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domingo, 29 de setembro de 2013

Ah, tá!

Ata referente ao dia 28 de Setembro de 2013.

Voltei ao Clube, havia um tempo que eu não dava as caras. A reunião foi curta, quase não acontecia. Eu e André Ricardo, antes de a gente chegar lá, conversamos sobre nossa história no Clube. Ano que vem o grupo fará dez anos, e é inevitável esses momentos de lembranças. Após uma tigela de açaí e outra de cupuaçu, fomos nos encontrar, lá no café do primeiro andar, com Regina Behar e sua amiga, a senhorita Susan Bello. Como, com dois ou três reunidos, teremos sempre reunião, subimos ao nosso esconderijo, nos fundos silenciosos do Shopping Sul. Ciganos sempre, no momento estamos aqui. As moças sentaram em um banco roubado, eu e André, que ainda achamos que podemos espichar, permanecemos em pé. Norma chegou e completou o último vazio do banco. Dezoito horas e cinco minutos, pontualmente, nossa reunião começou. Puxei uma crônica trasvestida de conto sobre tanajura, velha porém nova nessa roda de leitura. André leu uma crônica sobre o café, um punhado de pó, de grãos que se pode cheirar, lamber e mascar. Norma apresentou Nero numa apresentação bem apresentada. Então, olha que legal!, três contos e cinco participantes, alto índice per capita; e a gente pensava que nem ia ter reunião. Três temas propostos pra semana que vem: cuspe, autoritarismo, canção. Ganhou canção, apesar de protesto da oposição. Conspiramos sobre os próximos passos para o Clube do Conto dominar o mundo, as decisões ficaram para a semana que vem, ou pra outra, ou pra outra. Não quero entregar assim, de bandeja, os segredos, mas protelar talvez seja o segredo de nossa tão longa existência. Semana que vem também discutiremos se é isso mesmo. 

Roberto Menezes

Algumas fotos ilustrando a reunião.

André e Roberto

Regina, Norma e Susan

domingo, 16 de setembro de 2012

Ata do dia 15/09/2012


Ata referente ao dia 15 de setembro de 2012.

A ata está sendo lida neste exato momento.

A reunião já estava no meio quando orelhas entraram em pauta. As orelhas no caso pertenciam ao livro do nosso grupo que ainda será lançado. Queriam que na capa viesse a foto de todos, "como são muitos, não cabem nas orelhas", muitos brincos, acessórios que nem cacique suporta.

Antes disso, no começo, houve um primeiro encontro de membros perdidos no café, do primeiro andar. Pensou-se não haver número de participantes necessário para a reunião, nem contos. Ledo engano. Começou a aparecer gente. Os de sempre, e uns outros que chegaram pela primeira vez. Como é de lei, faltaram cadeiras e organização. Uma porta de vidro tentou impedir a passagem, sorte dela não estar trancada, entramos.

Lá, acolhidos e encolhidos, em pé, em cadeiras, encostados em escadas, foram debulhados os contos. Suênia, Beto e Gabryelle nessa ordem leram. Comentários brotaram. Traço, hífen, hímen, barra, travessão. Na contramão do tempo, foram chegando mais gente. E a contento, na justa medida, todos ficaram contentes com a reunião.

O tema NUVEM foi dissolvendo e virando o novo, o espetacular, o magnífico. tema RELEITURA.

Betomenezes

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Betomenezes (Cartum + Conto)

Nesta seção especial CARTUM + CONTO, publicaremos um conto mais o cartum de um participante do Clube. Todos os cartuns foram feitos por Raonix.

* * *

Sou Roberto, em homenagem ao autor de Detalhes. Menezes é do meu avô. Me chamam de Beto, mas gosto de ser chamado de Betomenezes; ou Roberto Menezes (nunca Beto Menezes). Tenho dois livros publicados: Pirilampos cegos (2007) e O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (2010). Sou formado em Física, sou poeira da poeira das estrelas, portanto; portanto de passagem, mas sem a passagem comprada, ainda. Faço parte do Clube do Conto e, vez ou outra, quando não me faço de surdo, escuto vozes.

***


LEGIÃO DE ALMAS VAZIAS

– Vão saindo de três em três! – gritou o pastor.

A mulher se estrebuchava no chão.

– Não me deixem – murmurava a mulher – não me deixe só de novo!

– Vão saindo de três, ordeno, Legião!

– Zé Pilinta quer sair, mas ela não deixa! – rangeu a mulher com voz demoníaca.

– Tranca rua, também. Ela me prende pelo pé!

– Também quero sair, mas ela me segura pelo pau – outra entidade anônima gemeu dentro dela querendo sair.

– Não vou deixar vocês saírem, não vou! Com vocês, minha alma tem banquete todo dia. Tem samba de roda, canjerê até amanhecer.

– Está amarrada mulher – o coitado do pastor não sabia o que fazer.

– Nos libertem! Nos libertem!!!

– Com vocês me sinto viva!!! – gritou a mulher – não deixo!

Os fiéis da Igreja Universal nunca tinha visto aquilo.

– Sangue de Cristo – um obreiro olhou pro céu.

Atônita, a maioria apenas calou. Uma mulher, que estava lá nas últimas filas, saiu correndo, pulando bancos e cadeiras, e gritando desesperada:

– Eu também quero eles dentro de mim, eu também sou filha de Deus!

Vendo isso, as outras mulheres, tomaram coragem e fizeram o mesmo.

Infeliz legião de demônios. Eram poucos para tanta alma vazia.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conto coletivo (em dupla)

Feliz 2011 a todos!!!

Depois de um longo e tenebroso inverno, atualizamos o nosso blogue com um conto coletivo, escrito por Raoni e Betomenezes. Divirtam-se!

* * *
Onde está Mingau?
Raonix/betomenezes
As brigas por causa de Mingau eram uma coisa corriqueira. Quem conhecia o casal, desde antes do enlace, já imaginava que Mingau seria um problema. Pobre Mingau. Talvez nada tivesse a ver com as desavenças. Talvez o problema estivesse na cabeça de seus donos: Magali e Marcelo.
Magali insistiu "Ele vem com a gente", e Marcelo, louco apaixonado, aceitou a condição, como quem olha o barco passar. E dessa maneira passaram-se dois anos, dois longos anos de Mingau a flutuar sobre o rio de ódio de Marcelo. A presença do bichano já se tornara insuportável.
"O que você fez com ele!?", gritou Magali possessa. No seu olhar não havia piedade e em sua mente não cabia outra explicação. Já não parecia estar falando com seu marido Marcelo, mas sim com o possível assassino do Mingau. Marcelo ficava na defensiva: "Deve ter achado uma namorada!".
Uma semana se passou sem notícias do gato. Cartazes com fotos de Mingau povoaram os postes das redondezas. Programas de rádio, televisão, jornais, todos gritavam em uníssono: "Onde está Mingau?!"
Quando as esperanças já se tornavam um farelo de polvilho sobre a mesa, um e-mail chegou. O título já dizia tudo. “Estamos com seu gato, espele novas instluções”. Em anexo, uma foto do gato deitado, repousando sobre um jornal do dia. E na ponta da fotografia, um espécie de cano que parecia ser... era de uma arma.
Magali desesperada deu um grito, “Meu Deus, Marcelo”. Marcelo não sabia o que falar. “Só pode ser o Cebolinha, ele nunca superou a nossa relação”. “Ele não chegaria a este ponto”, Marcelo tentou manter a calma, mesmo sabendo que o bandido se denunciara no seu modo de escrever, que era sua assinatura.
As drogas levaram Cebolinha a um caminho que desembocara na sua separação com Magali, situação essa que ele não superou, ainda mais depois do trágico suicídio de Mônica, sua melhor amiga. Cebolinha sabia o quanto Mingau era importante na vida de Magali, todas as lembranças que ele tinha (desde a infância) associavam a moça ao gato. Ter o gato perto dele, talvez fosse o último ato desesperado do desgarrado.
Foram as mais longas cinco horas que o casal esperou. Cebolinha, com requintes de crueldade, esperou que a madrugada desembocasse para só então mandar a segunda mensagem: “O gato vive. Por enquanto”. Só. “O que você quer, filho da puta?”, respondeu Magali na mesma hora. E em instantes, veio a exigência: “Você ”. E logo depois, a segunda mensagem com mais uma exigência: “Venha com aquele vestidinho amalelo, sem nada por baixo”.
Marcelo não acreditava naquilo. Magali boquiaberta, precisou de dez minutos para aceitar, “Marcelo, Cebolinha é louco, sempre teve alucinações com um homem perseguindo ele. A mãe dele o levou ao psiquiatra várias vezes. Ele tem um caso raro de distúrbio mental. Imagina uma pessoa que é calva desde menino. Ele é capaz de tudo”. “O que você quer dizer com isso, Magali? Vou ligar pra polícia agora”. “Não, eu conheço bem ele...”. Na hora que ela falava, chegou o terceiro email do meliante: “E então, Magali, estou espelando com Mingau e meia melancia. Nem pense em ligar plo 190. Ou mando outra foto com seu gatinho engasgado de caloços, ou cheio de fulos, entendeu?”.
Magali foi ao guarda-roupa e tirou do lá do fundo o vestido que sempre lhe caíra bem, antes que a obesidade a atacasse. Ainda coube, com aperto. “O que você está fazendo?”, vociferou o marido. “Eu vou Marcelo... Tenho coisas mal resolvidas para acertar”.
Depois que ela bateu a porta, Marcelo chorou meio que conformado.
Em vinte minutos Magali chegou no apartamento de Cebolinha. Entrou então sem, bater. Garrafas de uísque vazias estavam espalhadas pela sala. Capas de DVDs de filmes pornôs sobre a mesa. Ela foi ao quarto. Lá, Cebolinha cheirava alguma droga. Seus dois últimos fios de cabelos escondiam a careca. Seu olhar era profundo e louco.
“Onde está o Mingau?”, ela interrogou ao mesmo tempo que procurava.
“Com o Bidu e Floquinho”, ele ironizou. Os olhos dela arregalaram-se. Bidu, o cachorro de Franjinha, foi atropelado por um caminhão e seus pedaços se espalharam pela rua. Floquinho, o do próprio Cebolinha, comera veneno que dizem até hoje ter sido posto por Cascão, numa das brigas com o ex-amigo durante a adolescência.
“O quê?” O grito de Magali chegou perto de rachar os tímpanos do rapaz.
“Você gosta de felino a/à Palmegiana?”
“Não, você não seria capaz de fazer isso!”.
“Com um molho de tomate e um macalão que é uma delícia”.
“Cebolinha, você não...”
“Fiz o que aquele melda do teu malido nunca vai fazer por você.”.
“Meu mingau...”, ela chorou e sentou na cama ao lado do drogado.
“Confesse, meu amor, que ela o seu sonho!”.
“Seu merda, por que a/à Parmegiana? Depois desse tempo todo, você não sabe que eu prefiro a/à Cubana”.
E cearam quando amanhecia: Magali com os olhos na carne do gato, Cebolinha com o olhar perdido no vestidinho amalelo.

sábado, 29 de agosto de 2009

Autores da Semana (5)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número cinco: Roberto Menezes.

***

Nascido em Recife-PE e residente em Santa Rita-PB desde a infância, Roberto Menezes escreve desde os dezesseis anos. Doutor em Física por profissão e escritor por malcriação...

Tem uma grande quantidade de contos escritos. Seu romance de estreia, Pirilampos Cegos, tem personagens fortes e marcantes, e mostra fielmente o estilo do escritor.

O conto a seguir foi lido na reunião do dia 8 de agosto de 2009. A brincadeira era levar contos e não assiná-los para que os demais participantes descobrissem quem era o autor. Roberto conseguiu disfarçar o conto e fez alguns participantes pensarem que o texto era de Laudelino.

***

UMA IDÉIA

Acordei com uma idéia fixa no pé.

Mas não sabia o que fazer com ela, pelo simples motivo de não saber do que tratava. Era uma idéia irritante, apertava as unhas encravadas. Não pude calçar os sapatos. Tive que ir ao trabalho de sandálias e inventar para o patrão um calo estourado.

Corri no computador e fiz a pesquisa: idéia no pé. Nunca ouviram falar. No máximo, falavam de idéia no coração, no sentido figurado. A idéia que eu tinha no pé era real, estava ali. Como ninguém no mundo havia tido? Achei tão natural, do tipo que vez ou outra alguém pode sentir durante a vida.

Olhei ao redor e fiquei com vergonha de compartilhar o problema com os colegas de trabalho. Procurei um profissional. Fui ao analista. Tinha ido lá no dia anterior.

Ele logo falou:

“Você disse que era urgência. O que era aconteceu com você? Tudo bem com você?”.

“Hoje não amanheci bem, doutor. Acordei com uma idéia no meu pé!”.

“Idéia no pé?

“É. Acordei com ela”.

“No esquerdo ou no direito?”.

“No direito”.

“Entendo... Acho que tou percebendo mesmo uma coisa entre os dois pés”.

“O senhor percebeu???”.

“Siiiiim. A sua idéia até me deu outra idéia!”.

“Uma idéia na sua cabeça, doutor?”.

“Sim senhor, e essa surgiu bem aqui entre as têmporas”.

“Inda bem... uma idéia normal”.

“É, uma idéia fajuta. Mas vamos a ela. Deite aqui no chão.”.

“Assim?”.

“Não, coloque as pernas em cima do divã. Assim, bem pra cima.”.

“Isso é relaxante.”.

“É relaxante mesmo, ajuda a reduzir a pressão arterial nos membros inferiores. Mas não vamos nos dispersar. E a idéia, ainda tá no pé?”.

“Acho que tá”.

“Acha? Você tem que saber onde tá. Ela já pode tá descendo. Olha o joelho. Ela já passou pelo joelho?”.

“Doutor, agora que você falou, posso até tá impressionado. Tou sentindo algo se mexer”.

“É ela, é ela”.

“É!!! Ela tá descendo, passou agora pela batata da perna”.

“Não tou vendo. Vai dizendo, vai dizendo”.

“Tá escorregando, aqui na virilha, que frio na barriga!”.

“Ela tá indo rápido”.

“É, tá.”.

“Conta. Conta. Tou pra ter um enfarto”.

“Passou pelo peito. Aqui, aqui na garganta”.

“Vai chegar à cabeça, vai chegar à cabeça”.

Até achei que ele ia enfartar.

E a idéia chegou à minha cabeça. Olhei para o analista. E ansioso, ele implorava para eu dizer qual era a idéia:

“Fale, meu filho, fale. Qual é a idéia?”.

“Não era idéia. Acho que era uma bolha de ar. Sei lá.”, menti para ele.

Decepcionado, me cobrou a fortuna de rotina.

“Até semana que vem”.

“Até”.

Saí de lá com a idéia fixa na cabeça: dispensar meu analista. No entanto, voltei atrás. Ele conseguiu curar o meu problema.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Agorafobia (ou há-de-vir-fobia)

Com todo universo infindo lá fora que não cabe na mente, em nenhuma religiosa inspiração, prefiro a vida, essa gaiola de ouro. Sob luzes cartesianas, com asas atrofiadas pela opressão do catre, no alvor dos dias, imagino. Prefiro ficar, mesmo sabendo que os portões que me prendem são de amarras podres. Mesmo sabendo que ninguém pode me impedir de voar. Prefiro ficar. Talvez não saiba voltar. Talvez não queira voltar. Na dúvida pelo que não vivi, fora dessa limitada vida, covarde escolho ficar.

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Betomenezes