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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Regina Behar (Cartum + Conto)

REGINA BEHAR nasceu em João Pessoa, gosta de arte em geral e literatura e cinema em particular. Se considera amadora em ambas as artes no dúbio sentido da palavra. Ensina história como profissão da qual gosta e lhe permite pagar contas, mas experimenta as artes por pura necessidade vital e deseja, do fundo da alma, um dia viver fazendo só isso, além de, obviamente,  amar as pessoas que ama. Integra o Clube do Conto desde não sei quando, mas tem certeza de que Dorinha, Ronaldo ou Valéria podem atestar que ela é da velha guarda.

* * *


O SEGREDO DE JULIA

Mauro e Julia viviam uma vida pacata de cidade do interior, numa casa com quintal grande, um cachorro, dois gatos e três crianças, duas meninas e um menino.  Mauro era proprietário da Mercearia Fontes,  e Julia dava um expediente de quatro horas na Prefeitura de Tocáia, um lugar perdido no mapa mundi.

Mas, por trás da aparente tranqüilidade da vida comum, sem sobressaltos e sem grandes projetos, um mal estar  crescia entre eles, e tudo por causa do  segredo de Julia.  Era segredo porque ninguém sabia, só ela,  e Julia se recusava sistematicamente a contá-lo. Dizia-lhe que não havia segredo algum.

Mas ele, Mauro, tinha absoluta certeza desse segredo que lampejava nos olhos dela e, vez por outra, parecia transparecer em seu rosto, sem que pudesse decifrá-lo. Aliás, Julia sempre fora enigmática, silenciosa, embora nunca tenha sido tímida. E disso Mauro lembrava muito bem... Essa  mulher esconde um segredo, pensava e remoia.

E remoeu durante anos, enquanto se arrastava o tempo, e os filhos cresciam, e as árvores repetiam seus ciclos frutosos, e os gatos davam cria. E remoeu isso de dia, na Mercearia, enquanto atendia os clientes, e remoeu também de noite, no silêncio do quarto, quando iam dormir.  

Vez por outra, insistia na velha pergunta: Quando você vai me contar? E ela apenas sorria e repetia que não tinha o que contar. E se for outro homem? Pensou durante certo tempo. Seguiu Julia durante dias, e nada. Pode ser alguém da Repartição, pensou.  Obcecado pela idéia,  pagou o auxiliar de limpeza para ficar de olho nela durante meses... e nada! 

Um dia, quando os filhos estavam a meio caminho da adolescência, Julia adoeceu repentinamente. Mauro pareceu esquecer o segredo e se concentrou em manter Julia viva. Levou-a para a capital. Consultou  especialistas e mais especialistas.  O  diagnóstico era sempre o mesmo:  A tal doença no coração era degenerativa e Julia teria apenas alguns meses de vida.

Sem mais o que fazer, a não ser os procedimentos paliativos, Mauro voltou a pensar no segredo de Julia; esse que continuava a borbulhar nos olhos seus olhos, agora mais silenciosos, concentrados sabe-se lá em  que! Então começou a ficar desesperado diante da possibilidade de que ela partisse sem falar a respeito. Afinal, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, incluí  a lealdade, a verdade, a entrega dos segredos, apelava Mauro.

Nos últimos dias de vida de Júlia, Mauro tornou-se cruel e praticamente não falava com ela, magoado. Abriu suas caixas, leu papeis amarelados, vasculhou todas as gavetas, e bolsos de roupas antigas e guardadas.  Os parentes foram  submetidos a interrogatórios sobre sua vida pregressa,   numa tentativa desesperada por qualquer  pista que revelasse a secreta coisa  se escondia por trás dos olhos negros de Julia.

Ela enfrentou o marido e a doença, impassível! Sempre reafirmou que não havia segredo, pois apenas vivia e apenas via; e conforme o dia, era feliz ou infeliz, alegre ou triste. A vida era a vida e a morte seria a morte, nada havia para temer. Nada jamais temera.  E era só. Sabia que o sol nasceria de manhã e se poria à tarde e que a mangueira daria frutos em janeiro. Tudo muito simples! Dizia a Mauro que sossegasse, que deixasse de histórias, e isso era a única verdade, conforme Julia.

Julia  morreu um dia depois dessa conversa com Mauro, sentada na cadeira de balanço, embaixo da frondosa mangueira  no quintal de casa, num fim de tarde, um pouco antes da safra das mangas. Mauro jamais acreditou que não havia um segredo. Dois anos depois casou novamente. A nova mulher, dona  da lanchonete em frente à Mercearia  Fontes,  falava muito!  Brigavam quase todo dia, a propósito de quase tudo.  Mauro sentia-se levemente confortável. Essa mulher, diferente de Júlia, não tinha aquele jeito misterioso, nenhuma  luz estranha  nos olhos,  nem escondia  segredo algum. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Maria Romarta (Cartum + Conto)

MARIA ROMARTA nasceu em 09 de Março de 1991, em Santana do Ipanema, cidade do Sertão de Alagoas. Começou a escrever e a compor aos nove anos. Há algum tempo veio morar na Cidade de João pessoa. Faz teatro, é aluna de Comunicação Social - Jornalismo da UFPB e membro do Clube do Conto da Paraíba.

***

QUANDO AS PALAVRAS SOMEM

Quando avistei a porta, olhei por segundos aquele número: 513. Pensei em escapar, descer apressadamente as escadas até que a distância pudesse me consumir, mas, meu coração adiantou-se e fez com que meus pés me pusessem praticamente colado à porta. Senti o cheiro do verniz.

Eu não fugi, não podia, mas também não tive coragem de tocar aquela campainha, me sentia envergonhado, por quê? Eu estava ali não estava? Havia me reorganizado para cumprir com o que devia, não havia?

Bati. A mãe de Thaís atendeu, pediu que eu entrasse, pôs para mim um chá e falou que ele estava dormindo.

- Quer vê-lo? - Perguntou-me.

- Não. Eu quero vê-lo sim, mas agora não, o deixe dormir, depois...

- Tudo bem!

- Daqui a pouco... Sabe?

-Veja bem, como era desejo de Thaís, que o menino te conhecesse e que fosse morar com você, darei também meu consentimento. Mas caso não fosse isto, ele ficaria comigo, só comigo. Então...

- O que ela disse mais?

-Como eu ia dizendo... O menino inicialmente passa o final de semana com você e a semana comigo, até que se acostume com você, se por acaso acostumar. Depois a situação se inverte então ele passa a...

Juro que me senti mal com toda aquela conversa, queria chorar, deixar cair aquela xícara no chão, não por causa do menino, a questão era que eu estava deslocado, me sentia um estranho no mundo, um sem nenhum valor, um tanto faz. Eu queria fazê-la parar de falar, então disse:

- Eu sei, entendi.

E ela calou-se, e se pôs a fitar o chão. Notei que ela lacrimejava. E a entendi, aquele menino era para ela, uma extensão de Thaís e ela não queria perder Thaís pela segunda vez. Mas, e perderia?

Logo, o silêncio feito por nós mostrou-me as fotos de Thaís espalhadas pela sala em porta retratos. Ela estava feliz e linda. Olhando-as, meu mal estar sumiu, mas foi também olhando para elas que tornei a pensar naquilo que me tirava o sono há dias: Por que ela quis me entregar o menino? Para provar que sou orgulhoso? Fazer-me lembrar que eu os abandonei? Ou isto era uma prova de amor e ela sabia que eu seria um ótimo pai? Ora! Thaís, não foi você que pediu para eu ir?

- O que ela disse mais?

- De você? Mais nada.

-Ela falava que não, mas guardava mágoas de mim.

-(...)

- Não era?

- Achava um covarde, infantil!

-Tinha razão...

- Não. Eu que te achava um moleque covarde, cheguei a jurar que você não vinha. Eu vou chamar o garoto, afinal, vocês têm um voo para pegar, não é?

-É sim...

- Ah! Mas olhe ele aí.

O quê? Como assim? Naquele instante meu coração subiu até a garganta!

- Esse moço aí é seu pai. Lembra? Aquele que sua mãe mostrava pela cam.

Ele então veio me abraçar e eu aceitei todo desajeitado e, de emoção, chorei, mansinho, para não assustá-lo. E nem quis imaginar quantas palavras severas ele me diria se soubesse me julgar. E nem quis explicar nada, pois já não havia palavras. E eis a primeira coisa que aprendi dele: Quando as palavras somem, se transformam em abraço.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Regina Lopes (Cartum + Conto)

REGINA LOPES MACIEL é mineira, tem 51 anos, formada em medicina, mas há muito tempo fez a opção por exercer diversas atividades artísticas: canto, teatro, escrita, paisagismo, desenho e bordado. Escreve desde 1999 e atualmente mora em João Pessoa, onde faz parte do Clube do Conto da Paraíba.

***

CAMINHO

Já era tempo de subir o rio. Eu estava madura, no entanto, inexperiente: era a minha primeira vez. Despedi-me dos mais jovens e juntei-me ao grupo adulto feminino, com o qual aprenderia todos os rituais da viagem.

Durante os preparativos, tudo era festa e ríamos à toa: os salpicos da chuva nos provocavam cócegas, os pequenos girinos, que faziam a corte aos nossos pés, pareciam zonzos e desorientados, os seixos massageavam nossos corpos e nós nos deleitávamos com aquelas sensações.  O grupo masculino olhava de longe, pensavam que ríamos deles e, um pouco emburrados - acho até que enciumados com nossa alegria - faziam as provisões necessárias. 

Em janeiro, o rio estava suficientemente cheio para a partida e todos nós, prontos para a viagem.

No início da jornada ainda se pode conversar, trocar ideias, falar dos planos e sonhos futuros. Mas aos poucos, toda a energia precisa ser economizada e toda a atenção dirigida ao rumo a ser tomado. A resistência da água é forte, o percurso extenuante e há uma imensidão que não se sabe onde vai dar.  Surgem imprevistos como barragens enormes a serem transpostas e trechos extremamente poluídos.  Vez ou outra alguém desaparece do campo de visão e não há  como saber se  foi pego por alguma correnteza mais forte, se achou uma passagem de mais fácil acesso, se desistiu e voltou atrás ou, até mesmo, se morreu.

Por fim, chegamos à nascente do rio e ali fizemos o que tínhamos que fazer: desovamos.

Hoje, que refiz este percurso diversas vezes, ainda não posso compreender porque a placa, afixada na primeira curva do rio, alerta-nos para não se nadar contra a correnteza. Nadamos sempre contra a correnteza, e este é o nosso caminho. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

André R. Aguiar (Cartum + Conto)

ANDRÉ RICARDO AGUIAR nasceu em Itabaiana, Paraíba e ficou tempo suficiente nesta zona rural para adquirir o olhar para as coisas mais básicas da vida, tempo e memória. Veio para João Pessoa, tomou contato com livros e bibliotecas e nunca mais parou de beber da fonte. Passou por jornalismo e letras e através de muitas amizades, integrou os movimentos culturais do fim de século, além de colaborar com jornais e revistas, entre eles, Correio das Artes, sua estréia. Participou de concursos literários, fundou o selo Trema, junto com Antonio Mariano e José Caetano e ajudou a fundar o Clube do Conto. Começou na poesia, publicando A Flor em Construção (Idéia), Alvenaria (Ed. UFPB). Em seguida, o livro de crõnicas de viagem Bagagem Lírica (Sal da Terra) e os infantis O rato que roeu o rei (Rocco) e Pequenas Reinações. Tem inéditos outros livros.

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O MÁGICO

Ele era mágico, vivia disso e se orgulhava, quando saiu de sua terra, de ter de memória, todas as técnicas que aprendeu com um sujeito velho, espécie de caixeiro-viajante, que lhe ensinou o básico: tudo é  ilusão. 

Agora vivia num quartinho alugado, perto da boate onde ele, com destreza, fazia mil e uma mágicas de enganar a vista, o dito ilusionismo para alguns. Desaparecia e aparecia com o espectador e sabia muito bem esticar o suspense; as inevitáveis e mirabolantes estripulias com cartas de baralhos; o truque de mover objetos. E em tudo isso o pouco rendimento, o suado resultado que  mal pagava as contas – e que mal alimentava o coelho da cartola. Também sonhava com Carolina, a filha do dono do estabelecimento. Ia e vinha entre as  mesas, atendendo os clientes. 

Lembrava bem da cidade em que nasceu, da prima que se espantou com a primeira mágica, do beijo roubado no crepúsculo, da estranheza em pouco mais que um fim de semana ver o pai desaparecer numa curva da estrada e nunca mais aparecer,  amargo número incompleto.

Estava  nas reminicencias naquela manhã, quando treinava os números daquele dia, e, num momento raro, pegou o coelho, o pôs na cartola e o viu sumir. A mão sentiu a penugem ir aos poucos se desfazendo numa matéria mínima até pouco restar, a não ser pelos entre os dedos. Depois, olhou para o fundo da cartola, para os lados, para a sala e nada. 

Demorou muito a cair em si. Não era apenas a cartola. Qualquer coisa que pudesse se oculta por ele, podia sim, sumir. E não mais voltar. Esperou dias pela volta do coelhinho e nada. Sentiu ânsias de vômito e teve a impressão de uma bola de pelos efervecentes subir a garganta, e nada. 

Na boate, a platéia entediada, como a esperar que ele fosse apenas a atração secundária para o show com mulheres voluptuosas. Então, de pirraça, começou a desaparecer com pessoas. Escolhia ao acaso, na platéia, aqueles seres desacompanhados, que geralmente ficavam nos cantos apenas pedindo, com  os gestos mínimos, para não serem perturbados. Mas quando chamados, talvez para evitar um constrangimento na recusa, iam ao palco e se submetiam à humilhação de serem vistos e analisados com os olhares. Durava pouco, pois entravam numa cabine e, num zastrás, o vazio apenas, o holofote chicoteava e pronto, música de finalização. Ninguém reclamava o fechamento do círculo. Achavam que quem desaparecia, ia para os bastidores e de lá, talvez pegar a lateral da boate e ir embora. O dono do estabelecimento, vez ou outra, preocupado, perguntava mesmo, onde o sujeito? E ele, vestindo a roupa comum, desconversava dizendo, está na mesa perto do balcão, é só conferir. E dizia com poucas palavras, já anunciando que o silêncio era o que faltava vestir para ir cuidar da vida.

Mágica. Não tinha a capacidade, esta sim, necessária, de fazer aparecer coisas.  Dinheiro no bolso ou na cartola, por exemplo. Só desaparecia. Sabia, pois sonhou com isso, que as pessoas que desapareciam, forçosamente apareciam em outros lugares.  Os solitários caíam em antigas aldeias festivas e geralmente eram solicitados a cantar ou tocar.  Os tímidos ou feios terminavam em serviço social, os hospitais do outro lado do mundo, os contratavam para atender pacientes. Os que estavam terrivelmente molestados, com pouco tempo de vida, iam para as guerras fronteiriças, e na luta, descobriam um sentido imediato de vida. Morriam úteis, sem saber se foi a bala ou o tumor. 

Foi só quando Carolina confessou o seu amor, um amor que seria sempre proibido, que ele se lembrou do conselho do caixeiro-viajante e tornou a frase ao avesso: vida é ilusão. E programou seu último número, às ocultas. 

Naquela última noite, o mágico fez tudo às pressas, tão nervoso estava. Alguns números não funcionaram. Outros, arrancaram risadas, outros ainda nem foram aplaudidos. Deixou pra o final, já cansado e com a cartola jogada no canto do palco, o número da cabine. Olhou para a platéia na luz difusa e com um gesto, chamou a filha do dono do estabelecimento. Tudo combinado, ela veio às pressas, enquanto o pai estava ocupado, com urgências de última hora. E quando entrou na cabine, o mágico suspirou aliviado e sem muita cerimônia, para surpresa do público, também entrou, uma maleta nas mãos. Fechou e entrou no abafado mundo do seu talento. Escuro estava. Tateou até encontrar uma mão trêmula e febril. Podia ser Carolina ou a ilusão que lhe convinha, não importa. 

Desaparecer sempre era um bom começo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Dôra Limeira (Cartum + Conto)

DÔRA LIMEIRA nasceu em João Pessoa no dia 21 de abril do século passado. Graduou-se e especializou-se em História na UFPB. Depois que se aposentou enquanto professora, fez teatro, foi uma das fundadores do Grupo Teatrália. Depois enveredou pela Literatura, tendo publicado seu primeiro livro aos 60 anos, o livro de  contos "Arquitetura de um Abandono". Por causa desse livro, recebeu o prêmio de Revelação Literária 2003, promovido pelo Suplemento Literário Correio das Artes, do jornal A União. Em 2002, participou do Concurso Talentos da Maturidade (promovido pelo Banco Real) com o conto "Não há sinais", concorrendo com 10.338 inscritos em todo o país. Foi incluída entre os vinte melhores concorrentes. Como tal, teve seu conto publicado na antologia "Todas as estações", pela editora Peirópolis. Em 2005 publicou seu segundo livro de contos, o "Preces e Orgasmos dos Desvalidos". Dôra Limeira é uma das fundadoras do Clube do Conto da Paraiba, que já completou sete anos de existência e que já publicou uma antologia "Histórias de sábados". Dôra Limeira publicou mais dois livros de contos, a saber: "O Beijo de Deus" (2007) e "Os gemidos da Rua" (2009). No momento, dispõe de dois livros inéditos, esperando oportunidade para publicação.

***

EIS O QUE RESTA DE MIM

Você não sabe de coisa alguma. Fui obrigada a me afastar e nada lhe expliquei. Dobrei a esquina sem adeus nem acenos de até logo. Eu sofria muito. Amaldiçoava tudo quanto eu tinha de mais sagrado, meus anjos, meus santos, meus pais. Mas não derramava uma só lágrima. Ao contrário, eu ria às pampas. Perguntavam-me se eu estava louca. Não, não estou louca, eu respondia. Mas devo confessar que, em meu íntimo, eu desatinava, perdia meu rumo. Disparava num riso histérico, escrachado. Somente eu e Deus sabíamos o quanto me angustiava aquela situação. Deus sabe o quanto eu cortava minha pele até não suportar. Era doloroso. Eu sangrava, gemia, gritava e arrancava minhas vestes. Era tanta a dor que eu chegava a trincar os dentes. Parecia que um tumor maligno estava sendo extirpado de mim, sem anestesia.

Custou-me muito, mas decidi ir embora. Não me pergunte sobre as razões de meu gesto. Não sei, não tenho como lhe responder. Nos primeiros tempos nosso companheirismo foi muito bom, parecia não ter fim. Você se desdobrou em delicadezas, eu me desdobrei em compreensão e paciência. Eu pensei que aquele céu duraria por muitas eternidades. Mas, infelizmente, lamento, não deu. As engrenagens da vida foram mais fortes do que nós. Fomos impotentes perante a rotina, o tédio, o marasmo. E tudo se desgastou, tudo se transformou em sofrimento. Aquilo que parecia amor para sempre se consumiu, se destruiu entre bebedeiras e discussoes à toa.  Com o tempo, você se transformou. Permitiu que as crises tomassem conta de seu corpo e sua alma. Voce mudou o comportamento, pareceu-me ser outra pessoa.

Ao longo dos anos, aos poucos, você se atrasou em seus compromissos comigo. Embriagado, você muitas vezes me beijou e me bateu, depois você chorou. Eu tive muita paciencia. Nao me lembro de quantas vezes coloquei você na cama, limpei vômitos, urinas e fezes no quarto, no corredor da casa,  no banheiro. Mesmo assim, acreditei em cada promessa, cada propósito de mudança. Você sempre me prometeu coisas depois de suas bebedeiras, e sempre acreditei. Eu preparei seu jantar, inventei pratos novos de vez em quando. Mas você sempre chegou tarde para a ceia, a comida esfriava e eu dormia no torpor da depressão. Se você me beijava com bafo de cerveja, eu acordava enojada, impaciente. Você disse muitas vezes eu te amo, mas repuxou meus cabelos e me bateu. Eu nunca tive o direito de comemorar qualquer coisa em casa, seja meu aniversário, aniversário das crianças, Natal ou qualquer outra confraternização. Sabe por que? Eu tive vergonha. Embriagado, voce não respeitou nem a presença de minhas amigas e de meus familiares. Sempre discutiu, disse palavrões, fez gestos obscenos. Em suas crises, você não considerou nossas crianças tão pequenas ainda. Minha mãe me chamou minha filha, volte para a casa de seus pais. Na casa de seus pais, ninguem bate em você, lá você é respeitada e estimada. Mas, naquele tempo, não tive coragem de tomar uma atitude.

E os dias, meses e anos foram se passando. Aquele 12 de dezembro amanheceu, o sol avançou e você não chegou. Levantei-me, fiz o café da manhã e encaminhei as crianças para a escola. Aguei o jardim, pus a ração do cachorro, lavei a louça, fiz uma coisa, fiz outra coisa. E você não chegou. Lavei roupa, esfreguei, enxaguei. O sol se colocou alto no céu, esquentou as visceras de meu juizo, esvaziou meus sentimentos, secou minha vontade de chorar. E você não chegou. Em busca de uma decisão, eu prossegui cortando minha pele, minha carne. Tudo em minha casa fedia, ora era cheiro de cachaça, ora de vômito, ora de fezes. Respirei fundo, inalei todos os maus cheiros do ambiente e resolvi. Fui embora levando meu corpo, minhas coisas, minha pequena vida. Mal dobrei a esquina, já senti saudade das crianças. Engoli no seco e atravessei a rua na faixa de pedestre. Nunca mais tive notícias das coisas de meu passado, as crianças, o marido, meus pais, o guarda roupa que aninhou meus segredos durantes muitos anos. Doeu, doeu muito. Mas hoje eu acredito que valeu. Cabelos grisalhos, hipertensão, diabetes e tosse crônica são as coisas que me restam. E um gato castrado roronando debaixo de minha cama.

(Inspirado no samba “Ex-amor”, de Martinho da Vila)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Laudelino Menezes (Cartum + Conto)

LAUDELINO MENEZES é contoclubista, recifense e pessoense, torcedor do Sport e professor de matemática. Vez ou outra faz um conto e pensa em escrever um romance. Já publicou uns quadrinhos na revista Subversos, participou da antologia do Clube do Conto e produziu um zine extinto chamado Histórias pra boi dormir.

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DÚVIDA

Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - Acabou a gasolina do carro, dona? - Não, vou tocar fogo na casa mesmo. - Tem seguro? - Tenho sim. - E se descobrem que o incêndio foi intencional? - Tanto faz, isso é apenas um conto escrito por Laudelino Menezes intitulado Dúvida. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? Onde irei morar com a casa reduzida a cinzas? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão e acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou em dúvida. Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - De novo, dona? - De novo o quê? - Já é a segunda vez que você vem aqui. - Não é não, é a primeira. - Você vai me dizer que vai tocar fogo no casa e que isso é apenas um conto. - Pois é, tava pensando nisso mesmo. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? E se eu estiver ficando doida, repetindo meus atos inumeras vezes sem perceber? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão, acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou pensativa.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Joana Belarmino (Cartum + Conto)

JOANA BELARMINO é paraibana, jornalista, professora do curso de comunicação da UFPB e doutora em comunicação e Semiótica. Membro ativo do clube do conto, já publicou livros de literatura infantojuvenil: "O Patinho Criança" (1979); "Dartanham, Um Gato com gosto de Pinto" (Editora Moderna, 1983-1988); "Era Uma Vez uma Vírgula" (Editora Idéia, 1997). Mantém o blog barrados no braille, no endereço www.joanabelarmino.zip.net.

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ASSALTO A MÃO ARMADA

Eu nunca havia experimentado essa sensação, de ter uma arma pressionando minha testa. Como se esse aperto surrupiasse de mim um monte de lembranças, e me apetrechasse com uma única pergunta: Aonde começa a vida? Pisei no seu pé? Desculpe. Antes de tudo, até a gente chegar lá, deixe eu lhe contar a história de onde começou minha vida. Não. Não foi propriamente minha vida que começou ali, mas, ali começou uma rota provável que gerou todos os acontecimentos que culminaram com ela. Você sabe, agora que penso nisso, me dou conta de que faz muito tempo  que esse pensamento anda agarrado comigo, como um alicate, como  o cano dessa arma, agora firmado na minha testa. Minha vida começou com um ato de violência. Isso, afrouxe um pouco, não vou fugir. Como eu dizia, minha vida começou com um ato de violência. Meu pai tinha doze anos quando sua madrasta o açoitou, violentamente, só porque ele tinha ido na dispensa pegar um pedaço de rapadura. O pai dele? Fez o que todo pai faz. Apoiou a madrasta. Meu pai então fugiu de casa, com aquele desgosto açucarado pingando dos dentes da alma. Fugiu de casa, trabalhou, foi à feira de quarta-feira e um dia viu minha mãe. Arma no coldre, meu pai decidiu que era tempo de casar, ter uma dispensa onde pudesse guardar sua rapadura. Apertado aqui, não? A senha? Juntei a minha idade e a do meu marido, somos da mesma idade. Depois as idades dos meninos. Não, digitou errado. A do menino mais novo vem primeiro. Eu sei, um pequeno embuste tolo. Minha vida acaba como começou, mas pelo menos você tem agora uma história em que pensar, além do meu saldo. O grande mistério é não haver mistério. Tudo o que começa, sempre acaba. Isso, desça um pouco mais para perto dos olhos, Ai!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Alfredo Albuquerque (Cartum + Conto)

ALFREDO ALBUQUERQUE é mineiro de Belo Horizonte. Designer Gráfico por profissão. Músico, compositor e escritor por diversão. Tem dois livros editados, Os círculos (prêmio Xerox/Revista Livro Aberto - 2001) e O quarto das horas, além de contos publicados em periódicos e sites literários. Reside em João Pessoa.

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XXCIV - Da relação dos verboputos com os coroalhos

1 - Se for constatada a tentativa de se comprar votos de fantochistes, por um candidato a bucelonte, com perdulites ou plistos, este deverá ter as caringolas quebradas para serem usadas em pendentes usados pelos fantochistes que aceitarem o suborno.

2 - Se um bucelonte em exercício se apropriar indevidamente de coroalhos obtidos de recursos públicos, deverá ter o imperígeo extirpado e posto a secar ao sol para alimentar os herobontes.

3 - Se um sepultáceo foi flagrado recebendo coroalhos oriundos de corrupção deverá ter as manipuletas arrancadas.

4 - Se tais coroalhos forem encontrados escondidos dentro das meriolas do sepultáceo, este deverá ter também o pisoteiro direito cortado.

5 - Se os coroalhos forem encontrados dentro da culatrina do sepultáceo, este deverá ter o pístil arrancado e introduzido em seu próprio retrocúlito após ser empedrestido com lâminas de aço.

6 - Se qualquer categoria de verboputo, seja bucelonte, sepultáceo, preposulcro, canivante ou bisco, utilizar coroalhos públicos para financiar festas particulares, deverá ter o corpo cortatuado com o nome de todos os convidados.

7 - Se coroalhos públicos forem usados para a compra de celumóveis, deverá ser o verboputo colocado deitado numa carapilha plana e pisoteirado por cinquenta hipotofantes até que de seu corpo não se reconheça nenhuma forma.

8 - Se um verboputo tentar obter vantagens pessoais utilizando-se de seu cargo, se lhe deverá amarrar a píngula ao pístil com um fio de aço de se pescar cabralhões.

9 - Se um bisco acumular capistrofes de caringolas oriundos de apropriação indevida e se justificar dizendo que ganhou na caloteria, se lhe deverá enfiar as capistrofes pela gorguela abaixo até que as caringolas comecem a sair pelo retrocúlito.

10 - Se for comprovada a ligação de verboputos com o tráfico de asparogas, estas deverão lhe ser introduzidas pela gorguela, até que não entrem mais, e então deverão ser queimadas juntas, as asparogas e o verboputo, em praça pública, até que todo o lixo esteja incinerado.

João Pessoa, 6 de março de 2010

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Norma Alves (Cartum + Conto)

NORMA ALVES nasceu em Recife-PE, em 1950, filha de comerciantes, Alzira de Oliveira Ferreira e João Venceslau Ferreira. No ano de 2009, falece sua mãe, foi quando Norma interessou-se pela Literatura. Hoje faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Ela é psicóloga e contista. Trabalhou muitos anos no Liceu Paraibano e atualmente na coordenação do Instituto Rio Branco, uma escola de 40 Anos de tradição. Sim, ela nasceu num dia de festa e vive até hoje em festa!

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LAÇO   DE   FITA

Ela era uma cachorrinha linda! Era branquinha, e usava na coleira um laço de fita. Nós a chamávamos de Peluda, porque tinha tanto pelo, que só dava pra ver os olhos. Quando corria parecia uma bola de neve! Era uma verdadeira dama de raça pura. Todos os domingos ,ela ia visitar o nosso cachorro Bob. Ele, um tremendo vira-lata! O encontro dos dois emocionava a todos da casa.

Certa vez, a faxineira disse: “Parece que ela é casada e pula a cerca com Bob”. Será isso possível? Até cachorro é corneado?! Meu filho indignado respondeu: “Não, não é! Peluda é direita! E ouve-se um AU AU   de Bob, como se concordasse. 

Era uma situação incrível a relação dos dois. Viviam em eterna lua de mel. Assim que ela chegava, ele a queria ali mesmo; mas ela, sempre muito refinada, não deixava que ele se aproximasse demais; tinha que ser entre as quatro paredes do quarto, ou melhor, do canil. De fora, ouviam-se apenas os gemidos e latidos em todos os tons. E na hora da comida, ela pegava o prato e o arrastava com o focinho para o ninho de amor. Que romântico!

Num certo domingo, o encontro foi quebrado. Peluda faltou. Foi aquele desespero de Bob. Ficou ali deitado naquele chão, cuspido e lambido, esperando a amada. E uivava tanto de saudade, que resolvi apelar pra cachorra da vizinha. Que nada! Ele era muito fiel. Fiquei até com inveja. Queria um marido assim!

O tempo foi passando... Meses... E nada de ela voltar. Será que estava doente? Será que morrera? Ninguém sabia de nada. O jeito foi levar Bob ao veterinário. O diagnóstico foi: Depressão canina. E agora?! Lá íamos nós pagar terapia pra cachorro!

Quando tudo parecia perdido, os olhos de Bob brilharam de alegria. Ela voltou, mas estava bem diferente: tosquiada. Achamos que ela estivera o tempo todo em algum Pet Shop. A classe era a mesma, o mesmo laço de fita. Mas... Meu Deus! Demos-lhe o nome errado! O certo seria ... Peludo!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Joedson Adriano (Cartum + Conto)

Nesta seção especial CARTUM + CONTO, publicaremos um conto mais o cartum de um participante do Clube. Todos os cartuns foram feitos por Raonix.

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JOEDSON ADRIANO é paraibano de Bayeux, nascido em 1983, reside atualmente em João Pessoa. Policial Militar desde 2002, é poeta e publicou em edições independentes os livros ODE AOS DEUSES (2009) e ODE AOS HOMENS (2010).

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DIA D

Menino manuseava o venal vasilhame

sem haver o agite antes de usar

todo dia dia todo e só soia suar

nada saía da nata que nutre homens


até que além do curto epilético

aquilo que ele de ver não conhecia

mas desejava mais que a vinda do messias

de tanto ouvir falar ansiosamente cético:


argentina gema em clara incolor

da coxa canhota pegou em destra mão

entre o polegar e o indicador


ergueu o troféu e à separação

dos dedos desvairados resistiu o melhor

o viscoso viril que o virou em varão

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Luciana Silveira (Cartum + Conto)

Nesta seção especial CARTUM + CONTO, publicaremos um conto mais o cartum de um participante do Clube. Todos os cartuns foram feitos por Raonix.

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LUCIANA SILVEIRA nasceu em Santos, São Paulo, formou-se professora de yoga e dedica-se a essa profissão. É diretora sócio cultural da Associação de Yoga da Paraíba. Edita o jornal trimestral Ananda, pertencente a AYPB e o boletim informativo Folha da Cidade, onde divulga o yoga e atividades do bairro jardim cidade universitária, onde reside e dá aulas.

Gosta de escrever poesias, crônicas e contos, devido a esse gosto pela escrita e, morando em João Pessoa, Paraíba desde 2003, quando conheceu o Clube do Conto apaixonou-se pela idéia e desde então freqüenta as reuniões de sábado onde estiverem.

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HERANÇA

Havia muito que estudava as palavras, sua origem e derivações da língua pátria. Amava a diversidade da linguagem e a explorava em seu âmago, visitava cada ramificação das sílabas. Um erudito, estudioso das ramificações alfabéticas e fonética.

A biblioteca era seu local preferido. Maria, a bibliotecária já o conhecia e tinha sempre a mão um livro que o levava a aprofundar as pesquisas.

- Ainda vou publicar os artigos, ele dizia a ela.

Ela sorria e entregava o livro que tinha em mãos, contribuindo para as pesquisas.

O ultimo livro era sobre os fenícios, fascinante tema sobre a origem do alfabeto. Um giro e lá estavam as contribuições dos gregos, pensadores, matemáticos, físicos. Uma vastidão sem fim de pesquisas, quiçá ele encontraria a origem das palavras e o inicio de uma raiz que daria significado à várias palavras. Era um pouco disperso é verdade, lia e relia diversas vezes o mesmo capitulo, as vezes não prestava atenção ao que lia porque viajava demais nas palavras e nos sons que elas originavam. Sons e símbolos que se unem, se completam e locupletam nossos vocábulos. Assim como pré e re, que junto à visão, formam a previsão e a revisão. Sua mente era um poço de imaginar, transformar e abstrair imagens e sons.

Escrevia compulsivamente. Sempre desejou estar à margem de um grande projeto, seu anseio era poder ser útil ao mundo fútil e tirar da inutilidade várias palavras nascidas no berço das civilizações, para isso estudava.

Tão cansado estava que nem percebeu quando adormeceu sobre a mesa da biblioteca. Em seu sonho encontrou-se com grandes pensadores da história, recebeu lições de Pitágoras, Aristóteles e outros tantos. Ao acordar tinha em mente um recado desses antepassados, havia consolidado o livro e sua mente se abriu para a semente plantada que estava germinando.

A herança é de todos para todos, cada um deixou um legado. Herdar da língua a sabedoria que vem de mim, todo o conhecimento que deixo pra voce, voce herda. Me herda!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Betomenezes (Cartum + Conto)

Nesta seção especial CARTUM + CONTO, publicaremos um conto mais o cartum de um participante do Clube. Todos os cartuns foram feitos por Raonix.

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Sou Roberto, em homenagem ao autor de Detalhes. Menezes é do meu avô. Me chamam de Beto, mas gosto de ser chamado de Betomenezes; ou Roberto Menezes (nunca Beto Menezes). Tenho dois livros publicados: Pirilampos cegos (2007) e O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (2010). Sou formado em Física, sou poeira da poeira das estrelas, portanto; portanto de passagem, mas sem a passagem comprada, ainda. Faço parte do Clube do Conto e, vez ou outra, quando não me faço de surdo, escuto vozes.

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LEGIÃO DE ALMAS VAZIAS

– Vão saindo de três em três! – gritou o pastor.

A mulher se estrebuchava no chão.

– Não me deixem – murmurava a mulher – não me deixe só de novo!

– Vão saindo de três, ordeno, Legião!

– Zé Pilinta quer sair, mas ela não deixa! – rangeu a mulher com voz demoníaca.

– Tranca rua, também. Ela me prende pelo pé!

– Também quero sair, mas ela me segura pelo pau – outra entidade anônima gemeu dentro dela querendo sair.

– Não vou deixar vocês saírem, não vou! Com vocês, minha alma tem banquete todo dia. Tem samba de roda, canjerê até amanhecer.

– Está amarrada mulher – o coitado do pastor não sabia o que fazer.

– Nos libertem! Nos libertem!!!

– Com vocês me sinto viva!!! – gritou a mulher – não deixo!

Os fiéis da Igreja Universal nunca tinha visto aquilo.

– Sangue de Cristo – um obreiro olhou pro céu.

Atônita, a maioria apenas calou. Uma mulher, que estava lá nas últimas filas, saiu correndo, pulando bancos e cadeiras, e gritando desesperada:

– Eu também quero eles dentro de mim, eu também sou filha de Deus!

Vendo isso, as outras mulheres, tomaram coragem e fizeram o mesmo.

Infeliz legião de demônios. Eram poucos para tanta alma vazia.