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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Dois de fevereiro de dois mil e treze


Ata referente ao dia 2 de fevereiro de 2013.

Sábado passado, 2 de fev, tivemos reunião, estiveram presentes Joedson, Laudelino, Sérgio, Gilmar, Suenia, Regina, Roberto Menezes, Roberto Denser, André e Manuela (faltou mais alguém?). A produção de contos no início do ano começa meio devagar, apenas Roberto Menezes e Joedson levaram textos, os demais só escutaram. Os presentes ainda tiveram o prazer de ver um fato inusitado, uma demonstração de apertos de mão proferidos com muita força. Próximo sábado, dia 9, não tem reunião, tem carnaval. Sendo assim, o próximo encontro é no dia 16 de fev, o tema é carnaval, trec-trec, mela-mela, frevo etc.

Quem tiver algum adendo pra essa mini-ata, pode comentar.

Laudelino

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Laudelino Menezes (Cartum + Conto)

LAUDELINO MENEZES é contoclubista, recifense e pessoense, torcedor do Sport e professor de matemática. Vez ou outra faz um conto e pensa em escrever um romance. Já publicou uns quadrinhos na revista Subversos, participou da antologia do Clube do Conto e produziu um zine extinto chamado Histórias pra boi dormir.

***

DÚVIDA

Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - Acabou a gasolina do carro, dona? - Não, vou tocar fogo na casa mesmo. - Tem seguro? - Tenho sim. - E se descobrem que o incêndio foi intencional? - Tanto faz, isso é apenas um conto escrito por Laudelino Menezes intitulado Dúvida. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? Onde irei morar com a casa reduzida a cinzas? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão e acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou em dúvida. Levantou-se, aproveitou o fogo do isqueiro e acendeu um cigarro, fumou perambulando pelo quarto. Lembrou-se do dia em que o marido a traiu. Tudo bem, estavam quites, também o traiu. Mas, sentiu na pele como era ser traída e não gostou, em breve o divorcio chegaria, os advogados estavam preparando os papeis. Terminou o cigarro, não queria queimar outro, pensava em queimar a casa, um ritual de passagem para apagar todos os momentos conjugais. Pegou uma garrafa vazia que estava no chão e, a pé, dirigiu-se ao posto de gasolina mais próximo. - Moço, completa! - De novo, dona? - De novo o quê? - Já é a segunda vez que você vem aqui. - Não é não, é a primeira. - Você vai me dizer que vai tocar fogo no casa e que isso é apenas um conto. - Pois é, tava pensando nisso mesmo. - E se não for um conto, for a vida real, como é que fica? Um silêncio interrompeu o diálogo. Pegou os dois litros de gasolina, pagou o frentista e voltou para casa murmurando consigo mesma. - E se o frentista estiver certo e isto não for um conto? E se eu estiver ficando doida, repetindo meus atos inumeras vezes sem perceber? Que se dane, vou apenas tocar fogo no colchão. Chegando no quarto, despejou os dois litros de gasolina no colchão, jogou a garrafa no chão, acendeu o isqueiro. De joelhos, na iminência de atear fogo no colchão, viu a imagem do marido no lado oposto da cama com um sorriso estampado no rosto. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, quando olhou novamente para o lado oposto da cama, nada, foi aí que ficou pensativa.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Autores da Semana (7)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número sete: Laudelino Menezes.

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Laudelino Menezes é natural de Recife e começou a morar na cidade de João Pessoa em 1995, desde então fica viajando entre estas duas capitais. Passou a escrever contos depois que frequentou uma oficina literária do Fenart, em 2005, local onde teve contato com integrantes do Clube do Conto da Paraíba. Bastou este primeiro contato para se tornar um frequentador assiduo das reuniões do Clube.

Até o momento, Laudelino tem poucos contos publicados, alguns aqui no Blog, outros nas Atas do Clube do Conto (mais especificamente nas edições #4 e #5), um na antologia do Clube e outro na revista ponto #1.

Além de escrever alguns contos, Laudelino estuda e ensina matemática e tem a honra de ser o "blogueiro oficial" do Clube.

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EM BRANCO

Ficou surpreso, não conseguia escrever nada e assim fez, nada escreveu. Foi uma produção longa, mais de 1698 laudas de puro branco, uma verdadeira história épica, o autor destemido estava orgulhoso. Apresentou os manuscritos e surpreendeu a todos os editores, até os que não conheciam a obra queriam publicá-la a todo custo. Optou pelo editor que lhe ofereceu n regalias, n maior do que 1.

Para promover o seu tão esperado livro, preparou um longo discurso, interpretou, decorou e dramatizou cada palavra e cada gesto, iria encantar a todos da platéia. Chegou o tão esperado dia, nunca havia visto público tão grande em toda sua vida. O apresentador o anunciou, subiu no palco e recebeu a salva de palmas. Preparou-se, tossiu um pouco e principiou o seu longo silêncio, não proferiu uma palavra durante horas e horas, ficou imóvel, suando frio. Todos o olhavam com olhos de lince, atenciosos ao silêncio. Disse um Boa noite inaudível e a platéia o aplaudiu, todos estavam felizes por terem escutado um discurso tão belo.

Já nas livrarias o livro vendeu aos milhares e várias e várias pessoas lotavam o dia, à tarde e a noite de autógrafos. O empurra-empurra era tão grande que o autor não conseguia assinar livro algum. Por outro lado, os fãs ficavam contentes em ter aquela assinatura em branco.

Um belo dia, uma ex-namorada sua, que não via há muito tempo, bateu em sua porta. Ela estava fula da vida, não entendia como o autor pudera escrever tanto da intimidade vivida por eles no livro. Foi difícil, mas conseguiu convencê-la de que não havia tanto do antigo relacionamento deles escrito nas páginas em branco do romance.

Depois de todo esse burburinho, encontro de ex-amores, autógrafos e lançamentos, o livro continua sendo procurado, porém o que é mais esperado é o segundo livro do audacioso escritor. Vagando por sua modesta casa, encontramo-lo debruçado sobre sua escrivaninha, aguardando as idéias surgirem, por enquanto, só existe uma pilha de papéis em branco.

sábado, 3 de maio de 2008

A complicação

um conto em seis parágrafos

Ontem, acordei desnorteado hoje, acho que tudo começou ontem a ontem quando um amigo disse pra mim que amanhã chegaria aqui hoje. Agora nem sei se o aqui é acolá, ou o acolá é lá. Pra mim, hoje foi dia 36, mas nenhum mês tem o dia 36 nem no calendário lá da cozinha, por sinal, marquei este dia em um espaço em branco na página de um mês aleatório.

Resolvi freqüentar um psicanalista, ele disse que o problema é que sou contraditório só porque falei que cumprimento as pessoas com despedidas e quando saio pela porta da frente dou de cara com o quintal. Ele deve estar certo, pois percebeu que nas primeiras consultas eu ficava calado, mas antes e depois, quando estava na sala de espera, falava pelos cotovelos. Ainda bem que ele possui um raciocínio rápido, minha consulta agora é no horário em que fico na sala de espera, esperando a consulta, e minha espera é durante a consulta. Eu e ele ficamos escorados na porta, para que um escute bem o outro.

O psicanalista me receitou bastante açúcar para adocicar a vida. O problema é que já não sei onde encontrar o açúcar, pois, durante uma época, escrevi açúcar no pote de sal e sal no pote de açúcar, não lembro se para enganar as formigas ou de quando queria provar um doce salgado. Quando pensei ter encontrado o açúcar, queimei a garganta, era pimenta, foi do tempo em que queria uma pimenta adocicada.

Joguei todos os meus potes de sal, açúcar e pimenta no lixo. Fui para o mercado comprar açúcar. Me perdi no meio do caminho, tornei-me um desaparecido. Sei que sou desaparecido, várias vezes encontrei cartazes com meu rosto estampado e letras garrafais dizendo DESAPARECIDO.

Não lembro se foi eu quem colou esses cartazes ou foi minha família, sempre quis saber como é a vida de um desaparecido. Dificilmente foi minha família, eles devem estar feliz com meu sumiço, principalmente os meus parentes mais velhos, pois dizem que cresci, mudei bastante e não sou mais o mesmo de outrora...

Talvez seja isso, eu não sou mais eu, mudei para outra pessoa. Sim, é isso, hoje é quinta-feira, pra cumprimentar se diz oi, despede-se falando tchau, o quintal é atrás, a rua é na frente... Tchau, psicanalista. Não sou desaparecido, eu me achei.

Laudelino Menezes

(Texto apresentado na reunião do Clube do Conto da Paraiba, sábado, dia 3/5/2008)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A noite

Cheguei em casa tarde da noite, estava exausto, tinha passado horas e horas debatendo vários assuntos polêmicos, queria ter resolvido todos os problemas do mundo, fui impedido pelo dono do bar que resolveu fechar mais cedo e nos enxotou. Pelo menos, já estava no aconchego do lar. Fui direto ao banheiro, no caminho, fui me livrando dos apetrechos, celular, chave do carro, carteira, moedas, espalhei-os pelos mais diferentes móveis da casa, iria ser uma dificuldade reencontrá-los no dia seguinte.

Dei uma mijada e depois entrei debaixo do chuveiro. Que belo banho, ensaboei todo o corpo, passei shampoo no cabelo para tirar o cheiro de cigarro. Não fumava, mas meus amigos fumavam muito, inclusive as mulheres, diziam ficar mais charmosas com um cigarro em punho.

Enxagüei-me e enxuguei-me. Vesti o pijama, estendi a toalha no box e fui para cama. Deitei e arrumei as cobertas. Mal fechei os olhos e despertei com um barulho de porta fechando, BLAM! Pensei, deve ser na casa do vizinho. Entretanto, escutei a assassina chegando de mansinho. Fingi que dormia, quando ela se aproximou, surpreendi-a abanando os braços. Acendi o abajur para fazer contato visual. Fiquei cara a cara com a danada, concentrei-me e certeiramente agarrei-a entre meus dedos. Apertei a mão com toda a força. Verifiquei se a tinha esmagado, porém ela voou da como se nada tivesse lhe acontecido.

Fui atacado no pescoço, nas mãos e no rosto. Dei tapas em mim mesmo e no ar, não conseguia acertá-la de jeito nenhum. Até que, num átimo de loucura, puxei a manga do pijama e ofereci o braço para que ela sugasse todo o meu sangue. Demorou a se aproximar, mas não resistiu. Deu um vôo rasante e cravou sua boca no meu braço. Instantaneamente, VLÁS!, dei-lhe um tapa certeiro, o sangue espalhou por todo o quarto. Examinei-a e constatei, era uma Aedes aegypti.

Joguei seus restos mortais no chão, limpei-me com cuspe, apaguei o abajur, fechei os olhos e dormi, mas não dormi tranqüilo, sonhei que era julgado num tribunal de muriçocas. Culpado! Assassino! Culpado! Culpado!
Laudelino Menezes
(Texto apresentado na reunião do Clube do Conto da Paraiba, sábado, dia 8/9/2007 - Ata)