Um conto do português Rui Tinoco, apreciem.
***
Quadro histórico
O dia estava cinzento. Contava, minuto a minuto, o tempo que faltava para a entrevista. Sentia um nervoso miudinho. Cheguei ao local com quase uma hora de antecipação. Olhei uma outra vez para o meu curriculum. O que nos levou a toda esta escrita? Irei falar com um senhor, tentar arranjar um emprego: estará a falar comigo mas, para ele, serei somente um caso mais para avaliar. O diálogo estará viciado à partida.
O compartimento onde se faz a espera é desconfortável, os outros candidatos amontoam-se em redor. Não consigo deixar de pensar que estou em território inimigo, sou aqui um estrangeiro. Observo o terreno minuciosamente: vagos cartazes com avisos insignificantes, revistas usadas em cima da mesa, velhas e já inúteis.
Estou em terreno inimigo. Desejo realmente o emprego? Um enorme sentimento de vacuidade enche-me a alma. O melhor era estar quieto. Os sábios são aqueles que entendem que nada vale mesmo a pena: era preferível deixar de desejar.
Desisto? Existem também as obrigações da vida: a inevitabilidade da construção de uma pequena economia doméstica. Entradas de dinheiro e despesas. A vitória nesta entrevista seria uma lança em África, o início da construção de um sonho.
Faz-me sorrir a antiguidade desta última expressão, uma lança em África... A nossa linguagem possui ainda reminiscências das batalhas antigas. Um lugar em África era um passo dado no caminho da construção de um Marrocos português.
Também gostaria de dar hoje um passo na concretização da minha utopia pessoal. Vencer este obstáculo, arrancar-me das horas pesadas sem afazeres relevantes... mas não há afazeres relevantes...
A confusão entranha-se nos sentidos. A face, essa, tem de permanecer inalterável, impassível. Vou vestir a máscara de entrevistado, inventar uma coerência para o meu passado curricular. Desempenharei a farsa que de mim se espera.
- Senhor Pedro, pode entrar.
Entro noutra sala, mais acolhedora sem deixar de ser desagradável. Um vulto farto e acomodado esconde-se detrás de uma secretária.
- Boa tarde.
Ele responde de forma imperceptível, absorto em papéis como parece estar. O inimigo, o exército marroquino, parece indiferente ao meu ataque. Todos os pensamentos que tive até agora esboroam-se na realidade fria da indiferença deste senhor.
- Posso-me sentar?
Ele anui. Sento-me. Aguardo alguns minutos até que ele se inteire dos meus afazeres passados. Enquadrar-me-á nalguma categoria? Se calhar estou já condenado à partida, condenado desde o meu nascimento a ser aqui derrotado. É verdade que se pode aprender muito com as derrotas?
- Podia-me dizer quais as suas qualidades para desempenhar a função a que se candidata?
Vê-se com clareza que não deseja ouvir, que não quer saber a reposta. Para ele, esta pergunta é maquinal, rotineira. Aguardará apenas que se escoem as horas para poder regressar a casa.
Digo-lhe que sou empreendedor, que gosto de ter iniciativa, que sou apaixonado pelo conhecimento. Os olhos dele flutuam para longe da minha fala. Não voam, nem o podiam fazer a partir de um corpo tão disforme. Continuo a descrever as minhas qualidades, sentindo-me imodesto, mas sabendo que o teria de ser.
- Sabe - queixa-se o entrevistador - passamos aqui o dia a fazer sessões destas... estou cansado... e a sua disponibilidade? Está disposto a ir para outras cidades, trabalhar fora do horário?
A sessão estava a correr-me mal. Tinha a nítida percepção disso. Não havia verdadeira vontade de escutar. O meu interlocutor estava cansado, fizera questão em sublinhar o facto. Morrer sim mas devagar, dissera o nosso rei Sebastião no dia em que encontrou a morte em África. Disse-me o mesmo nessa altura.
- Sabe, mete-me confusão esta obrigação da rotina. O mito de Sísifo dos dias sempre iguais. A sociedade parece ter prazer em cultivar este estilo de vida. A pressão para a construção de obrigações, as dívidas ao banco, o comércio do amor e da intimidade de cada um. Não acha que a vida tem que ser algo mais?
Enredei-me pelo trilho do confronto. Dir-se-ia que tinha despido a minha roupagem de entrevistado e que esta súbita e inesperada nudez chocava o senhor gordo e flácido.
Tossicou nervosamente, multiplicou sinais para terminar a sessão, disse: “Bem”; “percebo o seu ponto de vista”; “já entendi aonde quer chegar”. Aguardava apenas um silêncio da minha parte para dar por finda a tarefa.
Apenas o silêncio me separava da derrota.
- Senhor Pedro, é Pedro que se chama, não é? Espero que consiga aplicar na sua vida todos esses sonhos... às vezes também temos que jogar com o mundo real, não concorda? De qualquer modo, desejo-lhe as maiores felicidades para o seu futuro.
Por outras palavras: estava consumada a derrota. Saí do gabinete, desci pelo elevador à rua. Estava noite cerrada. Fechei o casaco, inventei uma urgência para calcorrear afanosamente os passeios.
Tinha já o meu Álcacer Quibir.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
terça-feira, 20 de maio de 2008
Memórias
O calor infiltrava-se nas ideias. O sol reflectia-se na terra a perder de vista e atacava os corpos indefesos pela única via que restava utilizar: o solo. A camioneta fora lenta: como uma armadilha construída para fazer sofrer.
Depois apearam-se e o calor mostrou-se traiçoeiro.
Pegaram nas mochilas, na tenda para acampar. Indagaram pelo parque de campismo. Teriam de percorrer um descampado, subir por uma rua mais protegida de sombra.
Um trilho interminável.
O casal mostrava-se de mau humor: as circunstâncias físicas eram só por si desagradáveis. Não foi, porém, apenas isto que criou tensão: um longo Inverno citadino de desentendidos tinha-se instalado entre os dois.
Daí os gestos ríspidos, por vezes precipitados. As palavras entrecortadas, inusitadas como pedras frias, sem sentimentos. Montaram a tenda, armaram nela as roupas de ocasião e os sacos cama. Beberam duas cervejas no bar do parque.
Em silêncio e sem olhares.
Poder-se-ia dizer que não eram necessárias as conversas num casal que se conhece há tanto tempo como este. Mas mentiríamos. É todo o peso do que não se conseguiu dizer o cenário para a história.
Uma pequena tragédia.
Avancemos, contudo, um pouco mais na trama deste par.
Ele: tinha a ideia da eternidade do amor. Mergulhava na agressividade dos desentendimentos com toda a impulsividade, mas sentia que nada estava em causa. Se calhar ela não pensava assim... se calhar ele deveria partilhar mais os seus pensamentos.
Ela: não compreendia a causa da agressividade do seu companheiro. Será que ele a amava? Sentia-se ferida mas convencia-se que tudo estava bem. Dizia-lhe isso, ele acreditava, mas depois nada estava bem e afogava-se em dúvidas.
Voltaram à tenda: um banho fresco e o jantar improvisado, confeccionado ao ar livre. Mais uma vez, algumas horas passadas em silêncio. Depois o regresso à cidade: desceram a rua íngreme, protegida da noite, de seguida atravessaram o descampado despojado daquela agressividade das horas diurnas.
Embrenharam-se na malha urbana, insuflados pelas alegrias do verão. Os pequenos jardins, cheios de pessoas e de música. Não interessa que tipo de música: dance-se.
Uma esplanada oferecia um palco acolhedor para o silêncio que se instalara entre os dois. O diálogo era pesado e descontínuo. Poderíamos até falar, como alternativa, em monólogos incomunicantes.
Sentaram à mesa.
- Sabes (diz ela) quero-te dizer uma coisa mas promete que não te vais zangar...
O que é que será? - pergunta-se ele - fez uma maldade? Uma maldade muito grande? Aguento ou não? Mas prometer o perdão antes de saber o pecado é tarefa contraditória.
De qualquer modo diz ele: - Diz, fala, conta... como posso prometer o que me pedes?
A surpresa vem sempre de um lugar completamente novo.
- (diz ela) Naqueles meses de Fevereiro traí-te.
É bem como dizíamos.
Os detalhes da traição: ele tinha-a levado com todo o carinho a uma festa. Ela pedira-lhe que não fosse. Ele entendeu-a e despediu-se cheio de amor... e a traição.
A situação é paradoxal: não lhe apetecia perdoar, mas soube de um acontecimento que já se consumou há meses. Pertence ao passado: tantas coisas boas aconteceram desde então.
- (diz ela) Fiquei muito arrependida, foi por isso que depois te tratei muito bem, fiz e dei-me a ti o melhor que pude.
Ele lembra-se dessas explosões de ternura, estranhou-as e bebeu delas. Alegrou-se. Estava tão perto e tão longe de imaginar o motivo desses comportamentos.
De qualquer maneira, a situação é extremamente delicada.
- (diz ela) Não dizes nada?, fala comigo, tu prometeste... - como se podia prometer uma coisa daquelas? Daí o silêncio e o tumulto de palavras contrárias a baterem na cabeça do nosso homem.
- Não dizes nada?
Ele levanta-se da mesa, mudo, atravessa a esplanada, cheia de conversas de verão. No meio do jardim havia um pequeno chafariz.
Ele aproxima-se dessa água e mergulha nela. Ela levanta-se e faz a mesma coisa. Na esplanada todos reparam no inaudito do acontecimento
Eles saem do chafariz, com as roupas completamente molhadas. Afastam-se da cidade pelo descampado, agora inundado de abóbada. Estrelas cadentes. Sobem a rua protegida pelo medo até alcançarem a tenda.
A noite partilhada de desilusões.
Rui Tinoco
(Rui Tinoco é português do Porto e nos enviou este conto por e-mail)
Depois apearam-se e o calor mostrou-se traiçoeiro.
Pegaram nas mochilas, na tenda para acampar. Indagaram pelo parque de campismo. Teriam de percorrer um descampado, subir por uma rua mais protegida de sombra.
Um trilho interminável.
O casal mostrava-se de mau humor: as circunstâncias físicas eram só por si desagradáveis. Não foi, porém, apenas isto que criou tensão: um longo Inverno citadino de desentendidos tinha-se instalado entre os dois.
Daí os gestos ríspidos, por vezes precipitados. As palavras entrecortadas, inusitadas como pedras frias, sem sentimentos. Montaram a tenda, armaram nela as roupas de ocasião e os sacos cama. Beberam duas cervejas no bar do parque.
Em silêncio e sem olhares.
Poder-se-ia dizer que não eram necessárias as conversas num casal que se conhece há tanto tempo como este. Mas mentiríamos. É todo o peso do que não se conseguiu dizer o cenário para a história.
Uma pequena tragédia.
Avancemos, contudo, um pouco mais na trama deste par.
Ele: tinha a ideia da eternidade do amor. Mergulhava na agressividade dos desentendimentos com toda a impulsividade, mas sentia que nada estava em causa. Se calhar ela não pensava assim... se calhar ele deveria partilhar mais os seus pensamentos.
Ela: não compreendia a causa da agressividade do seu companheiro. Será que ele a amava? Sentia-se ferida mas convencia-se que tudo estava bem. Dizia-lhe isso, ele acreditava, mas depois nada estava bem e afogava-se em dúvidas.
Voltaram à tenda: um banho fresco e o jantar improvisado, confeccionado ao ar livre. Mais uma vez, algumas horas passadas em silêncio. Depois o regresso à cidade: desceram a rua íngreme, protegida da noite, de seguida atravessaram o descampado despojado daquela agressividade das horas diurnas.
Embrenharam-se na malha urbana, insuflados pelas alegrias do verão. Os pequenos jardins, cheios de pessoas e de música. Não interessa que tipo de música: dance-se.
Uma esplanada oferecia um palco acolhedor para o silêncio que se instalara entre os dois. O diálogo era pesado e descontínuo. Poderíamos até falar, como alternativa, em monólogos incomunicantes.
Sentaram à mesa.
- Sabes (diz ela) quero-te dizer uma coisa mas promete que não te vais zangar...
O que é que será? - pergunta-se ele - fez uma maldade? Uma maldade muito grande? Aguento ou não? Mas prometer o perdão antes de saber o pecado é tarefa contraditória.
De qualquer modo diz ele: - Diz, fala, conta... como posso prometer o que me pedes?
A surpresa vem sempre de um lugar completamente novo.
- (diz ela) Naqueles meses de Fevereiro traí-te.
É bem como dizíamos.
Os detalhes da traição: ele tinha-a levado com todo o carinho a uma festa. Ela pedira-lhe que não fosse. Ele entendeu-a e despediu-se cheio de amor... e a traição.
A situação é paradoxal: não lhe apetecia perdoar, mas soube de um acontecimento que já se consumou há meses. Pertence ao passado: tantas coisas boas aconteceram desde então.
- (diz ela) Fiquei muito arrependida, foi por isso que depois te tratei muito bem, fiz e dei-me a ti o melhor que pude.
Ele lembra-se dessas explosões de ternura, estranhou-as e bebeu delas. Alegrou-se. Estava tão perto e tão longe de imaginar o motivo desses comportamentos.
De qualquer maneira, a situação é extremamente delicada.
- (diz ela) Não dizes nada?, fala comigo, tu prometeste... - como se podia prometer uma coisa daquelas? Daí o silêncio e o tumulto de palavras contrárias a baterem na cabeça do nosso homem.
- Não dizes nada?
Ele levanta-se da mesa, mudo, atravessa a esplanada, cheia de conversas de verão. No meio do jardim havia um pequeno chafariz.
Ele aproxima-se dessa água e mergulha nela. Ela levanta-se e faz a mesma coisa. Na esplanada todos reparam no inaudito do acontecimento
Eles saem do chafariz, com as roupas completamente molhadas. Afastam-se da cidade pelo descampado, agora inundado de abóbada. Estrelas cadentes. Sobem a rua protegida pelo medo até alcançarem a tenda.
A noite partilhada de desilusões.
Rui Tinoco
(Rui Tinoco é português do Porto e nos enviou este conto por e-mail)
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