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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Thiago Arruda - Sessão de Contos (14)


A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas contos dos participantes do Clube.

Nesta semana, temos a estreia de Thiago Arruda aqui no blog!

***

AS SOMBRAS SABEM. AS SOMBRAS SÃO CÚMPLICES.

Sei que, quando essa vela acabar, vai incendiar aquela palha e finalmente pôr isto aqui abaixo. Sei que, quando ela acabar.

Não olho para ela. O fogo pede meu olhar, que eu nego. Não devo respeito nenhum a quem pode me destruir. 

A sombra da cadeira observa tudo, flamejante. As sombras sabem. As sombras são cúmplices.

Vejo como o pavio queima, como a chama lhe espanca, numa batalha em que, apesar de árdua, já se sabe quem será o vencedor. Não é fácil para um homem derrotar um muro. O fim da vela é uma flor iluminada, é uma mesa de centro bonita de presépio.

A flor de fogo sacode. Avisa desesperada ou excita-se sob a proximidade do fim, a eternidade: nosso amor era um pavio. O pavio não deixa rastro, o pavio nunca existiu; o pó.

Deixo o cachimbo, ainda com fumo, que acendia com o fogo da vela. Reparo nas sombras que me traíram, omitindo-se de confirmar a minha versão dos fatos, o que quis dizer confirmar a sua; a sua versão filha da puta e mentirosa dos fatos. Os seus fatos. 

Minha mão se movimenta independente de mim: falta muito pouco para nada. Tento fazer como daquela vez, sentir o meu corpo em ligação com uma parte do que eu espero. Estou num dia pouco inspirado. Talvez devesse ter escolhido um dia melhor para, finalmente, descer. (Velas parecem com crianças, que parecem com a vida: quando se está sempre observando, nunca se percebem as mudanças.)

Passo um a um por meus pensamentos. Retiro à força suas mãos da minha cabeça, de que querem se apropriar; sigo meu caminho. Essa obstinação não me vem todo dia. Pouco inspirado, mas obstinado, fiz a opção certa, terra. Só espero que a vela ainda me permita pensar um pouco mais, sobre ela.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Norma Alves - Sessão de Contos (13)

A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos um conto inédito 
de Norma Alves. Boa leitura!

* * *

VAMPIRO  EM  CRISE

Que desespero! Sair do túmulo gemendo, procurando sangue e nada. 

Cadê os dentes? Será que existe dentadura pra  vampiro? Como ser respeitado sendo banguelo! O jeito é incomodar com uivos, assim todos ficariam acordados . É isso aí. Antes do sangue dos defuntos virar goiabada, o povo começou a drená-lo.  Eram tantas mamadeiras nas madrugadas! Mas a coisa começou a ficar feia. Não estava  dando pra matar a  sede. Notei os olhares dos vivos, preocupados.  As mulheres menstruadas corriam como o diabo da cruz; os homens em crise de hemorroidas sentavam-se, na tentativa de enganar o olfato.

Ei, você aí! Tá rindo de quê?   Tá pensando que é mentira minha? Tomara que você caia de uma janela de dois metros de altura e ainda morra em pé!  Vampiro brasileiro, banguelo sem plano de saúde e de morte. Blah!

Conto inspirado no personagem Bento Carneiro de Chico Anysio.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dôra Limeira - Sessão de Contos (12)


A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, um conto de Dôra Limeira. Boa leitura!


* * *

EU QUERO COMER BRIGADEIRO

Preto, traje roto, sandálias de dedo, ele morava num aglomerado habitacional de taipa, na periferia. Era menino ainda, mas suspeitaram que fosse bandido. Seu corpo amiúde fazia mogangas sobre um monte de barro, no arruado onde morava, equilibrando-se com agilidade. Brincava de ser cristo redentor, braços esticados, mãos estendidas sobre um corcovado de brasilites e isopores rasgados. Vadiava sob os aplausos da meninada e dos adultos desocupados. De tanto repetir a brincadeira, ganhou um apelido: “Cristo Redentor”, Cristim na intimidade. Era franzino, comprido e não tinha medo de nada. Nos horários da escola, ora estendia seus braços em cruz sobre o arruado, ora se postava junto aos semáforos. Fazia malabarismos e virava cambalhotas diante dos carros parados no sinal vermelho. Comia fogo, canivetes, tesouras. Assim, ganhava uns trocados e entregava, em casa, à sua mãe que também tinha apelido – Dona Maria de Cristim. Um dia, final de tarde, parou junto à vitrine de uma lanchonete. Foi quando suspeitaram que fosse bandido. Imóvel, avistou os doces e brigadeiros, bolos confeitados, empadas e pastéis. As glândulas salivaram. Com a fome nos olhos e a boca babando, Cristim apalpou os bolsos rasos da bermuda. Ouviu o tilintar das moedas que arrecadara comendo tesouras no último semáforo. Retirou as moedas do bolso e pensou eu quero comer brigadeiro. Mas não houve tempo. Um jato de sangue jorrou-lhe das entranhas e as moedas tilintaram no chão. Rolaram ladeira abaixo, alegres. Para Cristim, já não valiam nada. Seu corpo deu entrada no IML, sem sinais especiais que o identificassem, sem dono. Serviu de exemplo nos noticiários de televisão. O rosto morto foi capa de revista policial. Tarjas pretas cobriram-lhe os olhos desbotados, envergonhados. Cristo Redentor era menor de idade, um menino ainda, mas pensaram que fosse bandido. Em casa, sua mãe esperou a noite inteira. Volta para casa, Cristim, pensava. E chorava feito uma pietá. Dona Maria não sabia que, rígido e frio, Cristo jazia numa gaveta de frigorífico, sem túnica. 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Jéssica Mouzinho - Sessão de Contos (11)



A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos mais um conto inédito de Jéssica Mouzinho. Boa leitura!

* * *


O CAFÉ

Era um pecado. Um pecado que só poderia ser

perdoado se houvesse uma grande desculpa. E

essa desculpa se chamava Café.

“Vamos tomar um café?”

O cenário do pecado era o verão de 40° do Rio

de Janeiro. Ela de short curto e ele de camisa regata

e chinelo. Chegando lá, o café estava em tulipas

e com muita cevada. Depois de todo o efeito da

cafeína apropriada, o pecado aconteceu.

Depois desse dia, eles ficaram descarados... E a

pergunta era:

“Vamos tomar uma cervejinha?”

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Alfredo Albuquerque - Sessão de Contos (10)


A Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos um conto inédito, porém relativamente antigo
, de Alfredo Albuquerque. Boa leitura!

* * *

PROTETOR LUNAR

Após tomar o prato de sopa, Clarissa foi ao banheiro, escovou os dentes e passou o protetor lunar. Saiu de casa com a lua cheia já se destacando entre os edifícios, embarcou num ônibus rumo à orla e chegou à praia que, como era de se esperar, estava lotada. Desconfortável com a cadeira dobrável e o guarda-lua, tratou de encontrar logo um espaço de areia onde pudesse esticar-se, próxima aos fiscais do zoocontrole que, numa noite como aquela, eram muitos. Caminhando pelo labirinto de toalhas de praia, sua pele incrivelmente branca e sem pelos atraiu olhares de inveja e aprovação, que ela, por timidez, tentou ignorar, até, enfim, encontrar um lugar para ficar. Esticou sua toalha na areia, botou os óculos de lentes amarelas e abriu o romance.

Leu por mais de uma hora, até começar a ficar incomodada com a leve coceira na pele, sinal de que o protetor lunar estava começando a perder seu efeito. Guardou o livro na sacola de nylon, se levantou e olhou para a água. Centenas de pessoas ocupavam a faixa mais próxima à areia, brincando com as ondas que se desfaziam ruidosamente. Mais à frente, após a arrebentação, encontrou o mar negro, denso, refletindo a luz da lua através de cintilações aleatórias que davam-lhe o aspecto de uma infinita pedra preciosa. E o confortável vazio. A ausência completa de gente. O enorme espaço aconchegante onde poderia ficar só, consigo mesma, envolvida pelo frio abraço da água que a preenchia e acalmava. Buscou com os olhos alguém que inspirasse confiança, talvez uma família convencional ou uma pessoa de idade, encontrou a família, e pediu que vigiassem suas coisas enquanto ia dar um mergulho.

Nadou mais de cem metros, afastando-se da praia, e deixou-se ficar por um tempo indeterminado suspensa na água, com o rosto voltado para o céu, tentando identificar constelações. Quando se cansou, nadou ainda um pouco mais e voltou à praia, preocupada com sua própria demora e a possibilidade de ter suas coisas abandonadas caso a família houvesse decidido ir embora. Ao se aproximar da areia percebeu uma aglomeração alguns metros à sua frente. Saiu da água, localizou seus pertences, agradeceu à senhora a gentileza e perguntou o motivo do rebuliço, enquanto espalhava no próprio corpo mais uma camada de protetor. Como imaginava, eram os fiscais do zoocontrole agindo. Consultou as horas no relógio guardado na bolsa e constatou que já eram mais de 23h.

Sem demonstrar curiosidade com o alvo dos fiscais, chamou um vendedor de chá branco gelado, comprou um pacote de biscoitos São Jorge e amenizou a fome, que já começava a se manifestar com a aproximação da meia noite. Por volta de 23h30, começaram a se intensificar as ações dos fiscais. Sentindo-se já íntima da senhora ao lado, puxou conversa, comentando que não entendia como algumas pessoas, apesar de todas as advertências, ainda se comportavam daquela maneira, recusando-se a se proteger. A senhora concordou e acrescentou que ela mesma, em sua família, já tinha vivido o drama decorrente do descuido com a luz da lua. Em uma noite como aquela, há três anos, havia perdido um de seus filhos, abatido pelos fiscais que agiram rapidamente assim que ouviram os primeiros uivos emitidos pelo garoto e constatarm o crescimento acelerado de pelos. Foi só a partir daí que ela conscientizou-se da importância das advertências do Governo e decidiu se livrar do preconceito contra o protetor, apesar de seus efeitos colaterais. Concordaram que seria melhor viver sem os tais efeitos. A senhora pediu licença para se juntar novamente ao marido e aos filhos que já demonstravam vontade de ir embora, e se despediram. Clarissa voltou para sua toalha, verificou no celular que havia uma chamada não atendida, leu mais um pouco, e fechou os olhos para cochilar debaixo do guarda lua.

À meia noite as transformações chegaram a seu auge. Em toda parte viam-se fiscais perseguindo animais amedrontados e enfurecidos que, em seu caminho de fuga desesperada deixavam um rastro de corpos agonizantes pisoteados, braços arrancados e cabeças decepadas. Acordada pelo barulho, Clarissa esboçou um começo de mau humor, mas se conformou ao refletir que aquele, afinal, era o preço que se pagava por escolher frequentar a praia naquele horário e, especificamente, numa noite de lua cheia. Aproveitou a vigília, leu por mais uma hora, depois foi à água, deu um mergulho rápido, juntou suas coisas e pegou o celular para retornar a ligação. Eduardo atendeu de imediato. Conversaram muito, rindo das circunstâncias que fizeram com que se conhecessem no dia anterior, embriagados, na pista de dança da boate lotada às três da tarde. Marcaram uma ceia para as duas e meia da madrugada e Clarissa, para deixar tudo claro desde o início, fez questão de ressaltar que já fazia uso constante do protetor lunar há cinco anos e, portanto, já não havia mais nenhum vestígio de desejo sexual em seu corpo. Eduardo riu alto ao telefone e disse que havia sido um dos pioneiros no uso do protetor e que, por isso, ela não devia se preocupar com atitudes desagradáveis por parte dele.

Ao desligar o celular, sorrindo da própria mentira, Eduardo foi ao banheiro, raspou os fios que haviam nascido desde a meia noite e repassou em sua mente os planos para o final de sua madrugada, com Clarissa a seu lado, debaixo da lua cheia.

João Pessoa, 7 de novembro, 2009

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Jéssica Mouzinho - Sessão de Contos (9)



Pra quem não lembra, a Sessão de Contos é um "programa" do nosso blog que exibe para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos um conto inédito de Jéssica Mouzinho. Boa leitura!


***

O SILÊNCIO

Ela está sempre ali, com seu olhar sedutor, seu sorriso levemente sombrio. Às vezes sinto que quer dizer algo muito importante, mas se cala e fica a me olhar por longas horas, longos dias. E eu numa reciprocidade ímpar faço o mesmo. Fico dias a fitar sua beleza, seus finos cabelos, seu colo nu. Tento adentrar no canto mais profundo de sua alma para saber o que ela pensa das paredes amarelas de nossa casa, dos móveis de madeira Jatobá e da faxineira Teresa que a olha com susto e incompreensão.

Mas confesso que gosto desse mistério e do som delicioso do silêncio promovido pelo nosso amor. Não vejo sinfonia mais perfeita.

Em noites muito frias, me deito sobre ela pra esquentar seu corpo frio, branco e pálido. Sinto que ela sorri com satisfação e agradecimento. Seus olhos brilham feito os meus. Seu corpo quadrado tem as curvas mais perfeitas que já vi. São noites delirantes de entrega, alegria e calor.

Vivemos em nosso mundo perfeitamente silencioso. Nada importa, nada queremos ter, a não ser um ao outro. Muitos veem com indiferença nossa relação, falam que ela é a criação de um outro que a amou pouco, que é apenas mais uma cópia barata das demais que existem por aí. Mas isso não é verdade, ela é a única e verdadeira. 
Minha!

Minha musa de sorriso nebuloso. Minha Monalisa.

terça-feira, 8 de março de 2011

Sessão de Contos (8)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos é um "programa" quase semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos um conto de Maria Romarta. Boa leitura!

***

AGORA TUDO AZUL!

Agora tudo branco.

Vitória já sabia que cinqüenta por cento dos funcionários da empresa onde trabalhava seriam
demitidos. E esperou desesperadamente não estar na lista dos despejados. Mas veio a frustração. Tentou retornar o mais tarde possível para casa, porém seu corpo implorava pela segurança que só o cheiro de um teto é capaz de exalar.

Agora tudo cinza.

Em frente à TV, virou mariposa ofuscada pela luz. Luz, da qual atrasou o pagamento, pois via na
educação de seus filhos maior importância. Mais três dias, e é à luz de velas o jantar. Depois à luz de vela. Nesta ocasião Vitória tomou a vela para si e ficou brincando com a parafina derretida, não porque achava divertido e sim porque era o melhor jeito de afastar a escuridão. Tentou não olhar nos olhos de seus filhos.

Esperar acontecer o melhor pareceu ser uma saída vantajosa.

Então, finalmente aproveitou para relembrar detalhes, como a roseira do seu quintal, seu gosto de ir à praça com eles durante a manhã, as nuvens bobas encaixadas no céu e o seu chapéu de tecido.

Agora tudo azul!

Maria Romarta

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sessão de Contos (7)

Aos poucos, a programação antiga do nosso blog vai retornando.

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos é um "programa" quase semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Nesta semana, exibiremos um conto de uma das integrantes mais recentes do Clube, Regina Lopes. Este conto foi lido na reunião do dia 15 de janeiro de 2011. Boa leitura!

* * *

Palavras de Amor

Regina Lopes

Nícia corria sem parar e sem saber por quê. Desde que saíra da festa, sentia um certo entorpecimento mental e agora movimentava-se rapidamente, deixando pegadas rasas na areia da praia. Como se um volante a direcionasse, foi levada a entrar em uma ruela onde os velhos da cidade distribuíam nacos de pão aos pombos.

Sentiu uma grande vontade de comer aqueles pedaços de pão e o fez compulsivamente, num ritmo que não era o seu, numa vontade que não era a sua. Ali, ouvindo o arrulho dos pombos, se lembrou do homem que acabara de conhecer na festa. Um homem que não parava de falar no seu ouvido. “Ele era estranho, não? Bastou apenas um cruzar de olhos para que me fisgasse. Eu fiquei paralisada, igual a um hipopótamo, afundado na lama até a altura dos olhos. Para ele eu só mostrei os olhos, mais nada. Nem a minha voz ele escutou. Dançamos. Ele me roubou um beijo e... não parava de falar.”

Mais adiante, no final da rua, encontrou um enorme ninho de pombos em volta do qual o povo se aglomerava. Lá dentro havia um homem que habilmente controlava os ventos e os fazia passar pelos buracos de um grande ralador de pão. Produzia sons inusitados e criava assim uma música envolvente. Esta música a foi entorpecendo e quando se encontrava em um estado quase hipnótico, o virtuoso homem profetizou: “aquele que hoje te beijou há de morrer por tua causa”. Dito isto, de cima do seu posto, abriu as asas e voou. Lá do alto, raspou flocos de nuvens na superfície cortante do ralador, derramando uma intensa neblina sobre a cidade.

Nícia ficou tão perturbada, que de todos se escondeu, apagando seus rastros na areia da praia. Aquele homem que a beijara havia mexido com ela; não sabia dizer como, não sabia o que sentia, mas não podia encontrá-lo de novo e permitir que a profecia se cumprisse.

Certo dia, cruzaram-se na rua e ele cobriu-a de beijos. Dizia estar com pressa em função do trabalho, mas ali mesmo, muito ansioso, marcou um novo encontro. No mesmo instante o ar ficou rarefeito e ela sentiu-se sufocar. Correu para casa, fez as malas e mudou-se para uma cidade do interior.

Desde então, na tentativa de amenizar a situação - certamente incompreensível para o pobre homem - passou a concentrar o pensamento nele e a enviar-lhe, mentalmente, lindas palavras de amor.

E assim os dias passaram e quando por fim sentiu-se aliviada e leve, ouviu a grande manchete do jornal: “Um homem fora encontrado morto em seu apartamento, soterrado por imensas palavras de amor”.

Obs.: Baseado em – Palavras de Amor – Nelson Coelho

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sessão de Contos (6)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos pretende ser um "programa" quase semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Esta semana exibiremos um conto de Alfredo Albuquerque, lido no 1.º Luau do Clube do Conto, onde os personagens são os participantes do Clube, a ideia era que cada um interpretasse a sua fala.

***

Luau

O vento uiva tenebroso. O mar repousa majestoso e negro sob a lua quase nova. As ondas chiam delicadamente. A noite chega a seu ponto divisor. O bip de um relógio digital de pulso agride o silêncio.

Ana Virgínia, apoiada no colo de Bonifácio, estreita o abraço e fecha os olhos. A brisa joga-lhe os cabelos sobre o rosto. Bonifácio sussurra em seus ouvidos.

_ Já deu meia noite.

Faz-se silêncio. Então Virgínia indaga.

_ Estou com uma intuição de que o encontro de hoje será diferente. Há algo no ar que só as mulheres percebem. Será que Ela vai aparecer?

_ Ela sempre aparece.

Poucos metros à frente, Laudelino acende uma lanterna. Aponta na direção de Emerson, que luta uma batalha exaustiva contra o implacável vento que tenta apagar seu cigarro. Atingido pela luz, seu rosto adquire um aspecto de fantasma, reforçado pelas distorções de expressão causadas pelo esforço em puxar o difícil trago. Reclama da lanterna.

_ Rapaz, tira essa luz do meu rosto, que está incomodando.

Laudelino aponta para outro lado e encontra Ronaldo, deitado na areia, com os olhos fixos em algum ponto do céu absurdamente estrelado. Parece balbuciar algo para si mesmo enquanto risca no ar linhas que, supõe-se, sejam reproduções das constelações. Laudelino intervém.

_ Descobriu um novo anel em Saturno?

_ Não, mas é possível numa noite como essa, em que o céu está pontilhado de estrelas antigas, estabelecer uma relação entre os arquétipos humanos e pequenos grupos constelacionais. O escorpião, por exemplo, pode ser dividido em três partes, onde podemos discernir as formas do político canalha, da estrela da mídia de entretenimento e do mau poeta.

Dôra Limeira, um pouco afastada do grupo, tenta localizar, no céu, as formações estrelares correspondentes às linhas traçadas por Ronaldo no ar. Roberto a chama.

_ Junte-se a nós, Dôra. Conte-nos novamente o que se sabe a respeito da história dEla.

_ Não quero ficar num círculo. Me agrada mais a estabilidade das formas retangulares, onde tudo se apoia na segurança de uma base firme. Círculos são traiçoeiros e pendem imprevisivelmente para lados inesperados.

_ Podemos nos redistribuir nas arestas de um quadrado, com a vantagem de termos um centro para quem gosta deles e quatro cantos para quem prefere a discrição dos cantos.

Dôra cede e se integra.

_ Diz a lenda que Ela foi afogada pelo noivo após descobrir uma traição. Toda terça à tarde Ela simulava ir ao psicólogo e se encontrava com outro homem em um hotel do centro histórico. Correm boatos de que o casal, ao fazer amor, emitia sons estranhíssimos, como os de gatos no cio. A falta de discrição chamou a atenção de outros frequentadores do hotel e, certo dia, a moça foi reconhecida por um amigo do noivo, cliente de prostitutas baratas. Ao saber da traição o noivo convidou a mulher para ir a Cabo Branco numa noite de domingo, prometendo uma surpresa. Ao chegar à beira do mar, num ponto mais afastado da área de movimento, mostrou-lhe o anel caríssimo, comprado para selar a união eterna. Entraram nus na água e, no primeiro beijo, a moça foi surpreendida pela mão atrevida em sua vagina.

"O que você está fazendo?" - Perguntou ela.

"É a sua aliança. Você vai carregá-la em seu ventre para toda a eternidade."

Regina Behar, ultimamente ausente do grupo e desconhecedora da história, de olhos arregalados pergunta:

_ E o noivo? O que aconteceu a ele depois? Ele foi atrás do amante?

_ Não. Ele deixou um bilhete assumindo o crime e isentando o amante de culpa, dizendo que a traição foi da mulher e não do outro, que nem sequer conhecia. Depois sumiu no mundo. Dizem que tornou-se líder religioso em Moçambique.

_ Que história, hem?

_ É...

E faz-se um longo silêncio.

Emerson dá um trago mal calculado no cigarro e tosse, quebrando o clima de reflexão.

Laudelino lembra-se repentinamente de algo e pergunta para os presentes:

_ Alguém por acaso sabe o resultado do jogo do Sport?

Ninguém responde.

Eli inicia desenhos na areia e, pela concentração que dedica aos detalhes, percebe-se que são desenhos complexos. Faz riscos, ergue montes, cava poços, e depois destrói tudo com as mãos, alisando a areia até planificá-la para novamente recomeçar na nova tela vazia. No meio de uma das obras Roberto estende um canudo retirado do copo plástico de caipirinha. Pergunta.

_ Vai precisar de tubulação?

_ Dessa vez não fiz uma cidade. Estou tentando me lembrar das estampas do vestido que Ela estava usando da última vez. Você se lembra se eram flores?

_ Não... não me lembro. Talvez fossem estrelas do mar.

Raoni também desenha, mas em seu bloco de rascunhos. Faz um retrato de Bonifácio que, por algum motivo, o inspirou a criar um novo personagem para um história em quadrinhos que está desenvolvendo baseada em Alice no País das Maravilhas.

_ Você se importa que eu use seus traços para compor o personagem do coelho filósofo viciado em jogos de computador da década de 80?

_ Sem problema, contando que você mantenha os óculos.

Maria Romarta chega, atrasada.

_ Eu queria pedir mil desculpas pelo minha imperdoável nagligência quanto à pontualidade desse nosso importantíssimo encontro no que se refere ao estreitamento de laços sociais literários e à boa acolhida que devemos à Ela.

André a conforta.

_ Não se preocupe, Romarta, que Ela ainda não apareceu. Inexplicavelmente está atrasada dessa vez.

Luciana, que até então estava em silêncio, concentrada em uma posição impossível da Yoga, sugere:

_ Poderíamos aproveitar que estamos na areia para fazermos uma sessão de alongamento conjugada com um pouco de meditação transcendental e exercícios respiratórios desenvolvidos especialmente para aumentar o desempenho sexual tântrico. Que tal?

Valéria Rezende desaprova.

_ Luciana, se eu me alongar, depois de todo o cansaço de um dia dedicado à reforma de minha casa e à administração de peões, acho que corro o risco de fazer uma postura da qual nunca mais vou conseguir sair. Talvez eu prefira fumar um cigarro.

Viviane, sentada ao lado da irmã, sugere:

_ Eu também acho que prefiro outra coisa. Se vocês quiserem, eu trouxe uma cesta repleta de potes de mousse de chocolate. Seriam para Ela, mas acho que eu comprei uma quantidade exagerada.

_ Pois eu topo a Yoga. - exalta-se Carlos Cartaxo - Será uma excelente oportunidade para a obtenção de novas técnicas que passarei a meu alunos que estão se preparando para encenar uma polêmica peça pseudocontemporânea de cunho socio-filosófico.

André Dias, alheio a tudo e a todos, rabisca um pequeno bloco.

Curioso, Alfredo investiga:

_ Resolveu escrever um conto justamente aqui e a essa hora?

_ Não. É que estou fazendo resenhas dos filmes que comprei daquela locadora de DVDs que fechou recentemente as portas. Vendi meu carro para comprar todo o acervo e agora me comprometi a ver um filme por dia. Hoje de manhã assisti àquele péssimo fime "A dama da água" e agora estou escrevendo sobre ele.

_ Pessoal, - intervém André - estou percebendo uma movimentação na água. Penso que será agora.

Bolhas de sabão sobem das águas escuras de Cabo Branco. Na área da turbulência podem ser vistos sacos plásticos e embalagens de biscoito revirados pela água e expelidos em direção à praia. Dos fones de ouvido de Emerson brota uma música estranha que serve como música de fundo para o espetáculo. Lentamente emerge uma grande bolha que traz dentro de si uma mulher.

Ninguém se assusta. Todos a esperam ansiosos.

Dessa vez Ela está diferente. Sua nudez, antes coberta por plantas aquáticas, agora está explícita. Seu rosto parece mais triste. Ela caminha lentamente até o grupo e senta-se na areia, no centro da roda. Em silêncio, olha para cada um e sorri. Depois espera que, um por um, todos venham até Ela com o presente. Recebe livros de poemas, filmes antigos, uma garrafa de aguardente, enfeites femininos, uma camisa do Sport Club de Recife, uma câmara fotográfica sub-aquática e uma pequena escultura em metal de um jabuti. Em troca, oferece conchas dos mais variados tipos, cada uma com uma pequena pérola embutida. Ao final do ritual Ela se levanta e, para a surpresa de todos, começa a falar.

_ Essa será a última vez que nos veremos. Meu noivo foi morto em Moçambique, na guerra civil e, por isso, estou agora livre de sua maldição. A aliança com a qual ele me presenteou não está mais dentro de mim.

Ao dizer isso, Ela mostra a palma da mão direita. O pequeno aro de metal brilha intensamente e ofusca todos por um momento. Ela deposita o anel na areia e diz:

_ Agora estou livre para amar novamente.

O brilho aumenta. Envolve todos numa cegueira branca. O som dos fones aumenta até um nível insuportável.

Então tudo cessa.

Ela já não está mais lá. O anel despareceu. Tudo, aparentemente, volta à sua calma primordial.

Todos se levantam, como recém acordados de um sono profundo, povoado de sonhos. Caminham em silêncio para longe da praia. Juntam-se novamente, no calçadão, para se despedir. Só então percebem que André Aguiar não voltou.

Alfredo Albuquerque

João Pessoa, 2 de novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sessão de Contos (5)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos pretende ser um "programa" quase semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Pela primeira vez no blog do Clube, um conto da já-não-tão-novata Maria Romarta, lido na reunião do dia 24 de outubro.

***

Fabiano

O pai fez a cena que todos esperam de uma despedida. Abraçou Fabiano, seu filho único, falou que o amava, olhou-o penosamente nos olhos e partiu.

Deixou-lhe além da sua fortuna, apenas pertences particulares que por ser ele, não apegado ao consumismo, resumiam-se em algumas peças de roupa, dois ou três sapatos, um chapéu de cor preta, alguns relógios e um casaco de couro, típico de peão fazendeiro.

Fabiano era um jovem ambicioso de querer sempre mais, então se tratou logo de cuidar das ações empresariais, que agora eram suas tão somente suas.

Pôs-se a trabalhar feito um louco, se já tinha gosto de ter dinheiro, o teve ainda mais.

Sua única causa pessoal era ele próprio, esqueceu que talvez tivesse parente ou algum amigo distante.

Distinto em luxúria, não era, entretanto só um homem milionário, e sim, um homem milionário, inatingível e sozinho.

Tudo o que lhe pertencia, tinha de ser, sem exceção, de puro luxo. E de tão luxuosas que suas coisas eram, acabaram por adotar o “os” e o “as” nos seus adjetivos. E “os” e “as”, tornaram-se de Fabiano, a marca registrada!

Possuía automóveis importados, caros e raros...

E também mansões panorâmicas, desejadas e douradas...

E assim todo o resto.

Certo dia, num grande evento, nomearam a linha das empresas de Fabiano, como, a que mais cresceu, empregou e obteve lucros em todo o país.

Entre flashes e personalidades, subiu ao palco. Recebeu o troféu, acenou para todos e atencionou às perguntas da imprensa.

...

__ Como se sente, agora recebendo um título tão grandioso como este? Feliz? Realizado?

Fabiano sentia-se muito bem com a conquista, porém duas palavras contidas naquela pergunta confundiram-lhe a mente.

“Feliz? Realizado...”. E um risco de pensar trouxe numa nebulosa imagem a feição morta de seu pai. Por que lembrou?

“... Feliz? Realizado?”

Não soube o que dizer, e deixou que evaporasse sem nenhuma resposta a feliz e realizada pergunta, pouco... a pouco.

Maria Romarta

sábado, 31 de outubro de 2009

Sessão de Contos (4)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos pretende ser um "programa" quase semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Hoje temos um conto inédito de Luciana Silveira, o qual foi lido na reunião de 12 de setembro de 2009, veja as duas versões de ata deste dia: versão um; versão dois.

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FOTOGRAFA-SE SONHOS

Cabia a ele montar a loja, preparar o cenário, checar a iluminação, deixar tudo em ordem para o dia que se iniciava. Para isso acordava cedo, limpava a loja e organizava todo equipamento. Era uma rotina de dias e dias, acordar, limpar e organizar. Ele gostava desse oficio e sonhava com o dia em que seria um profissional como Ede, o fotógrafo.

Ede era experiente, já no ramo há muitos anos, havia começado como ele, limpando e organizando a loja, auxiliando o fotógrafo. Pau pra toda obra, era como se definia.

Vinha todo tipo de gente, adultos, crianças, jovens e casais, famílias; todos com um só intuito, imortalizar a imagem em um pedaço de papel. As fantasias eram as mais diversas: marinheiro, comandante, senhoras e crianças em roupas de época. As moças com seus vestidos de festa e maquiadas, casais em roupas de noivos, tudo era permitido ali. A vida era fantasia como dizia Ede, e todos tem o direito de sonhar e ele, claro, de imortalizar o sonho em imagem.

No estúdio de fotos haviam vários cenários de cores e imagens variadas, era possível estar no mundo todo apenas trocando um painel, mudando a luz era possível transformar o dia em noite e vice versa, sonho e realidade, ali tudo se misturava.

O mais importante era que ali, naquela loja, uma coisa era certa, todos saiam felizes, um sorriso em cada face era a certeza de um serviço bem feito.

Quando Ede chega, já está tudo pronto, estúdio limpo, painéis e iluminação prontos, tudo organizado, os clientes já aguardam na ante sala. Vai começar a fábrica de sonhos.

Sra. Adelaide gosta de ser uma “lady”, tanto na vida real como nas fotos, por isso se esmera nas roupas, sempre escolhe um figurino de época, cada vez um novo e diferente vestido. Coloca a maquiagem com aquele ”rouge” nas bochechas, pra dar impressão de saúde, o saiote enorme das saias, encorpando o tecido mole sobre os arames e gomas, parece uma rainha do século XVII. Ela fica séria, em pose ereta, parece que vai dar ordem a todos no local, fazendo-os de servos e lacaios. Ao fundo Ede prepara um cenário de palácio e jardim, e ela se senta como estivesse em um jardim enorme, com cães brincando em volta, crianças correndo e senhores nobres fazendo-lhe a corte. Tudo calculado milimétricamente para sair perfeito na foto, como se realmente ela estivera lá. Atenção, pose, e “buf”, o flash dispara, uma, duas, três, várias, a pose vai mudando e o flash disparando.

Sra. Adelaide, após se trocar, sai satisfeita e sorrindo. Depois Ede levará as fotos para serem escolhidas em sua casa.

O próximo, e o próximo, a próxima, todo tipo de gente, adultos, crianças, jovens e casais, famílias inteiras, vivendo um sonho, imortalizando a imagem em um pedaço de papel. Uma brincadeira. Diversão para muitos, mas para Ede e para mim aquilo era trabalho e levado muito a sério.

Lá fora a placa em letras grandes: FOTOGRÁFA-SE SONHOS.

Luciana Silveira

Setembro/2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Sessão de Contos (3)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos pretende ser um "programa" quase semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Hoje exibiremos um conto inédito, dirigido por Alfredo Albuquerque. O conto, no tema Super-Herói, foi lido na reunião de 22/08/2009.

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Superego

Comecei por matar o Super Homem. Atirei-o da janela do terceiro andar de modo que ele não pudesse reagir. Espatifou-se no gramado, quebrou um braço, arranhou o joelho e, ao ser levado ao hospital, morreu.

O Homem Aranha teve um fim parecido. Ao tentar equilibrar-se em uma de suas teias, presa no puxador do armário e na cabeceira da cama, desequilibrou-se e foi ter com a cara no chão, provocando sangramento na boca e um dente quebrado. Eu o matei na primeira sessão de tratamento dentário.

O Príncipe Submarino morreu afogado na piscina do condomínio quando o levei ao lado mais fundo e o fiz pular sob ameaças de chamá-lo de covarde caso não o fizesse. O Homem Invisível não conseguiu atravessar a parede do banheiro, quando o empurrei, e morreu ali mesmo, no vaso sanitário, sentado, sem entender o porquê de não ter sido capaz de acionar seus poderes. A Mulher Maravilha também não foi poupada, vindo a falecer após levar uma surra humilhante de minha mãe que não havia gostado de vê-la calçada com seus sapatos de festa. A surra a debilitou e eu acabei por matá-la sufocada em lágrimas.

Houve também um Deus a quem neguei comida, matando-o de fome, e em seguida meu pai, que se desintegrou diante dos meus olhos após ser pego em flagrante cometendo contradições entre o que dizia e o que fazia.

E assim fui matando todos, um por um, deixando seus corpos estendidos no passado, como um lembrete à minha memória de que heróis são melhores mortos.

Restou um.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sessão de Contos (2)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos pretende ser um "programa" semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Esta semana, um conto "requentado" de André Ricardo Aguiar, lido na reunião do dia 15/08/2009.

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Moonlight Serenate

(baseado no poema Serenata Sintética do Cassiano Ricardo)

Lua morta*

A noite é fria e carregamos os instrumentos. Bandolim, cavaquinho, violão, uma flauta. Nós somos um grupo coeso e vivemos conforme a música. Aí pintou um serviço, família de conceito, menina romântica, bairro distante. Então conversamos, acertamos a música, que tipo de andamento e tal e torcemos, torcemos muito por uma noite de lua morta, baça, escondida.

Rua torta*

O caminho é um samba de crioulo doido. É um bairro de classe média baixa, cheio de ruas tortas, ladeiras, um ou outro trecho mal formado. O rapaz do violão diz, meio que brincando, que o bairro é assombrado pelos fantasmas de antigos traficantes. Não brinca, cara. Aí dobramos à esquerda e na última esquina, afinamos os instrumentos: estilete, alicate, chave inglesa.

Tua porta*

Quando chegamos defronte a casa, tomamos o cuidado de uma inspeção ampla. Nenhuma alma na rua. Começamos baixinho com uns dedilhados. Quando, em crescendo, espero lascar com meu vozeirão, quando as primeiras pupilas das janelas acendem, eu dispenso um e outro, que dão a volta na casa. O combinado – o código musical – será tocado no momento certo. Lá estão o pai, a mãe, a filha e a empregada pendurados nas janelas. Eles riem embevecidos da serenata. Aumentamos o tom, quando sentimos, pelo compasso, que o serviço está para ser feito. Não se ouve nada, não há latidos de cães, e nos fundos da casa, a música chega no calculado refrão, indicando que podem dar conta, fazer a feira, raspar o tacho. Depois, recolhemos os instrumentos e nem sequer aceitamos as gorjetas. Saímos de fininho.

Contamos o produto, dividimos com justeza e olhamos pros lados, meio temerosos dos assaltos. Descemos o caminho de volta com a sensação dupla: dançamos conforme a música e eles dançam juntos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sessão de Contos

Um conto do português Rui Tinoco, apreciem.

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Quadro histórico

O dia estava cinzento. Contava, minuto a minuto, o tempo que faltava para a entrevista. Sentia um nervoso miudinho. Cheguei ao local com quase uma hora de antecipação. Olhei uma outra vez para o meu curriculum. O que nos levou a toda esta escrita? Irei falar com um senhor, tentar arranjar um emprego: estará a falar comigo mas, para ele, serei somente um caso mais para avaliar. O diálogo estará viciado à partida.

O compartimento onde se faz a espera é desconfortável, os outros candidatos amontoam-se em redor. Não consigo deixar de pensar que estou em território inimigo, sou aqui um estrangeiro. Observo o terreno minuciosamente: vagos cartazes com avisos insignificantes, revistas usadas em cima da mesa, velhas e já inúteis.

Estou em terreno inimigo. Desejo realmente o emprego? Um enorme sentimento de vacuidade enche-me a alma. O melhor era estar quieto. Os sábios são aqueles que entendem que nada vale mesmo a pena: era preferível deixar de desejar.

Desisto? Existem também as obrigações da vida: a inevitabilidade da construção de uma pequena economia doméstica. Entradas de dinheiro e despesas. A vitória nesta entrevista seria uma lança em África, o início da construção de um sonho.

Faz-me sorrir a antiguidade desta última expressão, uma lança em África... A nossa linguagem possui ainda reminiscências das batalhas antigas. Um lugar em África era um passo dado no caminho da construção de um Marrocos português.

Também gostaria de dar hoje um passo na concretização da minha utopia pessoal. Vencer este obstáculo, arrancar-me das horas pesadas sem afazeres relevantes... mas não há afazeres relevantes...

A confusão entranha-se nos sentidos. A face, essa, tem de permanecer inalterável, impassível. Vou vestir a máscara de entrevistado, inventar uma coerência para o meu passado curricular. Desempenharei a farsa que de mim se espera.

- Senhor Pedro, pode entrar.

Entro noutra sala, mais acolhedora sem deixar de ser desagradável. Um vulto farto e acomodado esconde-se detrás de uma secretária.

- Boa tarde.

Ele responde de forma imperceptível, absorto em papéis como parece estar. O inimigo, o exército marroquino, parece indiferente ao meu ataque. Todos os pensamentos que tive até agora esboroam-se na realidade fria da indiferença deste senhor.

- Posso-me sentar?

Ele anui. Sento-me. Aguardo alguns minutos até que ele se inteire dos meus afazeres passados. Enquadrar-me-á nalguma categoria? Se calhar estou já condenado à partida, condenado desde o meu nascimento a ser aqui derrotado. É verdade que se pode aprender muito com as derrotas?

- Podia-me dizer quais as suas qualidades para desempenhar a função a que se candidata?

Vê-se com clareza que não deseja ouvir, que não quer saber a reposta. Para ele, esta pergunta é maquinal, rotineira. Aguardará apenas que se escoem as horas para poder regressar a casa.

Digo-lhe que sou empreendedor, que gosto de ter iniciativa, que sou apaixonado pelo conhecimento. Os olhos dele flutuam para longe da minha fala. Não voam, nem o podiam fazer a partir de um corpo tão disforme. Continuo a descrever as minhas qualidades, sentindo-me imodesto, mas sabendo que o teria de ser.

- Sabe - queixa-se o entrevistador - passamos aqui o dia a fazer sessões destas... estou cansado... e a sua disponibilidade? Está disposto a ir para outras cidades, trabalhar fora do horário?

A sessão estava a correr-me mal. Tinha a nítida percepção disso. Não havia verdadeira vontade de escutar. O meu interlocutor estava cansado, fizera questão em sublinhar o facto. Morrer sim mas devagar, dissera o nosso rei Sebastião no dia em que encontrou a morte em África. Disse-me o mesmo nessa altura.

- Sabe, mete-me confusão esta obrigação da rotina. O mito de Sísifo dos dias sempre iguais. A sociedade parece ter prazer em cultivar este estilo de vida. A pressão para a construção de obrigações, as dívidas ao banco, o comércio do amor e da intimidade de cada um. Não acha que a vida tem que ser algo mais?

Enredei-me pelo trilho do confronto. Dir-se-ia que tinha despido a minha roupagem de entrevistado e que esta súbita e inesperada nudez chocava o senhor gordo e flácido.

Tossicou nervosamente, multiplicou sinais para terminar a sessão, disse: “Bem”; “percebo o seu ponto de vista”; “já entendi aonde quer chegar”. Aguardava apenas um silêncio da minha parte para dar por finda a tarefa.

Apenas o silêncio me separava da derrota.

- Senhor Pedro, é Pedro que se chama, não é? Espero que consiga aplicar na sua vida todos esses sonhos... às vezes também temos que jogar com o mundo real, não concorda? De qualquer modo, desejo-lhe as maiores felicidades para o seu futuro.

Por outras palavras: estava consumada a derrota. Saí do gabinete, desci pelo elevador à rua. Estava noite cerrada. Fechei o casaco, inventei uma urgência para calcorrear afanosamente os passeios.

Tinha já o meu Álcacer Quibir.