janela de dois metros de altura e ainda morra em pé! Vampiro brasileiro, banguelo sem plano de saúde e de morte. Blah!
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Dôra Limeira - Sessão de Contos (12)
A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.
Nesta semana, um conto de Dôra Limeira. Boa leitura!
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EU QUERO COMER BRIGADEIRO
Preto, traje roto, sandálias de dedo, ele morava num aglomerado habitacional de taipa, na periferia. Era menino ainda, mas suspeitaram que fosse bandido. Seu corpo amiúde fazia mogangas sobre um monte de barro, no arruado onde morava, equilibrando-se com agilidade. Brincava de ser cristo redentor, braços esticados, mãos estendidas sobre um corcovado de brasilites e isopores rasgados. Vadiava sob os aplausos da meninada e dos adultos desocupados. De tanto repetir a brincadeira, ganhou um apelido: “Cristo Redentor”, Cristim na intimidade. Era franzino, comprido e não tinha medo de nada. Nos horários da escola, ora estendia seus braços em cruz sobre o arruado, ora se postava junto aos semáforos. Fazia malabarismos e virava cambalhotas diante dos carros parados no sinal vermelho. Comia fogo, canivetes, tesouras. Assim, ganhava uns trocados e entregava, em casa, à sua mãe que também tinha apelido – Dona Maria de Cristim. Um dia, final de tarde, parou junto à vitrine de uma lanchonete. Foi quando suspeitaram que fosse bandido. Imóvel, avistou os doces e brigadeiros, bolos confeitados, empadas e pastéis. As glândulas salivaram. Com a fome nos olhos e a boca babando, Cristim apalpou os bolsos rasos da bermuda. Ouviu o tilintar das moedas que arrecadara comendo tesouras no último semáforo. Retirou as moedas do bolso e pensou eu quero comer brigadeiro. Mas não houve tempo. Um jato de sangue jorrou-lhe das entranhas e as moedas tilintaram no chão. Rolaram ladeira abaixo, alegres. Para Cristim, já não valiam nada. Seu corpo deu entrada no IML, sem sinais especiais que o identificassem, sem dono. Serviu de exemplo nos noticiários de televisão. O rosto morto foi capa de revista policial. Tarjas pretas cobriram-lhe os olhos desbotados, envergonhados. Cristo Redentor era menor de idade, um menino ainda, mas pensaram que fosse bandido. Em casa, sua mãe esperou a noite inteira. Volta para casa, Cristim, pensava. E chorava feito uma pietá. Dona Maria não sabia que, rígido e frio, Cristo jazia numa gaveta de frigorífico, sem túnica.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Jéssica Mouzinho - Sessão de Contos (11)
A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.
Nesta semana, exibiremos mais um conto inédito de Jéssica Mouzinho. Boa leitura!
* * *
O CAFÉ
Era um pecado. Um pecado que só poderia ser
perdoado se houvesse uma grande desculpa. E
essa desculpa se chamava Café.
“Vamos tomar um café?”
O cenário do pecado era o verão de 40° do Rio
de Janeiro. Ela de short curto e ele de camisa regata
e chinelo. Chegando lá, o café estava em tulipas
e com muita cevada. Depois de todo o efeito da
cafeína apropriada, o pecado aconteceu.
Depois desse dia, eles ficaram descarados... E a
pergunta era:
“Vamos tomar uma cervejinha?”
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Alfredo Albuquerque - Sessão de Contos (10)
A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.
Nesta semana, exibiremos um conto inédito, porém relativamente antigo, de Alfredo Albuquerque. Boa leitura!
* * *
PROTETOR LUNAR
Após tomar o prato de sopa, Clarissa foi ao banheiro, escovou os dentes e passou o protetor lunar. Saiu de casa com a lua cheia já se destacando entre os edifícios, embarcou num ônibus rumo à orla e chegou à praia que, como era de se esperar, estava lotada. Desconfortável com a cadeira dobrável e o guarda-lua, tratou de encontrar logo um espaço de areia onde pudesse esticar-se, próxima aos fiscais do zoocontrole que, numa noite como aquela, eram muitos. Caminhando pelo labirinto de toalhas de praia, sua pele incrivelmente branca e sem pelos atraiu olhares de inveja e aprovação, que ela, por timidez, tentou ignorar, até, enfim, encontrar um lugar para ficar. Esticou sua toalha na areia, botou os óculos de lentes amarelas e abriu o romance.
Leu por mais de uma hora, até começar a ficar incomodada com a leve coceira na pele, sinal de que o protetor lunar estava começando a perder seu efeito. Guardou o livro na sacola de nylon, se levantou e olhou para a água. Centenas de pessoas ocupavam a faixa mais próxima à areia, brincando com as ondas que se desfaziam ruidosamente. Mais à frente, após a arrebentação, encontrou o mar negro, denso, refletindo a luz da lua através de cintilações aleatórias que davam-lhe o aspecto de uma infinita pedra preciosa. E o confortável vazio. A ausência completa de gente. O enorme espaço aconchegante onde poderia ficar só, consigo mesma, envolvida pelo frio abraço da água que a preenchia e acalmava. Buscou com os olhos alguém que inspirasse confiança, talvez uma família convencional ou uma pessoa de idade, encontrou a família, e pediu que vigiassem suas coisas enquanto ia dar um mergulho.
Nadou mais de cem metros, afastando-se da praia, e deixou-se ficar por um tempo indeterminado suspensa na água, com o rosto voltado para o céu, tentando identificar constelações. Quando se cansou, nadou ainda um pouco mais e voltou à praia, preocupada com sua própria demora e a possibilidade de ter suas coisas abandonadas caso a família houvesse decidido ir embora. Ao se aproximar da areia percebeu uma aglomeração alguns metros à sua frente. Saiu da água, localizou seus pertences, agradeceu à senhora a gentileza e perguntou o motivo do rebuliço, enquanto espalhava no próprio corpo mais uma camada de protetor. Como imaginava, eram os fiscais do zoocontrole agindo. Consultou as horas no relógio guardado na bolsa e constatou que já eram mais de 23h.
Sem demonstrar curiosidade com o alvo dos fiscais, chamou um vendedor de chá branco gelado, comprou um pacote de biscoitos São Jorge e amenizou a fome, que já começava a se manifestar com a aproximação da meia noite. Por volta de 23h30, começaram a se intensificar as ações dos fiscais. Sentindo-se já íntima da senhora ao lado, puxou conversa, comentando que não entendia como algumas pessoas, apesar de todas as advertências, ainda se comportavam daquela maneira, recusando-se a se proteger. A senhora concordou e acrescentou que ela mesma, em sua família, já tinha vivido o drama decorrente do descuido com a luz da lua. Em uma noite como aquela, há três anos, havia perdido um de seus filhos, abatido pelos fiscais que agiram rapidamente assim que ouviram os primeiros uivos emitidos pelo garoto e constatarm o crescimento acelerado de pelos. Foi só a partir daí que ela conscientizou-se da importância das advertências do Governo e decidiu se livrar do preconceito contra o protetor, apesar de seus efeitos colaterais. Concordaram que seria melhor viver sem os tais efeitos. A senhora pediu licença para se juntar novamente ao marido e aos filhos que já demonstravam vontade de ir embora, e se despediram. Clarissa voltou para sua toalha, verificou no celular que havia uma chamada não atendida, leu mais um pouco, e fechou os olhos para cochilar debaixo do guarda lua.
À meia noite as transformações chegaram a seu auge. Em toda parte viam-se fiscais perseguindo animais amedrontados e enfurecidos que, em seu caminho de fuga desesperada deixavam um rastro de corpos agonizantes pisoteados, braços arrancados e cabeças decepadas. Acordada pelo barulho, Clarissa esboçou um começo de mau humor, mas se conformou ao refletir que aquele, afinal, era o preço que se pagava por escolher frequentar a praia naquele horário e, especificamente, numa noite de lua cheia. Aproveitou a vigília, leu por mais uma hora, depois foi à água, deu um mergulho rápido, juntou suas coisas e pegou o celular para retornar a ligação. Eduardo atendeu de imediato. Conversaram muito, rindo das circunstâncias que fizeram com que se conhecessem no dia anterior, embriagados, na pista de dança da boate lotada às três da tarde. Marcaram uma ceia para as duas e meia da madrugada e Clarissa, para deixar tudo claro desde o início, fez questão de ressaltar que já fazia uso constante do protetor lunar há cinco anos e, portanto, já não havia mais nenhum vestígio de desejo sexual em seu corpo. Eduardo riu alto ao telefone e disse que havia sido um dos pioneiros no uso do protetor e que, por isso, ela não devia se preocupar com atitudes desagradáveis por parte dele.
Ao desligar o celular, sorrindo da própria mentira, Eduardo foi ao banheiro, raspou os fios que haviam nascido desde a meia noite e repassou em sua mente os planos para o final de sua madrugada, com Clarissa a seu lado, debaixo da lua cheia.
João Pessoa, 7 de novembro, 2009
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Regina Behar (Cartum + Conto)
REGINA BEHAR nasceu em João Pessoa, gosta de arte em geral e literatura e cinema em particular. Se considera amadora em ambas as artes no dúbio sentido da palavra. Ensina história como profissão da qual gosta e lhe permite pagar contas, mas experimenta as artes por pura necessidade vital e deseja, do fundo da alma, um dia viver fazendo só isso, além de, obviamente, amar as pessoas que ama. Integra o Clube do Conto desde não sei quando, mas tem certeza de que Dorinha, Ronaldo ou Valéria podem atestar que ela é da velha guarda.
* * *
O SEGREDO DE JULIA
Mauro e Julia viviam uma vida pacata de cidade do interior, numa casa com quintal grande, um cachorro, dois gatos e três crianças, duas meninas e um menino. Mauro era proprietário da Mercearia Fontes, e Julia dava um expediente de quatro horas na Prefeitura de Tocáia, um lugar perdido no mapa mundi.
Mas, por trás da aparente tranqüilidade da vida comum, sem sobressaltos e sem grandes projetos, um mal estar crescia entre eles, e tudo por causa do segredo de Julia. Era segredo porque ninguém sabia, só ela, e Julia se recusava sistematicamente a contá-lo. Dizia-lhe que não havia segredo algum.
Mas ele, Mauro, tinha absoluta certeza desse segredo que lampejava nos olhos dela e, vez por outra, parecia transparecer em seu rosto, sem que pudesse decifrá-lo. Aliás, Julia sempre fora enigmática, silenciosa, embora nunca tenha sido tímida. E disso Mauro lembrava muito bem... Essa mulher esconde um segredo, pensava e remoia.
E remoeu durante anos, enquanto se arrastava o tempo, e os filhos cresciam, e as árvores repetiam seus ciclos frutosos, e os gatos davam cria. E remoeu isso de dia, na Mercearia, enquanto atendia os clientes, e remoeu também de noite, no silêncio do quarto, quando iam dormir.
Vez por outra, insistia na velha pergunta: Quando você vai me contar? E ela apenas sorria e repetia que não tinha o que contar. E se for outro homem? Pensou durante certo tempo. Seguiu Julia durante dias, e nada. Pode ser alguém da Repartição, pensou. Obcecado pela idéia, pagou o auxiliar de limpeza para ficar de olho nela durante meses... e nada!
Um dia, quando os filhos estavam a meio caminho da adolescência, Julia adoeceu repentinamente. Mauro pareceu esquecer o segredo e se concentrou em manter Julia viva. Levou-a para a capital. Consultou especialistas e mais especialistas. O diagnóstico era sempre o mesmo: A tal doença no coração era degenerativa e Julia teria apenas alguns meses de vida.
Sem mais o que fazer, a não ser os procedimentos paliativos, Mauro voltou a pensar no segredo de Julia; esse que continuava a borbulhar nos olhos seus olhos, agora mais silenciosos, concentrados sabe-se lá em que! Então começou a ficar desesperado diante da possibilidade de que ela partisse sem falar a respeito. Afinal, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, incluí a lealdade, a verdade, a entrega dos segredos, apelava Mauro.
Nos últimos dias de vida de Júlia, Mauro tornou-se cruel e praticamente não falava com ela, magoado. Abriu suas caixas, leu papeis amarelados, vasculhou todas as gavetas, e bolsos de roupas antigas e guardadas. Os parentes foram submetidos a interrogatórios sobre sua vida pregressa, numa tentativa desesperada por qualquer pista que revelasse a secreta coisa se escondia por trás dos olhos negros de Julia.
Ela enfrentou o marido e a doença, impassível! Sempre reafirmou que não havia segredo, pois apenas vivia e apenas via; e conforme o dia, era feliz ou infeliz, alegre ou triste. A vida era a vida e a morte seria a morte, nada havia para temer. Nada jamais temera. E era só. Sabia que o sol nasceria de manhã e se poria à tarde e que a mangueira daria frutos em janeiro. Tudo muito simples! Dizia a Mauro que sossegasse, que deixasse de histórias, e isso era a única verdade, conforme Julia.
Julia morreu um dia depois dessa conversa com Mauro, sentada na cadeira de balanço, embaixo da frondosa mangueira no quintal de casa, num fim de tarde, um pouco antes da safra das mangas. Mauro jamais acreditou que não havia um segredo. Dois anos depois casou novamente. A nova mulher, dona da lanchonete em frente à Mercearia Fontes, falava muito! Brigavam quase todo dia, a propósito de quase tudo. Mauro sentia-se levemente confortável. Essa mulher, diferente de Júlia, não tinha aquele jeito misterioso, nenhuma luz estranha nos olhos, nem escondia segredo algum.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Maria Romarta (Cartum + Conto)
MARIA ROMARTA nasceu em 09 de Março de 1991, em Santana do Ipanema, cidade do Sertão de Alagoas. Começou a escrever e a compor aos nove anos. Há algum tempo veio morar na Cidade de João pessoa. Faz teatro, é aluna de Comunicação Social - Jornalismo da UFPB e membro do Clube do Conto da Paraíba.
***
QUANDO AS PALAVRAS SOMEM
Quando avistei a porta, olhei por segundos aquele número: 513. Pensei em escapar, descer apressadamente as escadas até que a distância pudesse me consumir, mas, meu coração adiantou-se e fez com que meus pés me pusessem praticamente colado à porta. Senti o cheiro do verniz.
Eu não fugi, não podia, mas também não tive coragem de tocar aquela campainha, me sentia envergonhado, por quê? Eu estava ali não estava? Havia me reorganizado para cumprir com o que devia, não havia?
Bati. A mãe de Thaís atendeu, pediu que eu entrasse, pôs para mim um chá e falou que ele estava dormindo.
- Quer vê-lo? - Perguntou-me.
- Não. Eu quero vê-lo sim, mas agora não, o deixe dormir, depois...
- Tudo bem!
- Daqui a pouco... Sabe?
-Veja bem, como era desejo de Thaís, que o menino te conhecesse e que fosse morar com você, darei também meu consentimento. Mas caso não fosse isto, ele ficaria comigo, só comigo. Então...
- O que ela disse mais?
-Como eu ia dizendo... O menino inicialmente passa o final de semana com você e a semana comigo, até que se acostume com você, se por acaso acostumar. Depois a situação se inverte então ele passa a...
Juro que me senti mal com toda aquela conversa, queria chorar, deixar cair aquela xícara no chão, não por causa do menino, a questão era que eu estava deslocado, me sentia um estranho no mundo, um sem nenhum valor, um tanto faz. Eu queria fazê-la parar de falar, então disse:
- Eu sei, entendi.
E ela calou-se, e se pôs a fitar o chão. Notei que ela lacrimejava. E a entendi, aquele menino era para ela, uma extensão de Thaís e ela não queria perder Thaís pela segunda vez. Mas, e perderia?
Logo, o silêncio feito por nós mostrou-me as fotos de Thaís espalhadas pela sala em porta retratos. Ela estava feliz e linda. Olhando-as, meu mal estar sumiu, mas foi também olhando para elas que tornei a pensar naquilo que me tirava o sono há dias: Por que ela quis me entregar o menino? Para provar que sou orgulhoso? Fazer-me lembrar que eu os abandonei? Ou isto era uma prova de amor e ela sabia que eu seria um ótimo pai? Ora! Thaís, não foi você que pediu para eu ir?
- O que ela disse mais?
- De você? Mais nada.
-Ela falava que não, mas guardava mágoas de mim.
-(...)
- Não era?
- Achava um covarde, infantil!
-Tinha razão...
- Não. Eu que te achava um moleque covarde, cheguei a jurar que você não vinha. Eu vou chamar o garoto, afinal, vocês têm um voo para pegar, não é?
-É sim...
- Ah! Mas olhe ele aí.
O quê? Como assim? Naquele instante meu coração subiu até a garganta!
- Esse moço aí é seu pai. Lembra? Aquele que sua mãe mostrava pela cam.
Ele então veio me abraçar e eu aceitei todo desajeitado e, de emoção, chorei, mansinho, para não assustá-lo. E nem quis imaginar quantas palavras severas ele me diria se soubesse me julgar. E nem quis explicar nada, pois já não havia palavras. E eis a primeira coisa que aprendi dele: Quando as palavras somem, se transformam em abraço.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Jéssica Mouzinho - Sessão de Contos (9)
Pra quem não lembra, a Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.
Nesta semana, exibiremos um conto inédito de Jéssica Mouzinho. Boa leitura!
***
O SILÊNCIO
Ela está sempre ali, com seu olhar sedutor, seu sorriso levemente sombrio. Às vezes sinto que quer dizer algo muito importante, mas se cala e fica a me olhar por longas horas, longos dias. E eu numa reciprocidade ímpar faço o mesmo. Fico dias a fitar sua beleza, seus finos cabelos, seu colo nu. Tento adentrar no canto mais profundo de sua alma para saber o que ela pensa das paredes amarelas de nossa casa, dos móveis de madeira Jatobá e da faxineira Teresa que a olha com susto e incompreensão.
Mas confesso que gosto desse mistério e do som delicioso do silêncio promovido pelo nosso amor. Não vejo sinfonia mais perfeita.
Em noites muito frias, me deito sobre ela pra esquentar seu corpo frio, branco e pálido. Sinto que ela sorri com satisfação e agradecimento. Seus olhos brilham feito os meus. Seu corpo quadrado tem as curvas mais perfeitas que já vi. São noites delirantes de entrega, alegria e calor.
Vivemos em nosso mundo perfeitamente silencioso. Nada importa, nada queremos ter, a não ser um ao outro. Muitos veem com indiferença nossa relação, falam que ela é a criação de um outro que a amou pouco, que é apenas mais uma cópia barata das demais que existem por aí. Mas isso não é verdade, ela é a única e verdadeira.
Minha!
Minha musa de sorriso nebuloso. Minha Monalisa.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Regina Lopes (Cartum + Conto)
REGINA LOPES MACIEL é mineira, tem 51 anos, formada em medicina, mas há muito tempo fez a opção por exercer diversas atividades artísticas: canto, teatro, escrita, paisagismo, desenho e bordado. Escreve desde 1999 e atualmente mora em João Pessoa, onde faz parte do Clube do Conto da Paraíba.
***
CAMINHO
Já era tempo de subir o rio. Eu estava madura, no entanto, inexperiente: era a minha primeira vez. Despedi-me dos mais jovens e juntei-me ao grupo adulto feminino, com o qual aprenderia todos os rituais da viagem.
Durante os preparativos, tudo era festa e ríamos à toa: os salpicos da chuva nos provocavam cócegas, os pequenos girinos, que faziam a corte aos nossos pés, pareciam zonzos e desorientados, os seixos massageavam nossos corpos e nós nos deleitávamos com aquelas sensações. O grupo masculino olhava de longe, pensavam que ríamos deles e, um pouco emburrados - acho até que enciumados com nossa alegria - faziam as provisões necessárias.
Em janeiro, o rio estava suficientemente cheio para a partida e todos nós, prontos para a viagem.
No início da jornada ainda se pode conversar, trocar ideias, falar dos planos e sonhos futuros. Mas aos poucos, toda a energia precisa ser economizada e toda a atenção dirigida ao rumo a ser tomado. A resistência da água é forte, o percurso extenuante e há uma imensidão que não se sabe onde vai dar. Surgem imprevistos como barragens enormes a serem transpostas e trechos extremamente poluídos. Vez ou outra alguém desaparece do campo de visão e não há como saber se foi pego por alguma correnteza mais forte, se achou uma passagem de mais fácil acesso, se desistiu e voltou atrás ou, até mesmo, se morreu.
Por fim, chegamos à nascente do rio e ali fizemos o que tínhamos que fazer: desovamos.
Hoje, que refiz este percurso diversas vezes, ainda não posso compreender porque a placa, afixada na primeira curva do rio, alerta-nos para não se nadar contra a correnteza. Nadamos sempre contra a correnteza, e este é o nosso caminho.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
André R. Aguiar (Cartum + Conto)
ANDRÉ RICARDO AGUIAR nasceu em Itabaiana, Paraíba e ficou tempo suficiente nesta zona rural para adquirir o olhar para as coisas mais básicas da vida, tempo e memória. Veio para João Pessoa, tomou contato com livros e bibliotecas e nunca mais parou de beber da fonte. Passou por jornalismo e letras e através de muitas amizades, integrou os movimentos culturais do fim de século, além de colaborar com jornais e revistas, entre eles, Correio das Artes, sua estréia. Participou de concursos literários, fundou o selo Trema, junto com Antonio Mariano e José Caetano e ajudou a fundar o Clube do Conto. Começou na poesia, publicando A Flor em Construção (Idéia), Alvenaria (Ed. UFPB). Em seguida, o livro de crõnicas de viagem Bagagem Lírica (Sal da Terra) e os infantis O rato que roeu o rei (Rocco) e Pequenas Reinações. Tem inéditos outros livros.
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O MÁGICO
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O MÁGICO
Ele era mágico, vivia disso e se orgulhava, quando saiu de sua terra, de ter de memória, todas as técnicas que aprendeu com um sujeito velho, espécie de caixeiro-viajante, que lhe ensinou o básico: tudo é ilusão.
Agora vivia num quartinho alugado, perto da boate onde ele, com destreza, fazia mil e uma mágicas de enganar a vista, o dito ilusionismo para alguns. Desaparecia e aparecia com o espectador e sabia muito bem esticar o suspense; as inevitáveis e mirabolantes estripulias com cartas de baralhos; o truque de mover objetos. E em tudo isso o pouco rendimento, o suado resultado que mal pagava as contas – e que mal alimentava o coelho da cartola. Também sonhava com Carolina, a filha do dono do estabelecimento. Ia e vinha entre as mesas, atendendo os clientes.
Lembrava bem da cidade em que nasceu, da prima que se espantou com a primeira mágica, do beijo roubado no crepúsculo, da estranheza em pouco mais que um fim de semana ver o pai desaparecer numa curva da estrada e nunca mais aparecer, amargo número incompleto.
Estava nas reminicencias naquela manhã, quando treinava os números daquele dia, e, num momento raro, pegou o coelho, o pôs na cartola e o viu sumir. A mão sentiu a penugem ir aos poucos se desfazendo numa matéria mínima até pouco restar, a não ser pelos entre os dedos. Depois, olhou para o fundo da cartola, para os lados, para a sala e nada.
Demorou muito a cair em si. Não era apenas a cartola. Qualquer coisa que pudesse se oculta por ele, podia sim, sumir. E não mais voltar. Esperou dias pela volta do coelhinho e nada. Sentiu ânsias de vômito e teve a impressão de uma bola de pelos efervecentes subir a garganta, e nada.
Na boate, a platéia entediada, como a esperar que ele fosse apenas a atração secundária para o show com mulheres voluptuosas. Então, de pirraça, começou a desaparecer com pessoas. Escolhia ao acaso, na platéia, aqueles seres desacompanhados, que geralmente ficavam nos cantos apenas pedindo, com os gestos mínimos, para não serem perturbados. Mas quando chamados, talvez para evitar um constrangimento na recusa, iam ao palco e se submetiam à humilhação de serem vistos e analisados com os olhares. Durava pouco, pois entravam numa cabine e, num zastrás, o vazio apenas, o holofote chicoteava e pronto, música de finalização. Ninguém reclamava o fechamento do círculo. Achavam que quem desaparecia, ia para os bastidores e de lá, talvez pegar a lateral da boate e ir embora. O dono do estabelecimento, vez ou outra, preocupado, perguntava mesmo, onde o sujeito? E ele, vestindo a roupa comum, desconversava dizendo, está na mesa perto do balcão, é só conferir. E dizia com poucas palavras, já anunciando que o silêncio era o que faltava vestir para ir cuidar da vida.
Mágica. Não tinha a capacidade, esta sim, necessária, de fazer aparecer coisas. Dinheiro no bolso ou na cartola, por exemplo. Só desaparecia. Sabia, pois sonhou com isso, que as pessoas que desapareciam, forçosamente apareciam em outros lugares. Os solitários caíam em antigas aldeias festivas e geralmente eram solicitados a cantar ou tocar. Os tímidos ou feios terminavam em serviço social, os hospitais do outro lado do mundo, os contratavam para atender pacientes. Os que estavam terrivelmente molestados, com pouco tempo de vida, iam para as guerras fronteiriças, e na luta, descobriam um sentido imediato de vida. Morriam úteis, sem saber se foi a bala ou o tumor.
Foi só quando Carolina confessou o seu amor, um amor que seria sempre proibido, que ele se lembrou do conselho do caixeiro-viajante e tornou a frase ao avesso: vida é ilusão. E programou seu último número, às ocultas.
Naquela última noite, o mágico fez tudo às pressas, tão nervoso estava. Alguns números não funcionaram. Outros, arrancaram risadas, outros ainda nem foram aplaudidos. Deixou pra o final, já cansado e com a cartola jogada no canto do palco, o número da cabine. Olhou para a platéia na luz difusa e com um gesto, chamou a filha do dono do estabelecimento. Tudo combinado, ela veio às pressas, enquanto o pai estava ocupado, com urgências de última hora. E quando entrou na cabine, o mágico suspirou aliviado e sem muita cerimônia, para surpresa do público, também entrou, uma maleta nas mãos. Fechou e entrou no abafado mundo do seu talento. Escuro estava. Tateou até encontrar uma mão trêmula e febril. Podia ser Carolina ou a ilusão que lhe convinha, não importa.
Desaparecer sempre era um bom começo.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Dôra Limeira (Cartum + Conto)
DÔRA LIMEIRA nasceu em João Pessoa no dia 21 de abril do século passado. Graduou-se e especializou-se em História na UFPB. Depois que se aposentou enquanto professora, fez teatro, foi uma das fundadores do Grupo Teatrália. Depois enveredou pela Literatura, tendo publicado seu primeiro livro aos 60 anos, o livro de contos "Arquitetura de um Abandono". Por causa desse livro, recebeu o prêmio de Revelação Literária 2003, promovido pelo Suplemento Literário Correio das Artes, do jornal A União. Em 2002, participou do Concurso Talentos da Maturidade (promovido pelo Banco Real) com o conto "Não há sinais", concorrendo com 10.338 inscritos em todo o país. Foi incluída entre os vinte melhores concorrentes. Como tal, teve seu conto publicado na antologia "Todas as estações", pela editora Peirópolis. Em 2005 publicou seu segundo livro de contos, o "Preces e Orgasmos dos Desvalidos". Dôra Limeira é uma das fundadoras do Clube do Conto da Paraiba, que já completou sete anos de existência e que já publicou uma antologia "Histórias de sábados". Dôra Limeira publicou mais dois livros de contos, a saber: "O Beijo de Deus" (2007) e "Os gemidos da Rua" (2009). No momento, dispõe de dois livros inéditos, esperando oportunidade para publicação.
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EIS O QUE RESTA DE MIM
Você não sabe de coisa alguma. Fui obrigada a me afastar e nada lhe expliquei. Dobrei a esquina sem adeus nem acenos de até logo. Eu sofria muito. Amaldiçoava tudo quanto eu tinha de mais sagrado, meus anjos, meus santos, meus pais. Mas não derramava uma só lágrima. Ao contrário, eu ria às pampas. Perguntavam-me se eu estava louca. Não, não estou louca, eu respondia. Mas devo confessar que, em meu íntimo, eu desatinava, perdia meu rumo. Disparava num riso histérico, escrachado. Somente eu e Deus sabíamos o quanto me angustiava aquela situação. Deus sabe o quanto eu cortava minha pele até não suportar. Era doloroso. Eu sangrava, gemia, gritava e arrancava minhas vestes. Era tanta a dor que eu chegava a trincar os dentes. Parecia que um tumor maligno estava sendo extirpado de mim, sem anestesia.
Custou-me muito, mas decidi ir embora. Não me pergunte sobre as razões de meu gesto. Não sei, não tenho como lhe responder. Nos primeiros tempos nosso companheirismo foi muito bom, parecia não ter fim. Você se desdobrou em delicadezas, eu me desdobrei em compreensão e paciência. Eu pensei que aquele céu duraria por muitas eternidades. Mas, infelizmente, lamento, não deu. As engrenagens da vida foram mais fortes do que nós. Fomos impotentes perante a rotina, o tédio, o marasmo. E tudo se desgastou, tudo se transformou em sofrimento. Aquilo que parecia amor para sempre se consumiu, se destruiu entre bebedeiras e discussoes à toa. Com o tempo, você se transformou. Permitiu que as crises tomassem conta de seu corpo e sua alma. Voce mudou o comportamento, pareceu-me ser outra pessoa.
Ao longo dos anos, aos poucos, você se atrasou em seus compromissos comigo. Embriagado, você muitas vezes me beijou e me bateu, depois você chorou. Eu tive muita paciencia. Nao me lembro de quantas vezes coloquei você na cama, limpei vômitos, urinas e fezes no quarto, no corredor da casa, no banheiro. Mesmo assim, acreditei em cada promessa, cada propósito de mudança. Você sempre me prometeu coisas depois de suas bebedeiras, e sempre acreditei. Eu preparei seu jantar, inventei pratos novos de vez em quando. Mas você sempre chegou tarde para a ceia, a comida esfriava e eu dormia no torpor da depressão. Se você me beijava com bafo de cerveja, eu acordava enojada, impaciente. Você disse muitas vezes eu te amo, mas repuxou meus cabelos e me bateu. Eu nunca tive o direito de comemorar qualquer coisa em casa, seja meu aniversário, aniversário das crianças, Natal ou qualquer outra confraternização. Sabe por que? Eu tive vergonha. Embriagado, voce não respeitou nem a presença de minhas amigas e de meus familiares. Sempre discutiu, disse palavrões, fez gestos obscenos. Em suas crises, você não considerou nossas crianças tão pequenas ainda. Minha mãe me chamou minha filha, volte para a casa de seus pais. Na casa de seus pais, ninguem bate em você, lá você é respeitada e estimada. Mas, naquele tempo, não tive coragem de tomar uma atitude.
E os dias, meses e anos foram se passando. Aquele 12 de dezembro amanheceu, o sol avançou e você não chegou. Levantei-me, fiz o café da manhã e encaminhei as crianças para a escola. Aguei o jardim, pus a ração do cachorro, lavei a louça, fiz uma coisa, fiz outra coisa. E você não chegou. Lavei roupa, esfreguei, enxaguei. O sol se colocou alto no céu, esquentou as visceras de meu juizo, esvaziou meus sentimentos, secou minha vontade de chorar. E você não chegou. Em busca de uma decisão, eu prossegui cortando minha pele, minha carne. Tudo em minha casa fedia, ora era cheiro de cachaça, ora de vômito, ora de fezes. Respirei fundo, inalei todos os maus cheiros do ambiente e resolvi. Fui embora levando meu corpo, minhas coisas, minha pequena vida. Mal dobrei a esquina, já senti saudade das crianças. Engoli no seco e atravessei a rua na faixa de pedestre. Nunca mais tive notícias das coisas de meu passado, as crianças, o marido, meus pais, o guarda roupa que aninhou meus segredos durantes muitos anos. Doeu, doeu muito. Mas hoje eu acredito que valeu. Cabelos grisalhos, hipertensão, diabetes e tosse crônica são as coisas que me restam. E um gato castrado roronando debaixo de minha cama.
(Inspirado no samba “Ex-amor”, de Martinho da Vila)
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Leitura de conto
Maria Valéria Rezende lê Um escritor de Geraldo Maciel (Barreto)
SOBRE O AUTOR DO CONTO
SOBRE O AUTOR DO CONTO
GERALDO MACIEL (BARRETO) paraibano, nascido em Nova Palmeira, em 1950. Foi professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba.
Seu primeiro livro de contos Aquelas ciaturas tão estranhas, foi lançado em 1995, pela Editora Rio Fundo, RJ, tendo já uma segunda edição pela Editora Manufatura.
Publicou um segundo livro de contos, Inventário de pequenas paixões, em 2000 e lançou em 2005 seu terceiro livro de contos O Concertista e a Concertina.
Publicou contos em revistas culturais e em Antologias nacionais, a exemplo da Contos Cruéis, pela Geração Editorial e Quartas Histórias, pela Editora Garamond. Seu romance Peccata Mundi ganhou o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008.
Faleceu em 31 de maio de 2009 deixando uma saudade imensa no Clube do Conto da Paraíba, do qual era um dos membros mais atuantes.
Seu primeiro livro de contos Aquelas ciaturas tão estranhas, foi lançado em 1995, pela Editora Rio Fundo, RJ, tendo já uma segunda edição pela Editora Manufatura.
Publicou um segundo livro de contos, Inventário de pequenas paixões, em 2000 e lançou em 2005 seu terceiro livro de contos O Concertista e a Concertina.
Publicou contos em revistas culturais e em Antologias nacionais, a exemplo da Contos Cruéis, pela Geração Editorial e Quartas Histórias, pela Editora Garamond. Seu romance Peccata Mundi ganhou o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008.
Faleceu em 31 de maio de 2009 deixando uma saudade imensa no Clube do Conto da Paraíba, do qual era um dos membros mais atuantes.
SOBRE A LEITORA
MARIA VALÉRIA REZENDE nasceu em Santos SP, em 1942, viveu lá até os 17 anos. Vive há mais de 30 anos na Paraíba, dedicando-se à educação popular. Passou boa parte da infância escavando a praia e o quintal, pra ver se achava o tesouro do pirata Cavendish que frequentava as praias lá de Santos. De vez em quando ainda dá uma cavada no quintal ou na praia... vai que o Cavendish passou incógnito aqui pela Paraíba e enterrou o tesouro no Cabo Branco pra despistar? Por gostar de lendas e levá-las a sério, acabou escrevendo e publicando livros de ficção pra gente de qualquer idade e, principalmente, apegando-se ao Clube do Conto, tribo nômade que vaga há quase sete anos por João Pessoa. Alguns dos seus livros foram finalistas de concursos, mas nunca receberam "o" prêmio, de modo que ainda tem muito que melhorar, se for capaz.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Laudelino Menezes (Cartum + Conto)
LAUDELINO MENEZES é contoclubista, recifense e pessoense, torcedor do Sport e professor de matemática. Vez ou outra faz um conto e pensa em escrever um romance. Já publicou uns quadrinhos na revista Subversos, participou da antologia do Clube do Conto e produziu um zine extinto chamado Histórias pra boi dormir.
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DÚVIDA
Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - Acabou a gasolina do carro, dona? - Não, vou tocar fogo na casa mesmo. - Tem seguro? - Tenho sim. - E se descobrem que o incêndio foi intencional? - Tanto faz, isso é apenas um conto escrito por Laudelino Menezes intitulado Dúvida. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? Onde irei morar com a casa reduzida a cinzas? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão e acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou em dúvida. Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - De novo, dona? - De novo o quê? - Já é a segunda vez que você vem aqui. - Não é não, é a primeira. - Você vai me dizer que vai tocar fogo no casa e que isso é apenas um conto. - Pois é, tava pensando nisso mesmo. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? E se eu estiver ficando doida, repetindo meus atos inumeras vezes sem perceber? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão, acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou pensativa.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Joana Belarmino (Cartum + Conto)
JOANA BELARMINO é paraibana, jornalista, professora do curso de comunicação da UFPB e doutora em comunicação e Semiótica. Membro ativo do clube do conto, já publicou livros de literatura infantojuvenil: "O Patinho Criança" (1979); "Dartanham, Um Gato com gosto de Pinto" (Editora Moderna, 1983-1988); "Era Uma Vez uma Vírgula" (Editora Idéia, 1997). Mantém o blog barrados no braille, no endereço www.joanabelarmino.zip.net.
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ASSALTO A MÃO ARMADA
Eu nunca havia experimentado essa sensação, de ter uma arma pressionando minha testa. Como se esse aperto surrupiasse de mim um monte de lembranças, e me apetrechasse com uma única pergunta: Aonde começa a vida? Pisei no seu pé? Desculpe. Antes de tudo, até a gente chegar lá, deixe eu lhe contar a história de onde começou minha vida. Não. Não foi propriamente minha vida que começou ali, mas, ali começou uma rota provável que gerou todos os acontecimentos que culminaram com ela. Você sabe, agora que penso nisso, me dou conta de que faz muito tempo que esse pensamento anda agarrado comigo, como um alicate, como o cano dessa arma, agora firmado na minha testa. Minha vida começou com um ato de violência. Isso, afrouxe um pouco, não vou fugir. Como eu dizia, minha vida começou com um ato de violência. Meu pai tinha doze anos quando sua madrasta o açoitou, violentamente, só porque ele tinha ido na dispensa pegar um pedaço de rapadura. O pai dele? Fez o que todo pai faz. Apoiou a madrasta. Meu pai então fugiu de casa, com aquele desgosto açucarado pingando dos dentes da alma. Fugiu de casa, trabalhou, foi à feira de quarta-feira e um dia viu minha mãe. Arma no coldre, meu pai decidiu que era tempo de casar, ter uma dispensa onde pudesse guardar sua rapadura. Apertado aqui, não? A senha? Juntei a minha idade e a do meu marido, somos da mesma idade. Depois as idades dos meninos. Não, digitou errado. A do menino mais novo vem primeiro. Eu sei, um pequeno embuste tolo. Minha vida acaba como começou, mas pelo menos você tem agora uma história em que pensar, além do meu saldo. O grande mistério é não haver mistério. Tudo o que começa, sempre acaba. Isso, desça um pouco mais para perto dos olhos, Ai!
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Alfredo Albuquerque (Cartum + Conto)
ALFREDO ALBUQUERQUE é mineiro de Belo Horizonte. Designer Gráfico por profissão. Músico, compositor e escritor por diversão. Tem dois livros editados, Os círculos (prêmio Xerox/Revista Livro Aberto - 2001) e O quarto das horas, além de contos publicados em periódicos e sites literários. Reside em João Pessoa.
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XXCIV - Da relação dos verboputos com os coroalhos
1 - Se for constatada a tentativa de se comprar votos de fantochistes, por um candidato a bucelonte, com perdulites ou plistos, este deverá ter as caringolas quebradas para serem usadas em pendentes usados pelos fantochistes que aceitarem o suborno.
2 - Se um bucelonte em exercício se apropriar indevidamente de coroalhos obtidos de recursos públicos, deverá ter o imperígeo extirpado e posto a secar ao sol para alimentar os herobontes.
3 - Se um sepultáceo foi flagrado recebendo coroalhos oriundos de corrupção deverá ter as manipuletas arrancadas.
4 - Se tais coroalhos forem encontrados escondidos dentro das meriolas do sepultáceo, este deverá ter também o pisoteiro direito cortado.
5 - Se os coroalhos forem encontrados dentro da culatrina do sepultáceo, este deverá ter o pístil arrancado e introduzido em seu próprio retrocúlito após ser empedrestido com lâminas de aço.
6 - Se qualquer categoria de verboputo, seja bucelonte, sepultáceo, preposulcro, canivante ou bisco, utilizar coroalhos públicos para financiar festas particulares, deverá ter o corpo cortatuado com o nome de todos os convidados.
7 - Se coroalhos públicos forem usados para a compra de celumóveis, deverá ser o verboputo colocado deitado numa carapilha plana e pisoteirado por cinquenta hipotofantes até que de seu corpo não se reconheça nenhuma forma.
8 - Se um verboputo tentar obter vantagens pessoais utilizando-se de seu cargo, se lhe deverá amarrar a píngula ao pístil com um fio de aço de se pescar cabralhões.
9 - Se um bisco acumular capistrofes de caringolas oriundos de apropriação indevida e se justificar dizendo que ganhou na caloteria, se lhe deverá enfiar as capistrofes pela gorguela abaixo até que as caringolas comecem a sair pelo retrocúlito.
10 - Se for comprovada a ligação de verboputos com o tráfico de asparogas, estas deverão lhe ser introduzidas pela gorguela, até que não entrem mais, e então deverão ser queimadas juntas, as asparogas e o verboputo, em praça pública, até que todo o lixo esteja incinerado.
João Pessoa, 6 de março de 2010
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Norma Alves (Cartum + Conto)
NORMA ALVES nasceu em Recife-PE, em 1950, filha de comerciantes, Alzira de Oliveira Ferreira e João Venceslau Ferreira. No ano de 2009, falece sua mãe, foi quando Norma interessou-se pela Literatura. Hoje faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Ela é psicóloga e contista. Trabalhou muitos anos no Liceu Paraibano e atualmente na coordenação do Instituto Rio Branco, uma escola de 40 Anos de tradição. Sim, ela nasceu num dia de festa e vive até hoje em festa!
* * *
LAÇO DE FITA
Ela era uma cachorrinha linda! Era branquinha, e usava na coleira um laço de fita. Nós a chamávamos de Peluda, porque tinha tanto pelo, que só dava pra ver os olhos. Quando corria parecia uma bola de neve! Era uma verdadeira dama de raça pura. Todos os domingos ,ela ia visitar o nosso cachorro Bob. Ele, um tremendo vira-lata! O encontro dos dois emocionava a todos da casa.
Certa vez, a faxineira disse: “Parece que ela é casada e pula a cerca com Bob”. Será isso possível? Até cachorro é corneado?! Meu filho indignado respondeu: “Não, não é! Peluda é direita! E ouve-se um AU AU de Bob, como se concordasse.
Era uma situação incrível a relação dos dois. Viviam em eterna lua de mel. Assim que ela chegava, ele a queria ali mesmo; mas ela, sempre muito refinada, não deixava que ele se aproximasse demais; tinha que ser entre as quatro paredes do quarto, ou melhor, do canil. De fora, ouviam-se apenas os gemidos e latidos em todos os tons. E na hora da comida, ela pegava o prato e o arrastava com o focinho para o ninho de amor. Que romântico!
Num certo domingo, o encontro foi quebrado. Peluda faltou. Foi aquele desespero de Bob. Ficou ali deitado naquele chão, cuspido e lambido, esperando a amada. E uivava tanto de saudade, que resolvi apelar pra cachorra da vizinha. Que nada! Ele era muito fiel. Fiquei até com inveja. Queria um marido assim!
O tempo foi passando... Meses... E nada de ela voltar. Será que estava doente? Será que morrera? Ninguém sabia de nada. O jeito foi levar Bob ao veterinário. O diagnóstico foi: Depressão canina. E agora?! Lá íamos nós pagar terapia pra cachorro!
Quando tudo parecia perdido, os olhos de Bob brilharam de alegria. Ela voltou, mas estava bem diferente: tosquiada. Achamos que ela estivera o tempo todo em algum Pet Shop. A classe era a mesma, o mesmo laço de fita. Mas... Meu Deus! Demos-lhe o nome errado! O certo seria ... Peludo!
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Joedson Adriano (Cartum + Conto)
Nesta seção especial CARTUM + CONTO, publicaremos um conto mais o cartum de um participante do Clube. Todos os cartuns foram feitos por Raonix.
JOEDSON ADRIANO é paraibano de Bayeux, nascido em 1983, reside atualmente em João Pessoa. Policial Militar desde 2002, é poeta e publicou em edições independentes os livros ODE AOS DEUSES (2009) e ODE AOS HOMENS (2010).
* * *
DIA D
Menino manuseava o venal vasilhame
sem haver o agite antes de usar
todo dia dia todo e só soia suar
nada saía da nata que nutre homens
até que além do curto epilético
aquilo que ele de ver não conhecia
mas desejava mais que a vinda do messias
de tanto ouvir falar ansiosamente cético:
argentina gema em clara incolor
da coxa canhota pegou em destra mão
entre o polegar e o indicador
ergueu o troféu e à separação
dos dedos desvairados resistiu o melhor
o viscoso viril que o virou em varão
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