segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ata em fluxo de consciência

Ata referente ao dia 22 de outubro de 2011.


pariu eu num sei fazer ata vou passar tempo todo o maior tempo do mundo pensando como vou fazer ata puta que pariu vai ficar feia mas vou tentar como é que eu começo deixa eu pensar tipo assim a gente chegou e a reunião teve uma presença massa show de bola do grande escritor Alfredo monte um monte de gente só chegou bem depois cadê valéria pra gente começar sumiu Alfredo se perdeu atrás de uma camisa do Corinthians meu deu do céu como alguém vem atrás do coringão sabendo que na Paraíba só dá mengo mas deixa isso pra lá o importante era contar e pouca gente trouxe conto no tema eu trouxe um falando das piscianas também betomenezes trouxe conto e mostrou a capa do novo livro que tá pra sair e ai de você se num comprar mas o conto dele era massa sobre signo também e rendeu um debate massa com Valéria que nem o meu conto o da pisciana não esse conto que tô falando já outro de projeto novo de litfan e a gente também debateu um lado do grupo já tava até cansado acho que pensando meu deus do céu num quero fazer ata não quem vai fazer tava lá um monte de gente tava o gladstone campos nunca tinha visto ele no grupo tava Laudelino que já abusei de ver também tava jéssica mouzinho tava vivi e puta que pariu quase ia esquecendo norma também trouxe conto e num sabia se o conto um dos dois que ela trouxe era conto crônica ou prosa poética e a gente achou que era os três então tava beleza chegou mais atrasado o grande carlos cartaxo só num chegou mais atrasado que o andré aguiar que num guiou tava sendo guiado porque veio de ônibus e ônibus demora que só pra chegar mas ele chegou e propôs o tema vencedor para a próxima semana a gente vai escrever contos sobre ex pode ser ex qualquer coisa enquanto num chega inspiração vou pensando na ata eu num sei fazer ata como é que faz puta que

Wander Shirukaya


Créditos da imagem: http://images.yourdictionary.com/images/science/ASbrain.jpg

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A evasão contada e escrita


Ata referente ao dia 15 de outubro de 2011.

Uma pessoa apenas.
Duas depois.
Logo outra pra fazerem três.
Mais uma, e mais duas que somam seis.
Mas sem cadeiras, o que fazer?
“Hoje não guardaram pra vocês”, foi o que falou o segurança para nossa comoção.
Entre uma longa espera para André tomar café e terminar a conversa com alguém que ia passando, chegaram as cadeiras juntamente com um aviso: “essas não são as de vocês”, mas enfim, usamos as seis.
E quem trouxe conto do tema? Apenas nenhum de nós e ninguém.
Então, passamos adiante com quem trouxe outro conto e quis ler também.
A Norma iniciou com um moço “bebinho” e uma grande confusão na conversação. Só sei que o moço do começo, ganhou um carro de lição.
E logo seguiu Sérgio, ao ler seus contos instigantes: um falava do pai o outro de um personagem com pensamentos flutuantes.
E a Marla transformou o anterior tema vampiro, em bons ares de suspiro.
Fico por aqui então, deixando uma final informação: muita gente que esteve
neste encontro não vai ao próximo não.

Mayara Almeida

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Alfredo Albuquerque - Sessão de Contos (10)


A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos um conto inédito, porém relativamente antigo
, de Alfredo Albuquerque. Boa leitura!

* * *

PROTETOR LUNAR

Após tomar o prato de sopa, Clarissa foi ao banheiro, escovou os dentes e passou o protetor lunar. Saiu de casa com a lua cheia já se destacando entre os edifícios, embarcou num ônibus rumo à orla e chegou à praia que, como era de se esperar, estava lotada. Desconfortável com a cadeira dobrável e o guarda-lua, tratou de encontrar logo um espaço de areia onde pudesse esticar-se, próxima aos fiscais do zoocontrole que, numa noite como aquela, eram muitos. Caminhando pelo labirinto de toalhas de praia, sua pele incrivelmente branca e sem pelos atraiu olhares de inveja e aprovação, que ela, por timidez, tentou ignorar, até, enfim, encontrar um lugar para ficar. Esticou sua toalha na areia, botou os óculos de lentes amarelas e abriu o romance.

Leu por mais de uma hora, até começar a ficar incomodada com a leve coceira na pele, sinal de que o protetor lunar estava começando a perder seu efeito. Guardou o livro na sacola de nylon, se levantou e olhou para a água. Centenas de pessoas ocupavam a faixa mais próxima à areia, brincando com as ondas que se desfaziam ruidosamente. Mais à frente, após a arrebentação, encontrou o mar negro, denso, refletindo a luz da lua através de cintilações aleatórias que davam-lhe o aspecto de uma infinita pedra preciosa. E o confortável vazio. A ausência completa de gente. O enorme espaço aconchegante onde poderia ficar só, consigo mesma, envolvida pelo frio abraço da água que a preenchia e acalmava. Buscou com os olhos alguém que inspirasse confiança, talvez uma família convencional ou uma pessoa de idade, encontrou a família, e pediu que vigiassem suas coisas enquanto ia dar um mergulho.

Nadou mais de cem metros, afastando-se da praia, e deixou-se ficar por um tempo indeterminado suspensa na água, com o rosto voltado para o céu, tentando identificar constelações. Quando se cansou, nadou ainda um pouco mais e voltou à praia, preocupada com sua própria demora e a possibilidade de ter suas coisas abandonadas caso a família houvesse decidido ir embora. Ao se aproximar da areia percebeu uma aglomeração alguns metros à sua frente. Saiu da água, localizou seus pertences, agradeceu à senhora a gentileza e perguntou o motivo do rebuliço, enquanto espalhava no próprio corpo mais uma camada de protetor. Como imaginava, eram os fiscais do zoocontrole agindo. Consultou as horas no relógio guardado na bolsa e constatou que já eram mais de 23h.

Sem demonstrar curiosidade com o alvo dos fiscais, chamou um vendedor de chá branco gelado, comprou um pacote de biscoitos São Jorge e amenizou a fome, que já começava a se manifestar com a aproximação da meia noite. Por volta de 23h30, começaram a se intensificar as ações dos fiscais. Sentindo-se já íntima da senhora ao lado, puxou conversa, comentando que não entendia como algumas pessoas, apesar de todas as advertências, ainda se comportavam daquela maneira, recusando-se a se proteger. A senhora concordou e acrescentou que ela mesma, em sua família, já tinha vivido o drama decorrente do descuido com a luz da lua. Em uma noite como aquela, há três anos, havia perdido um de seus filhos, abatido pelos fiscais que agiram rapidamente assim que ouviram os primeiros uivos emitidos pelo garoto e constatarm o crescimento acelerado de pelos. Foi só a partir daí que ela conscientizou-se da importância das advertências do Governo e decidiu se livrar do preconceito contra o protetor, apesar de seus efeitos colaterais. Concordaram que seria melhor viver sem os tais efeitos. A senhora pediu licença para se juntar novamente ao marido e aos filhos que já demonstravam vontade de ir embora, e se despediram. Clarissa voltou para sua toalha, verificou no celular que havia uma chamada não atendida, leu mais um pouco, e fechou os olhos para cochilar debaixo do guarda lua.

À meia noite as transformações chegaram a seu auge. Em toda parte viam-se fiscais perseguindo animais amedrontados e enfurecidos que, em seu caminho de fuga desesperada deixavam um rastro de corpos agonizantes pisoteados, braços arrancados e cabeças decepadas. Acordada pelo barulho, Clarissa esboçou um começo de mau humor, mas se conformou ao refletir que aquele, afinal, era o preço que se pagava por escolher frequentar a praia naquele horário e, especificamente, numa noite de lua cheia. Aproveitou a vigília, leu por mais uma hora, depois foi à água, deu um mergulho rápido, juntou suas coisas e pegou o celular para retornar a ligação. Eduardo atendeu de imediato. Conversaram muito, rindo das circunstâncias que fizeram com que se conhecessem no dia anterior, embriagados, na pista de dança da boate lotada às três da tarde. Marcaram uma ceia para as duas e meia da madrugada e Clarissa, para deixar tudo claro desde o início, fez questão de ressaltar que já fazia uso constante do protetor lunar há cinco anos e, portanto, já não havia mais nenhum vestígio de desejo sexual em seu corpo. Eduardo riu alto ao telefone e disse que havia sido um dos pioneiros no uso do protetor e que, por isso, ela não devia se preocupar com atitudes desagradáveis por parte dele.

Ao desligar o celular, sorrindo da própria mentira, Eduardo foi ao banheiro, raspou os fios que haviam nascido desde a meia noite e repassou em sua mente os planos para o final de sua madrugada, com Clarissa a seu lado, debaixo da lua cheia.

João Pessoa, 7 de novembro, 2009

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Fotos do Clube - reunião do dia 8/10/2011

Fotos do dia 8 de outubro de 2011, confiram a movimentação da reunião.

Contistas se reunindo...

Dando início à reunião.

Sérgio, Alcebíades e Norma.

Jéssica, Wander e Betomenezes.

André Aguiar, Alfredo, Laudelino e Sérgio.

Wander, Betomenezes, Cartaxo e André.

Fim da reunião, hora de guardar as cadeiras.



sábado, 8 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Regina Behar (Cartum + Conto)

REGINA BEHAR nasceu em João Pessoa, gosta de arte em geral e literatura e cinema em particular. Se considera amadora em ambas as artes no dúbio sentido da palavra. Ensina história como profissão da qual gosta e lhe permite pagar contas, mas experimenta as artes por pura necessidade vital e deseja, do fundo da alma, um dia viver fazendo só isso, além de, obviamente,  amar as pessoas que ama. Integra o Clube do Conto desde não sei quando, mas tem certeza de que Dorinha, Ronaldo ou Valéria podem atestar que ela é da velha guarda.

* * *


O SEGREDO DE JULIA

Mauro e Julia viviam uma vida pacata de cidade do interior, numa casa com quintal grande, um cachorro, dois gatos e três crianças, duas meninas e um menino.  Mauro era proprietário da Mercearia Fontes,  e Julia dava um expediente de quatro horas na Prefeitura de Tocáia, um lugar perdido no mapa mundi.

Mas, por trás da aparente tranqüilidade da vida comum, sem sobressaltos e sem grandes projetos, um mal estar  crescia entre eles, e tudo por causa do  segredo de Julia.  Era segredo porque ninguém sabia, só ela,  e Julia se recusava sistematicamente a contá-lo. Dizia-lhe que não havia segredo algum.

Mas ele, Mauro, tinha absoluta certeza desse segredo que lampejava nos olhos dela e, vez por outra, parecia transparecer em seu rosto, sem que pudesse decifrá-lo. Aliás, Julia sempre fora enigmática, silenciosa, embora nunca tenha sido tímida. E disso Mauro lembrava muito bem... Essa  mulher esconde um segredo, pensava e remoia.

E remoeu durante anos, enquanto se arrastava o tempo, e os filhos cresciam, e as árvores repetiam seus ciclos frutosos, e os gatos davam cria. E remoeu isso de dia, na Mercearia, enquanto atendia os clientes, e remoeu também de noite, no silêncio do quarto, quando iam dormir.  

Vez por outra, insistia na velha pergunta: Quando você vai me contar? E ela apenas sorria e repetia que não tinha o que contar. E se for outro homem? Pensou durante certo tempo. Seguiu Julia durante dias, e nada. Pode ser alguém da Repartição, pensou.  Obcecado pela idéia,  pagou o auxiliar de limpeza para ficar de olho nela durante meses... e nada! 

Um dia, quando os filhos estavam a meio caminho da adolescência, Julia adoeceu repentinamente. Mauro pareceu esquecer o segredo e se concentrou em manter Julia viva. Levou-a para a capital. Consultou  especialistas e mais especialistas.  O  diagnóstico era sempre o mesmo:  A tal doença no coração era degenerativa e Julia teria apenas alguns meses de vida.

Sem mais o que fazer, a não ser os procedimentos paliativos, Mauro voltou a pensar no segredo de Julia; esse que continuava a borbulhar nos olhos seus olhos, agora mais silenciosos, concentrados sabe-se lá em  que! Então começou a ficar desesperado diante da possibilidade de que ela partisse sem falar a respeito. Afinal, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, incluí  a lealdade, a verdade, a entrega dos segredos, apelava Mauro.

Nos últimos dias de vida de Júlia, Mauro tornou-se cruel e praticamente não falava com ela, magoado. Abriu suas caixas, leu papeis amarelados, vasculhou todas as gavetas, e bolsos de roupas antigas e guardadas.  Os parentes foram  submetidos a interrogatórios sobre sua vida pregressa,   numa tentativa desesperada por qualquer  pista que revelasse a secreta coisa  se escondia por trás dos olhos negros de Julia.

Ela enfrentou o marido e a doença, impassível! Sempre reafirmou que não havia segredo, pois apenas vivia e apenas via; e conforme o dia, era feliz ou infeliz, alegre ou triste. A vida era a vida e a morte seria a morte, nada havia para temer. Nada jamais temera.  E era só. Sabia que o sol nasceria de manhã e se poria à tarde e que a mangueira daria frutos em janeiro. Tudo muito simples! Dizia a Mauro que sossegasse, que deixasse de histórias, e isso era a única verdade, conforme Julia.

Julia  morreu um dia depois dessa conversa com Mauro, sentada na cadeira de balanço, embaixo da frondosa mangueira  no quintal de casa, num fim de tarde, um pouco antes da safra das mangas. Mauro jamais acreditou que não havia um segredo. Dois anos depois casou novamente. A nova mulher, dona  da lanchonete em frente à Mercearia  Fontes,  falava muito!  Brigavam quase todo dia, a propósito de quase tudo.  Mauro sentia-se levemente confortável. Essa mulher, diferente de Júlia, não tinha aquele jeito misterioso, nenhuma  luz estranha  nos olhos,  nem escondia  segredo algum. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ate se puder


Ata referente ao dia um de outubro de 2011.

Você vai rir, mas isto não é uma ata. É só uma maneira nada deslumbrada de defender que não canso de desmentí-las e de que nunca quis fazer atas, e que estes nós com que amarro uma prosa não ajuda muito a falácia de que os encontros do Clube também não são encontros, mas vai-e-vém de eletrons ou polens ou qualquer coisa - cambiante análise combinatória em que pessoas se comportam como se não estivessem. Mas estão. Ao menos a parte física e a sensação de que há shopping ao redor delas, existe.

Não vou conseguir provar a existência do contista e romancista Betomenezes e seu fôlego pantagruélico por estender imagens como quem estende tapetes, nem vou provar que Eli também o segue nas narrações líricas. É possivel estabelecer uma teoria do barulho, uma dinâmica da escada, uma hermenêutica das praças de alimentação, mas ainda é difícil entender porque não quebramos o pau logo nos primeiros poltergeists do ego, porque somos nerds do conto, porque verossimilhança e vontade de tomar café não se confundem. Não nos conservamos em silêncio, há gritaria e murmúrio, e quando menos esperamos, mais uma resminha de contos pairam em nossas mãos. Aqui registro que um conto da Romarta soluçou, que os parágrafos de Sérgio escalaram degraus de sentido, que F. P pediu S.O.S a Andersen, que Wander contabilizou pancadinhas no teclado, que Jéssica desnudou a Musa e Norma amplificou a página aos letrões.

Nada a dever ficaram Vivi, Cartaxo, Luciana e Dália. O desconhecido é quase nossa última tradição, já dizia o Lezama. Não vejo motivos, é verdade, para rir, mas insisto em afirmar, com todos os gerúndios que eu estiver conseguindo fazer, que há muito tempo decidi que atas são nocivas, que nunca se devem pegar trens em movimentos, que corujas quando morrem são silenciosas. Também o Clube, sede da inexistência, fica bem localizado se não for onde está – é a grita constante dos seus membros. E mais digo: não aceitamos comércio de contos, todos são dados como benesses ou oferendas por uma seita clandestina onde os integrantes vociveram por aí que contar é a melhor maneira de mentir sem fingimento. Fica portanto, por último, que não vamos escrever sobre polens, que temos filiais em Calcutá e Reikijavik e que aceitamos zumbis como contistas. Tenho não dito.

André Ricardo Aguiar