quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Laudelino Menezes (Cartum + Conto)

LAUDELINO MENEZES é contoclubista, recifense e pessoense, torcedor do Sport e professor de matemática. Vez ou outra faz um conto e pensa em escrever um romance. Já publicou uns quadrinhos na revista Subversos, participou da antologia do Clube do Conto e produziu um zine extinto chamado Histórias pra boi dormir.

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DÚVIDA

Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - Acabou a gasolina do carro, dona? - Não, vou tocar fogo na casa mesmo. - Tem seguro? - Tenho sim. - E se descobrem que o incêndio foi intencional? - Tanto faz, isso é apenas um conto escrito por Laudelino Menezes intitulado Dúvida. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? Onde irei morar com a casa reduzida a cinzas? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão e acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou em dúvida. Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - De novo, dona? - De novo o quê? - Já é a segunda vez que você vem aqui. - Não é não, é a primeira. - Você vai me dizer que vai tocar fogo no casa e que isso é apenas um conto. - Pois é, tava pensando nisso mesmo. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? E se eu estiver ficando doida, repetindo meus atos inumeras vezes sem perceber? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão, acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou pensativa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Fotos do Clube - reunião do dia 6/8/2011

A reunião de sábado passado foi assim, confiram. Fotos por Betomenezes.

Norma, Andreia, F. P. Andrade, Joana e Eli.

Luciana e Regina Behar.

Joedson, André, Oziella e Norma.

Detalhe de um conto.

F. P. Andrade, Joana, Eli e Betomenezes.

Alcebíades.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Joana Belarmino (Cartum + Conto)

JOANA BELARMINO é paraibana, jornalista, professora do curso de comunicação da UFPB e doutora em comunicação e Semiótica. Membro ativo do clube do conto, já publicou livros de literatura infantojuvenil: "O Patinho Criança" (1979); "Dartanham, Um Gato com gosto de Pinto" (Editora Moderna, 1983-1988); "Era Uma Vez uma Vírgula" (Editora Idéia, 1997). Mantém o blog barrados no braille, no endereço www.joanabelarmino.zip.net.

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ASSALTO A MÃO ARMADA

Eu nunca havia experimentado essa sensação, de ter uma arma pressionando minha testa. Como se esse aperto surrupiasse de mim um monte de lembranças, e me apetrechasse com uma única pergunta: Aonde começa a vida? Pisei no seu pé? Desculpe. Antes de tudo, até a gente chegar lá, deixe eu lhe contar a história de onde começou minha vida. Não. Não foi propriamente minha vida que começou ali, mas, ali começou uma rota provável que gerou todos os acontecimentos que culminaram com ela. Você sabe, agora que penso nisso, me dou conta de que faz muito tempo  que esse pensamento anda agarrado comigo, como um alicate, como  o cano dessa arma, agora firmado na minha testa. Minha vida começou com um ato de violência. Isso, afrouxe um pouco, não vou fugir. Como eu dizia, minha vida começou com um ato de violência. Meu pai tinha doze anos quando sua madrasta o açoitou, violentamente, só porque ele tinha ido na dispensa pegar um pedaço de rapadura. O pai dele? Fez o que todo pai faz. Apoiou a madrasta. Meu pai então fugiu de casa, com aquele desgosto açucarado pingando dos dentes da alma. Fugiu de casa, trabalhou, foi à feira de quarta-feira e um dia viu minha mãe. Arma no coldre, meu pai decidiu que era tempo de casar, ter uma dispensa onde pudesse guardar sua rapadura. Apertado aqui, não? A senha? Juntei a minha idade e a do meu marido, somos da mesma idade. Depois as idades dos meninos. Não, digitou errado. A do menino mais novo vem primeiro. Eu sei, um pequeno embuste tolo. Minha vida acaba como começou, mas pelo menos você tem agora uma história em que pensar, além do meu saldo. O grande mistério é não haver mistério. Tudo o que começa, sempre acaba. Isso, desça um pouco mais para perto dos olhos, Ai!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Fotos do Clube - reunião do dia 30/07/2011

Estiveram presentes nessa reunião 11 contoclubistas. Fotos por Wander, Laudelino e Romarta.

Betomenezes, Norma, Alex e Wander
 
F. P. Andrade, Laudelino e Eli.
 
Escondendo-se atrás de contos.

Alcebíades, Romarta e Andreia

Andreia, F. P. Andrade e André Dias

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Alfredo Albuquerque (Cartum + Conto)

ALFREDO ALBUQUERQUE é mineiro de Belo Horizonte. Designer Gráfico por profissão. Músico, compositor e escritor por diversão. Tem dois livros editados, Os círculos (prêmio Xerox/Revista Livro Aberto - 2001) e O quarto das horas, além de contos publicados em periódicos e sites literários. Reside em João Pessoa.

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XXCIV - Da relação dos verboputos com os coroalhos

1 - Se for constatada a tentativa de se comprar votos de fantochistes, por um candidato a bucelonte, com perdulites ou plistos, este deverá ter as caringolas quebradas para serem usadas em pendentes usados pelos fantochistes que aceitarem o suborno.

2 - Se um bucelonte em exercício se apropriar indevidamente de coroalhos obtidos de recursos públicos, deverá ter o imperígeo extirpado e posto a secar ao sol para alimentar os herobontes.

3 - Se um sepultáceo foi flagrado recebendo coroalhos oriundos de corrupção deverá ter as manipuletas arrancadas.

4 - Se tais coroalhos forem encontrados escondidos dentro das meriolas do sepultáceo, este deverá ter também o pisoteiro direito cortado.

5 - Se os coroalhos forem encontrados dentro da culatrina do sepultáceo, este deverá ter o pístil arrancado e introduzido em seu próprio retrocúlito após ser empedrestido com lâminas de aço.

6 - Se qualquer categoria de verboputo, seja bucelonte, sepultáceo, preposulcro, canivante ou bisco, utilizar coroalhos públicos para financiar festas particulares, deverá ter o corpo cortatuado com o nome de todos os convidados.

7 - Se coroalhos públicos forem usados para a compra de celumóveis, deverá ser o verboputo colocado deitado numa carapilha plana e pisoteirado por cinquenta hipotofantes até que de seu corpo não se reconheça nenhuma forma.

8 - Se um verboputo tentar obter vantagens pessoais utilizando-se de seu cargo, se lhe deverá amarrar a píngula ao pístil com um fio de aço de se pescar cabralhões.

9 - Se um bisco acumular capistrofes de caringolas oriundos de apropriação indevida e se justificar dizendo que ganhou na caloteria, se lhe deverá enfiar as capistrofes pela gorguela abaixo até que as caringolas comecem a sair pelo retrocúlito.

10 - Se for comprovada a ligação de verboputos com o tráfico de asparogas, estas deverão lhe ser introduzidas pela gorguela, até que não entrem mais, e então deverão ser queimadas juntas, as asparogas e o verboputo, em praça pública, até que todo o lixo esteja incinerado.

João Pessoa, 6 de março de 2010