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quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte 4

Clube do Conto

A oficina no porão

Sérgio Castro Pinto

Desde há muito existe uma espécie de discriminação com o Regionalismo. E eu não tenho dúvidas: é mais uma estratégia de parte da crítica preconceituosa do sudeste para desqualificar um movimento que foi quem melhor respondeu aos anseios de se responder ao Brasil a partir do Brasil. Quem, depois de 1930, superou, em termos de qualidade, a ficção brasileira de 1930? Guimarães Rosa? Mas, o próprio Rosa se abeberou, e muito, do regionalismo. No entanto, para muitos, o Regionalismo acabou. Acabou coisa nenhuma! Nenhum assunto se esgota, a não ser que não se tenha engenho e arte para se inovar, através do estilo, avesso a clichês, jargões e chavões.. E chego ao que eu quero: Ronaldo Monte. É regionalista? É. Mas de um regionalismo da alma que, ao fim e ao cabo, termina em se transformar universal.

Existe uma história de Jung segundo a qual o homem tem medo do porão. E realmente tem, pois, afinal de contas, o porão é subterrâneo, é a ausência do sol, é um mundo impregnado de sombras, de objetos imprestáveis, heteróclitos, desencontrados, faltos de tudo e de todos.

Daí, ainda segundo Jung, o homem preferir o sótão em função do seu medo, pois o sótão é o consciente, o mundo claro, solar, onde tudo é bem visível, previsível e definido.E tanto é assim que o próprio Jung arremata: "A consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade esse homem prudente não ousou aventurar-se ao porão".

Em outras palavras, no sótão - reduto do consciente - o homem não só racionaliza os seus medos como cria mecanismos de defesa para melhor combater os seus fantasmas, fobias, neuroses e angústias, ao passo que no porão - reduto do inconsciente - a "racionalização é menos rápida e menos clara".

Ronaldo Monte montou a sua oficina de escrever no porão. E, como bom e ousado psicanalista que é, escreveu a partir daí o excelente "Memória do fogo" (Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro, 2006), cujos personagens, "Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste Brasileiro - conforme bem o diz Rosa Amanda Strausz -, perderam-se também do fio que conduz à vida. Em volta do fogo, partilham apenas da cachaça, água que queima". Os estranhíssimos viventes de Ronaldo são sombras que só ardem e "brilham" ao pé das fogueiras acesas. E embora de carne e osso, parecem fantasmas saídos de um livro-porão: este "Memória do fogo", um dos grandes lançamentos do ano de 2006.

Jornal O Norte, 5 de outubro de 2006.

domingo, 3 de setembro de 2006

Autoras do Clube do Conto: Sônia Van Dijck; Mercedes Cavalcanti, Marília Arnaud

Clube do Conto

Memórias Rendilhadas

Sônia Van Dijck, Mercedes Cavalcante e Marília Arnaud, três autoras que participam do Clube do Conto, estão incluídas na bela coletânea Memórias rendilhadas: vozes femininas (João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2006) organizada pelas professoras Neide MEDEIROS e Yolanda LIMEIRA, da UFPB.
O belo texto de Sônia Van Dijk pode ser lido em seu site.

Saiba mais sobre o livro:

Escritoras lembram as histórias que as encantaram na infância

Jornal da Paraíba - ASTIER BASÍLIO

Uma coletânea no mínimo diferente. Ao invés de se reunir textos de ficção ou ensaios, Memórias Rendilhadas: Vozes Femininas (Editora da UFPB, 106 páginas), organizado pelas escritoras Yolanda Limeira e Neide Medeiros, apresenta artigos que relatam histórias de leituras feitas na infância. (...)
A idéia de fazer este livro partiu da professora Neide Medeiros. Para realizar a empreitada, quinze escritoras paraibanas foram convocadas para relatar experiências vividas. Nas veredas das memórias das autoras, paisagens e lugares, principalmente, nas cidades de João Pessoa e Campina Grande são revividos.

Participam da coletânea as escritoras Adylla Rabello, Cristina Guedes, Emília Guerra, Lourdinha Luna, Marília Arnaud, Mercedes Cavalcanti, Mila Cerqueira, Neide Medeiros, Petra Ramalho, Pié Farias, Socorro Loureiro, Sônia van Dijck, Terezinha Fialho, Vitória Lima e Yó Limeira.

Nas evocações das autoras são lembrados nomes como José Lins do Rêgo, Balzac, Cervantes, Victor Hugo, entre vários outros que acenderam a chama da imaginação no primeiro contato com o rico universo da literatura. Os relatos trazem este tom memorialista e pessoal. Vejamos o texto “Memória e leitura”, da escritora Marília Carneiro Arnaud: “Cresci vendo meu pai ler livros, jornais e revistas, diariamente, e bastava observá-lo naquela atividade para saber o quanto o fazia com prazer. Talvez tenha sido este um dos motivos que me conduziram ao mundo mágico da leitura. Até oito, nove anos, fui apresentada a Monteiro Lobato, e dos seus livros, o primeiro que conheci foi As Reinações de Narizinho”.
A obra traz ilustrações dos livros citados na abertura dos capítulos.

ORGANIZADORAS

Neide Medeiros é professora aposentada da UFPB e doutora em Estudos Literários. Dedicada à literatura Infantil, tem vários trabalhos na área publicados em jornais e revistas do País. É representante e membro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil aqui na Paraíba. Publicou também os livros: A Hora e a Vez da Literatura Infantil e Guriatã: Uma Viagem Mítica ao País-Paraíso.

Yolanda Limeira é professora e animadora cultural, fundadora da revista Verdes Anos. Licenciada em História pela Universidade Federal da Paraíba, atuou em vários órgãos de cultura do Estado (como Iphaep, DGC, Funesc), tendo participado da organização de vários eventos culturais a exemplo dos Festivais de Arte de Areia. Faz parte do quadro de sócios da Associação Paraibana de Imprensa e tem publicado poemas e algumas crônicas em jornais e revistas da Paraíba e de outros Estados. Participou da Coletânea de Poetas Paraibanos (Ed. Universitária da UFPB -1999).

sábado, 2 de setembro de 2006

Autores do Clube do Conto: Raoni Xavier de Lucena

Clube do Conto

Premiado no concurso da Editora Idéia


Em maio deste ano, a Idéia Editora , de João Pessoa, realizou o seu Iº Concurso de Contos.

O jovem (muito jovem mesmo!) participante do Clube do Conto da Paraíba, Raoni Xavier de Lucena, foi um dos premiados, o que enche de orgulho seus sompanheiros do Cluibe!

Agora, após selecionar os 10 melhores contos inscritos, através de uma comissão formada 3 escritores renomados (Marília Arnaud, Hildeberto Barbosa Filho e Mercedes Cavalcanti), Magno Nicolau convida para o lançamento da coletânea CONTOS PREMIADOS, que será no dia 28 de setembro, no Parahyba Café, a partir das 19h.

(Parahyba Café - Av. Juarez Távora - início da Epitácio Pessoa - Centro Cultural Saelpa)

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (3)

Clube do Conto
Publicado no Correio das Artes, João Pessoa, 28/07/2006
(CAPA)

Memória literária

Por Patrícia Braz

Ele diz que da memória só bebem os justos. Àqueles que merecem guardar a memória depois da morte. Sobre seus personagens presentes na obra "Memória do Fogo" (Objetiva, 128 páginas), o escritor Ronaldo Monte diz que eles morrem sem memória. A memória que os habita é a do fogo, a do deus que os recolhe finalmente em seu seio. E explica: "O conceito psicanalítico de memória com o qual eu trabalho não coincide exatamente com o de lembrança ou recordação. Nem toda memória torna-se lembrança. Nem toda lembrança é confiável como factível", arremata. Para o autor que estréia no gênero romance, a memória do fogo é o que resta daquilo que não foi perdido e se descortina na história dos personagens entremeada pelo fogo, cada qual ao seu modo, compondo um manto tal qual uma colcha de patchwork, cujos retalhos medidos são trechos de vidas.Ronaldo Monte se debruça sobre o tema da memória chamuscada pelo fogo das vidas dos personagens que inspiraram o escritor ainda quando perseguia o doutorado, desde os anos de 1990 e 1991, em Campinas. De lá para cá tem sido um exercício constante de lapidação. Segundo o autor o texto estava pronto há cinco anos. "Mas como eu não queria mais uma "edição do autor" e não aparecia oportunidade de furar o mercado nacional, o texto foi sendo revisado, comentado por gente de confiança. Acho que esse tempo de espera fez bem ao livro. Ele amadureceu", avaliou."Memória do Fogo" (R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou "O vôo da Guará Vermelha", de Maria Valéria Rezende, e "Voláteis", de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, "buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo". Mas está longe de ser enquadrada como literatura regional, algo há algum tempo atribuído ao estilo de Ronaldo. E o autor explica: "acho que esta questão já está superada. De uma forma ou de outra, todos somos regionalistas. O escritor que conta as tramas de um quarteirão da avenida Paulista ou de uma favela do complexo do Alemão está, a seu modo, sendo regionalista. No final das contas, falamos todos de uma região virtual que nos habita e nos constrói. Ela é composta dos lugares em que vivemos, das pessoas que roçamos, dos livros que lemos, dos quadros que vimos, dos filmes ou novelas que vemos. Esta região nos acompanha e exige que falemos dela". Na opinião de Maria Valéria Rezende, a obra a que se remonta é digna de ler uma e outras vezes seguidas, sob a doce pena de descobrir uma nova viagem a cada processo. Sobre o possível aspecto regionalista do texto ela afirma: "vida humana é vida humana em qualquer lugar, e dar conta dela é o papel da literatura, em qualquer lugar"

Ao ser questionado sobre qual o ponto de partida para criar e construir um trabalho literário a exemplo deste último recentemente apresentado ao público (Memória do Fogo foi lançado em João Pessoa na última sexta-feira, 21), Ronaldo, tomado pelo ímpeto de soltar uma despojada risada que se dissipa pelos quatro cantos do terraço azul da casa onde mora, no Bairro dos Estados, na pacata João Pessoa, diz, entre risos: "não sei". Assim, curtinho e simples, deixando a impressão de que entre concepção e tradução em palavras até formar uma obra de reconhecimento literário autenticado por doutores em Letras a exemplo de Neroaldo Pontes e João Batista de Brito, há uma distância que não se traduz em tempo nem em forma.As idéias, segundo Monte, surgem como algo que não é buscado. Sua inspiração, conta Ronaldo Monte, resulta do encontro de uma impressão do cotidiano com uma exigência de expressão de alguma coisa interna que a princípio lhe é desconhecida. Diz não ser do tipo de escritor que se cerca de silêncio e distância para expelir sua genialidade. E acrescenta: "Claro que não escrevo com gente bisbilhotando às minhas costas nem fazendo zoada no meu pé de ouvido. Mas mostro logo tudo que faço ao pessoal da casa. Minha mulher é meu primeiro censor, mas nem sempre a escuto. A experiência com o Clube do Conto de João Pessoa é muito boa para uma avaliação permanente da minha produção. Toda semana tem um tema para o dever de casa. Nos fins de tarde dos sábados nos reunimos e lemos a produção da semana. Se o autor autorizar, faz-se a crítica do texto, evitando-se o clima persecutório. Devo ao Clube do Conto o aprimoramento do meu texto, além da publicação do "Memória do Fogo". Sobre o ato em si de traduzir a história reservada na mente em palavras com sentido e ordem, Ronaldo diz que nesse ponto cabe ao escritor, "dominar o impulso. Domesticar a sua exigência". E como que frente a um segundo personagem que responde pela alcunha de "Idéia" apresenta-se a ela como se a tal sujeita fosse seu oponente e concorda: "tudo bem. Eu escrevo", para em seguida ordenar:" Mas há as exigências. As minhas exigências". À esta altura, caro leitor, permitam a esta repórter tentar descrever a cena que se fazia compor durante o exercício jornalístico de entrevistar uma sumidade como Ronaldo. Enquanto seguia explicando a dinâmica da escrita, acrescentando o diálogo mantido com a tal da "Idéia", Ronaldo se desprende do momento em que está contextualizado, ou seja, concedendo uma entrevista exclusiva para este suplemento literário, perde-se em segundos e assume ares de um autêntico ator em pleno exercício de interpretação dramática. Um só instante, diriam agentes do fazer teatral, em que o personagem toma conta do ser. Revelado o momento de interação entre escritor e idéia, Monte ressalta que, como tal, tomado pelo desejo de dominar o elemento matéria-prima da história, é necessário colocar-se como escritor de fato e atuar, tirar os excessos, conter as palavras pomposas e dar espaço para a emoção do leitor.E confessa que não escreve para si nem acredita tampouco que alguém o faça. Também diz que não escreve para qualquer um. "Acho que assim estaria fazendo bobagem. Escrevo para certas pessoas". Sobre a obra Memória do Fogo, Sergio Rodrigues diz: "não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Ronaldo tem voz própria e um admirável domínio da linguagem". O rápido flagrante do transe voltará a marcar essa entrevista que em tom descontraído e despretensioso navegou pela narrativa apresentada pelo escritor sobre sua vida. Além de psicanalista, Ronaldo foi também repórter foca do Caderno de Esportes, do Jornal do Comércio, em Recife, e ainda publicitário. È também, e especialmente, nesta fase em que atua como criador de textos publicitários que o psicanalista diz ter exercitado sobremaneira a construção da linguagem. Lembra que nessa época trabalhou com Ítalo Bianchi, profundo conhecedor do latim, da língua portuguesa. E, numa "espécie" de competição com Bianchi na busca constante do texto perfeito acabou por esmerar a construção textual.O ofício da escrita veio, portanto, antes do outro ofício que carrega, o de psicanalista. O escritor conta que já na infância se aventurava pelo sabor de escrever poemas. Mais tarde vira redator de propaganda, em Recife. "Afiei meu texto a soldo. Aos poucos fui tentando o texto curto, uma crônica aqui, um conto ali, alguns textos inclassificáveis que teimavam em continuar poemas. Foi a psicanálise que cafetinou minha escritura. Meus textos acadêmicos são palatáveis, o que não quer dizer que sejam de fácil digestão". Ronaldo considera natural que as pessoas, ao saber que também é psicanalista, passem a procurar e até, achar em seu texto referências ao Édipo, à castração, etc. E confessa: "Mas até onde eu saiba, não procuro deliberadamente tratar de temas psicanalíticos. Mas como nada do que é humano é estranho à psicanálise, é natural que os personagens vivam certos temas visados pelo saber psicanalítico. Só não posso negar que minha forma específica de escuta, marcada por uma neutralidade benevolente, influencia o modo como permito que os personagens se expressem, como consigo sintonizar com seus sentimentos, numa espécie de identificação que aprendi a usar no consultório".

O argumento central da história apresenta um grupo de cachaceiros, totalmente vividos pela embriaguez e que se junta em um determinado lugar para enfrentar um destino comum. Segundo o autor, o que ele fez foi acompanhar a trajetória de cada um desses homens desde a meninice até o momento do encontro. "Estabeleci que cada um deles teria uma profissão ou uma experiência marcante ligada ao fogo. Mas logo no primeiro capítulo apareceu uma mulher com uma filha no colo. Darque, Joana Darque, é o seu nome. Ela vai cruzar com cada um destes homens ao longo da narrativa. Aproveitei dela para contar evolução do uso do fogo nas cozinhas. Ela só se casará com um homem que lhe der um fogão a gás", conta o autor. De acordo com Ronaldo a história conta a trajetória de pessoas que são lançadas no mundo em completo desamparo e não conseguem construir suas vidas. São devorados pelo fogo do álcool que toma conta de suas memórias. Antes, lhes empresta uma memória construída em torno de quase cinzas. No final, o fogo é como um deus benevolente que consome seus filhos a partir do dentro de seus corpos. Como uma graça por haverem se embebido da água ardente. "Podem até pensar que fui cruel com meus personagens. Mas eu fui misericordioso", pondera. No romance, o elemento fogo aparece revestido nas suas mais diversas manifestações, e, de alguma forma, costura os personagens que desfilam pelo livro de Ronaldo. Ele ressalta que há uma relação entre o fogo que consome e a tal água ardente. Eles incorporam como divindade. E a memória que lhes vem a partir dessa ingestão é a memória dessa divindade. O elemento central é falar da transcendência do íntimo de modo pífio, já que não se tem muito por onde transcender. O autor revela que o livro traz muitas referências que levam o leitor a entremear-se entre as palavras e que tem mais cheiro do que cor. "O cheiro das cozinhas, por exemplo, é fortemente emergido", lembra. No texto é visível a permanência da estrutura do conto em cada um dos capítulos. Mas eles só fazem sentido quando vistos em conjunto. No tempo de construção do livro, Ronaldo Monte conta que logo após o que pensou ser uma obra literária concluída expoente do gênero romance - pelo menos era o que ele pensava já ter feito -, colocou a versão (a primeira) nas mãos de dois amigos sobre os quais resguarda grande admiração e sobretudo, respeito, Neroaldo Pontes e João Batista. Segundo o escritor eles foram unânimes em afirmar que o texto era muito bom, mas que não era um romance. "Voltei para casa e tentei criar um eixo que costurasse mais firmemente os capítulos. Mesmo assim, eles guardam ainda uma certa independência", e brinca: "espero um crítico generoso que chame isto de pós-modernismo".A oportunidade de lançar o romance pela Objetiva, na opinião de Ronaldo demonstra que não é necessário estar dentro do "eixo" São Paulo/Rio para fazer parte dele. E diz: "Nem todo escritor do falado 'eixo' está dentro dele. O 'eixo' é o mercado", define. Ronaldo mora em João Pessoa e não vê isso como obstáculo para inserir-se no mercado. Nascido em 1947, em Maceió (AL), é psicanalista radicado na Capital paraibana onde além de escrever também atua como psicanalista e clinica no oitão de sua casa. Confessa ser um leitor que não dispensa o que lhe cai as mãos. "Não sou um leitor sistemático. Minha família não tinha tradição de leitura e tive que me virar sozinho. Mas lá em casa tinha uma coleção do Tesouro da Juventude que foi a minha salvação. Comecei com José Lins do Rego de quem tomei emprestado o imaginário rural". À esta altura Ronaldo se declara um nordestino urbano do litoral, um caranguejo, como disse Gilberto Freire", conta. E acrescenta: depois vieram Machado de Assis, Graciliano, Guimarães Rosa e quase todo o Mário de Andrade e um poço do Oswald. Os poetas também pontuaram o seu acervo de leituras literárias. Entre eles "Bandeira, Vinicius, Drumond, Murilo Mendes, João Cabral, Mário Quintana, enfim, o serviço militar obrigatório e passagem também obrigatória por Fernando Pessoa, Lorca e Octavio Paz. E ainda um pouco de Baudelaire, para não esquecer os franceses". Entre as mulheres Monte destacou. Clarisse Lispector e Adélia Prado. E na confluência da poesia com a psicanálise tem Hölderlin. Dos pernambucanos, além do texto de Gilberto Freire, relata que recebeu forte influência de Hermilo Borba Filho, passou um tempo querendo ser o João Ubaldo. E lê, mais ou menos por livre associação Thomas Mann, Günter Grass, Antonio Callado. "Um texto que muito me espantou foi o de Saramago. Li o "Memorial do Convento" numa edição da Difel, muito antes dele se tornar famoso. Hoje, estou enjoado da sua forma. Recentemente, ando encantado pela narrativa de Ítalo Calvino. Gostaria de ter a delicadeza dele". E para arrematar, comentário de Chico César, músico paraibano, sobre obra e autor de Memória do Fogo: "estou lendo e ouvindo a música que vem das palavras de Ronaldo que conheço de longa data e ainda me espanta".
Saiba MaisRonaldo Monte é autor dos livros: "Pelo Cantos dos Olhos", "Memória Curta", "Tecelagem Noturna", "Pequeno Caos" além de ter publicado em parceria com Pedro Osmar o poema intitulado "W.T.C", (de World Trade Center).

(Correio das Artes, 29 e 30 de julho de 2006)

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Autores do Clube do Conto: Dôra Limeira

Clube do Conto

Os restos de Dôra

Ronaldo Monte – Poeta e psicanalista

Dôra Limeira é barra pesada. A tinta de sua escrita é feita metade de adrenalina, metade dos excrementos do corpo e da alma dos humanos.

Dôra escreveu dois livros de contos. O primeiro é Arquitetura de um abandono, de 2003. O outro é Preces e orgasmos dos desvalidos, de 2005. Desaconselho os dois às almas leves e afeitas a desmaios. Os contos de Dôra doem como uma espremida de carnegão.

A escrita de Dôra se faz com o que sobra, o que resta, o que excede dos corpos. Mas os donos desses corpos, eles mesmos, restam, sobram, excedem num mundo de lugares e cartas marcadas. E estes seres nos incomodam de dentro da escrita de Dôra, da mesma forma que nos causa incômodo vê-los nas ruas. Mas se nas ruas podemos virar os olhos a estas exceções humanas, não podemos evitá-las nos textos de Dôra.

O trabalho de Dôra se assemelha ao de uma irmã de caridade que vai ao encontro dos sofredores nos lugares sórdidos do mundo e os acolhe nas páginas dos seus livros. E ao nos mostrar o sofrimento em toda sua crueza, Dôra nos convoca a ser co-responsáveis por este sofrimento. Coisa não muito difícil de alcançar, pois, no fundo, aqueles lá somos nós, sem tirar nem pôr. Apenas relutamos em nos reconhecer. Encontro com Dôra quase todo sábado, no Clube do Conto. Para brigar e beber chocolate quente. Com o tempo que sobra, lemos e ouvimos contos nossos e alheios. A cada novo conto de Dôra que conheço, mais me aproximo de sua humanidade. Mais me aproximo de minha própria humanidade. Quanto mais ela apura o seu estilo, mais me sinto instigado a escrever melhor a cada dia. Ninguém sai de perto de Dôra Limeira do mesmo jeito que chegou. Eu já disse e repito: esta senhora é barra pesada.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Autores do Clube do Conto: Antonio Mariano (1)

Clube do Conto

Moção de protesto contra o contista Antonio Mariano

Imensa asa sobre o dia
Antônio Mariano
Coleçao Tamarindo, Dinâmica Ed. João Pessoa, 2006.


Nós, abaixo assinados, protestamos contra os maus-tratos infligidos pelo contista Antônio Mariano ao seu personagem Jailson em seu novo livro Imensa Asa sobre o dia.
Concordamos que tem muita criatura que sofre nas mãos do seu criador. Mas poucas sofrem tanto quanto Jailson nas mãos de Antônio Mariano. Em noventa e cinco páginas o pobre leva uma surra, confundido com um ladrão que ele mesmo perseguia; é tratado como uma criança invisível pelos pais; é demitido por justa causa sem justa causa; morre de uma porrada do próprio pai; morre envenenado pela tia que ele mesmo tentou um dia envenenar mas se arrependeu; morre outra vez picado por uma viúva negra que o tirou para dançar; fica com fome enquanto os outros comem – por via oral – sua namorada Maria Dulce; leva um sopapo entre o nariz e o beiço com o caroço de uma fruta atirado por uma menina que ele queria bem; é internado na Colônia Juliano Moreira por descobrir-se poeta; é responsável pelo desaparecimento de Alice, sua irmã, num poço que aparece de repente no meio do caminho. Por fim, Jailson morre definitivamente nas mãos de um amarelo, quando “o sol apontava no nascente espantando a sombra da noite, imensa asa sobre o dia.”

Imensa asa sobre o dia, da Coleção Tamarindo, é o título do livro de contos em que Antônio Mariano maltrata o pobre do Jailson. E faz isto com tamanha competência sádica que leva o leitor ao deleite, cooptado pelas astúcias do estilo e da imaginação do autor. Quanto mais sofre Jailson, mais goza quem lê Mariano. Sabemos que assim é a vida, pelo menos a vida que imita a arte, mas não precisava exagerar.
Além do mais, o autor nos engana ao se fazer de contista. O que esperar de um poeta que se lança aos contos? Que recheie seus contos de poesia, como um confeiteiro rechearia um pão; um sacoleiro, a sacola; um traficante, o fundo falso da mala. Um inspetor de alfândega competente não deixaria passar como simples prosa os contos de Imensa asa sobre o dia, cuidadosamente editado por Juca Pontes para a Editora Dinâmica. O próprio título do livro já denuncia a presença dos grãos finos da poesia no granulado da prosa. E quanto mais Antônio Mariano domina os dois ofícios, mais sofre o pobre do Jailson em suas mãos.

Por tudo isto, senhoras e senhores, eu vos convoco a assinar comigo esta moção de protesto, para que não se alastre entre a nossa juventude os pendores sádicos revestidos de uma prosa cavilosa e cativante, na esteira deste mau exemplo que nos dá o poeta e contista Antonio Mariano.

João Pessoa, 19 de agosto de 2006

Ronaldo Monte.

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (2)

Clube do Conto


Publicado em RASCUNHO, o jornal de literartura do Brasil - Curitiba, 28 de agosto de 2006
http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=25&lista=0&subsecao=0&ordem=956


O PÓ E AS BRASAS

por Suênio Campos de Lucena • São Paulo – SP

No novo romance de Ronaldo Monte, a memória é tratada como alegoria contra o apagamento das coisas


Memória do fogo Ronaldo Monte Objetiva 128 págs.

A Objetiva está lançando mais um volume da série Fora dos eixos. Após publicar os livros do gaúcho Paulo Scott (Voláteis) e "descobrir" a excelente escritora Ma. Valéria Rezende (O vôo da guará vermelha), freira que surpreende pela qualidade de sua prosa, a editora carioca edita agora o livro Memória do fogo, de Ronaldo Monte, 59, alagoano radicado na cidade de João Pessoa, Paraíba. Professor de psicologia, psicanalista, poeta e colunista do jornal Correio da Paraíba, Monte já publicou os títulos Pelo canto dos olhos (1983), Memória curta (1996), Tecelagem noturna (2000), Pequeno caos (2003) e World Trade Center (2004).

A idéia da série Fora dos eixos é bastante válida (tanto que nos perguntamos por que só agora estaria acontecendo) e merece todos os louros, sobretudo, por colocar no mercado brasileiro vozes que dificilmente ultrapassariam as cercanias de suas regiões, uma vez que, lamentavelmente, quase não há editoras com boa distribuição fora do eixo Rio - São Paulo. O que não quer dizer que os autores que residem nesse (tal) eixo gozem da glória e que seus livros se transformem instantaneamente em best-sellers. Ainda há uma infinidade de nomes que não chegaram às escolas, à academia, às indicações de vestibulares, adaptações, traduções, etc. Assim, o mais interessante é pensarmos sempre em como pulverizar mais e mais a produção de bens literários, fazendo-os chegar a um contingente cada vez maior de pessoas. Felizmente já existem muitos exemplos. Alguns autores como Rinaldo de Fernandes (que vem revelando muita gente de talento como na recente coletânea Contos cruéis, Geração Editorial), Ruy Espinheira Filho e tantos outros, além de periódicos como Et cetera (Curitiba), Continente multicultural (Recife), Correio das artes (João Pessoa) e o próprio Rascunho vêm fazendo isso, todos com alcance nacional. Isso para não falarmos na febre do momento, que são os blogs e sites literários.

Em Memória do fogo temos, entre outros, um canavieiro, um lanceiro de maracatu, um padeiro, jovem vidente, um órfão e um mecânico, distribuídos em sete episódios (Cara preta, Caboclo de lança, Boca de forno, Massapê, Meia luz, Darque e Cinzas), personagens imersos numa espécie de névoa, de sonho, isso num universo claustrofóbico, de almas e contextos áridos e que nos remete vagamente à armadura de Vidas secas, o célebre romance de seu conterrâneo Graciliano Ramos. Não que Memória do fogo tenha forte conteúdo regionalista (a despeito de se passar numa região que lembra o sertão, a caatinga, um canavial), mas porque é possível ler suas histórias independentemente, apesar de serem interligadas. Aos poucos, o leitor perceberá que são blocos intermediários que se montam, mosaicos que ganham muito se lidos em conjunto. Cada "episódio" conta um pouco da vida de cada personagem. Aos poucos, eles se aproximam. E se encaixam.

O entrechoque entre a urbis e o rural, a idéia de desenvolvimento em paralelo ao sujo, à pobreza, à miséria e ao pitoresco são elementos que convivem fortemente numa linguagem que busca certa eufonia musical ("Menino feio me proteja, que mesmo eu não sendo negro - que eu não sei que cor eu tenho - preciso de proteção nessa hora tão escura. Menino feio, que eu não sei quem é você, me livre dessa agonia, que eu não queria ficar aqui", pág. 34), uma poeticidade para além do simples desenrolar de fatos. Esforços do autor em alcançar uma linguagem tersa, pois não há diluição nem fragmentação e, embora em alguns momentos o texto possa parecer rebuscado, isso não acontece porque o livro está amparado em linguagem e expressões populares, reforçando o conhecimento do autor nas guiadas, chapeados (carregadores), jiraus e demais vocábulos típicos dos sujeitos, objetos e ambientes retratados. Pode-se dizer que o falar popular está representado com intensa força dramática. Talvez por isso, o livro não tenha gordura nem excessos. Ao contrário, Memória do fogo vai do pungente gracilianismo à densidade e dicção cabralinas.

Leitura da alma

A noção de memória é colocada em prática por Ronaldo Monte no sentido de herança, verdade. No capítulo inicial/primeira história, por exemplo, enquanto aguarda um trem, um menino começa a "descobrir" alguns segredos dos outros. Ele lê/vê a alma das pessoas, o que elas realmente sentem, muito além das idéias de passado e futuro elencados pelos ciganos e sensitivos. Uma leitura da alma e de aura, da verdade escondida do outro.

Memória aqui é alegoria que luta contra o apagamento das coisas, a morte, o esquecimento. Em Teogonia, de Hesíodo, Jaa Torrano relata que a memória é a quinta união de Zeus. Depois de suas uniões com Mêtis, Thémis, Eurynóme e Deméter, Zeus se junta à Memória. Na lista de suas esposas, Memória está entre Deméter e Lete. Alétheia, explica Adélia Bezerra de Meneses, "é o não esquecimento: alétheia (a, ou alfa privativo + letheia, de lethe = esquecimento)". Para os gregos, memória é uma deusa, Mnemosyne, que, em sua união com Zeus, gerou nove musas em nove noites passadas. Elas lembram aos homens a recordação dos heróis e seus feitos e, sobretudo, inspiram os poetas.

Em Mito e pensamento entre os gregos, Jean-Pierre Vernant destaca a noção de "força infernal" do esquecimento, que surge num contexto carregado de negatividade, destruição, desterro, abismo. A idéia de esquecimento associada à morte ocorre a partir da união entre Mnemosyne (memória) e Lethe (esquecimento):

Léthe, Esquecimento, associada a Mnemosyne e formando com ela um par de forças religiosas complementares. Antes de penetrar na boca do inferno, o consultante, já submetido aos ritos purificatórios, era conduzido para perto das duas fontes chamadas Léthe e Mnemosyne. Ao beber na primeira, ele esquecia tudo da sua vida humana e, semelhante a um morto, entrava no domínio da Noite. Pela água da segunda, ele devia guardar a memória de tudo o que havia visto e ouvido no outro mundo... Como a mãe das Musas, ela tem a função de "revelar o que foi e o que será". Mas, associada a Léthe, ela se reveste do aspecto de uma força infernal, agindo no limiar do além-túmulo.

Ressaltando que a evocação do passado não faz reviver o que não existe mais, ou seja, a simples rememoração, a volta ao tempo não faz "esquecer" nem apaga a realidade, Vernant lança (e procura responder) uma questão que, aliás, persegue boa parte dos estudos sobre memória: "Qual é então a função da memória? Não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol".

Vendo o esquecimento como cativeiro ("o cativeiro e o esquecimento de Matyendranâth constituem um motivo pan-indiano. Os dois infortúnios exprimem, plasticamente, a queda do espírito... no circuito das existências e, conseqüentemente, a perda de consciência de Si"), Mircea Eliade afirma no ensaio Mitologia da memória e do esquecimento (no livro Aspectos do mito) que
na medida em que é "esquecido", o "passado" é identificado com a morte; ressaltando que a literatura indiana utiliza imagens de prisão, ignorância e esquecimento para representar a condição humana; e, ao contrário, imagens de liberdade, memória e recordação para exprimir a abolição (ou a transcendência) da condição humana, a liberdade, a libertação.

E é exatamente isso o que buscam os personagens de Ronaldo Monte. Todos trazem essa crença de não esquecer a memória do fogo para não serem vencidos, não se rebaixar, apesar das agruras de suas existências.

O fogo é a marca principal que os faz agir - é a memória de nossos antepassados diante da aparente surpresa da combustão emanada pelo bater de pedras ("o que tem para lembrar um homem que entregou sua memória ao fogo? A memória do fogo. O que o fogo deixou de si nos buracos da memória que ele mesmo roeu", pág. 15). Eles passam essa força (que nunca seca), a fim de enfrentar os medos primitivos da morte, do frio, da fome e da solidão que acompanham o homem: "Não, eu não vou morrer!". É o que parecem nos dizer seus personagens. Eles carregam essa memória de luta, refletindo a condição humana de pobres seres desamparados e fadados à destruição.

No lamento do aspirante a caboclo de lança ("Queria ser caboco de lança e o feitiço da cachaça e da mulher não deixou. Queria amar uma mulher e seu Zé não deixou. Agora estou aqui, debaixo desse sol, cercado por essas canas, indo não sei pra onde, com um camarada que sabe quem eu sou, mas não me diz", pág. 44), culpado e só, não há derrota, mas constatação - é preciso fazer algo urgentemente; é preciso lutar para não se apagar. Assim também é o lamento da protagonista de Darque: "Só me caso quando puder ter um fogão a gás" (pág. 96). Tudo conflui para esta memória de dor, de exploração, de tristezas e misérias abismais, mas ainda assim não irreversíveis.

Romance quase todo composto por imagens, o elo maior que une os fios e teias dessa gente sofrida, para além da memória, é esta lembrança do fogo, lembrança que não se apaga, não se esquece, esta memória do fogo, mesmo que no fim (vale destacar que não há começo nem fim nessa(s) história(s) de Ronaldo Monte) restem apenas o pó, as brasas, ou melhor, as Cinzas, como nos lembra o autor em seu último texto.

Sobre o autor: Ronaldo Mote é alagoano radicado na cidade de João Pessoa (PB). É professor de psicologia, psicanalista, poeta e colunista do jornal Correio da Paraíba. Autor dos livros Pelo canto dos olhos, Memória curta, Tecelagem noturna, Pequeno caos e World Trade Center.

Autores do Clube do Conto : Ronaldo Monte (1)

Clube do Conto
em no mínimo TODO PROSA 24/06/06
http://todoprosa.nominimo.com.br/?p=81

Por Sérgio Rodrigues

Primeira mão

Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’

“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.
O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.
Até que uma hora só ficaram cinco pessoas. Cinco não, seis, pois eram quatro homens e uma mulher com uma menina no colo, os olhos das duas meio desencontrados, quase zarolhos, fazendo sentir uma nesga de pena. Os outros, reparando bem, não eram homens feitos. Metidos no trabalho da palha da cana ou no calor da moenda da usina, seus corpos atarracados pareciam de homens, pois ninguém ali crescia muito, era difícil distinguir pelo tamanho um homem de um menino. Mas a cara deles era de menino. Cara de quem ainda espera pelo tempo. E estavam ali para saber o que o tempo havia de lhes dar. O menino olhou de um em um e foi sentindo um aperto no peito. Era difícil dizer o que via. Porque a bem dizer não via. Umas manchas se mexiam no espaço pouco iluminado entre ele e cada um, como a pedir me diga. E ele não sabia dizer. Olhou mais, olhou muito e aos poucos as manchas foram tomando sentido. Mas as palavras, as palavras que as manchas pediam, não se formavam no peito do menino, não subiam pela sua garganta, não ferviam em sua boca como as que cuspiu na cara dos primeiros adivinhados. Olhou primeiro para a mulher com a menina e não viu nada separando as duas. Eram uma coisa só, como se tivessem um só destino. Só no fim, sentia, alguma coisa ia quebrar em muitos pedaços o que agora ele via inteiro. No primeiro menino viu uma lança enfeitada de fitas espetando seu peito. Depois viu um com a cara vermelha de frente para o fogo. Numa cara de menino com dois olhos viu a cara de um homem com um olho só. Num outro, viu um corpo coberto de uma lama cinzenta, parecendo a armadura de São Jorge rachada pelo sol. Não sabia direito o que estava vendo. Baixou a cabeça e disse: não estou vendo nada não, minha gente, vão embora. A verdade da gente ainda está pra se fazer. Disse assim, da gente, sem saber direito por que se botava no meio deles. Nunca tinha visto aquelas pessoas, mas era como se fossem seus irmãos.

Publicado por Sérgio Rodrigues - 24/06/06 12:01 AM

Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (1)

Clube do Conto

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Primeira mão

Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’

“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.
O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.
Até que uma hora só ficaram cinco pessoas. Cinco não, seis, pois eram quatro homens e uma mulher com uma menina no colo, os olhos das duas meio desencontrados, quase zarolhos, fazendo sentir uma nesga de pena. Os outros, reparando bem, não eram homens feitos. Metidos no trabalho da palha da cana ou no calor da moenda da usina, seus corpos atarracados pareciam de homens, pois ninguém ali crescia muito, era difícil distinguir pelo tamanho um homem de um menino. Mas a cara deles era de menino. Cara de quem ainda espera pelo tempo. E estavam ali para saber o que o tempo havia de lhes dar. O menino olhou de um em um e foi sentindo um aperto no peito. Era difícil dizer o que via. Porque a bem dizer não via. Umas manchas se mexiam no espaço pouco iluminado entre ele e cada um, como a pedir me diga. E ele não sabia dizer. Olhou mais, olhou muito e aos poucos as manchas foram tomando sentido. Mas as palavras, as palavras que as manchas pediam, não se formavam no peito do menino, não subiam pela sua garganta, não ferviam em sua boca como as que cuspiu na cara dos primeiros adivinhados. Olhou primeiro para a mulher com a menina e não viu nada separando as duas. Eram uma coisa só, como se tivessem um só destino. Só no fim, sentia, alguma coisa ia quebrar em muitos pedaços o que agora ele via inteiro. No primeiro menino viu uma lança enfeitada de fitas espetando seu peito. Depois viu um com a cara vermelha de frente para o fogo. Numa cara de menino com dois olhos viu a cara de um homem com um olho só. Num outro, viu um corpo coberto de uma lama cinzenta, parecendo a armadura de São Jorge rachada pelo sol. Não sabia direito o que estava vendo. Baixou a cabeça e disse: não estou vendo nada não, minha gente, vão embora. A verdade da gente ainda está pra se fazer. Disse assim, da gente, sem saber direito por que se botava no meio deles. Nunca tinha visto aquelas pessoas, mas era como se fossem seus irmãos.

Publicado por Sérgio Rodrigues - 24/06/06 12:01 AM

Autores do Clube do Conto: Geraldo Maciel

Clube do Conto
Estranhas criaturas em cenário desacertado

Cecília Zokner [22/07/2006]
www.parana-online.com.br

A primeira edição, com data de 1995 e pela Editora Rio Fundo, do Rio de Janeiro, esgotou e, dois anos depois, Aquelas criaturas tão estranhas foi, novamente, publicado pela Editora Manufatura de João Pessoa: pequeno volume de agradável manuseio, que reúne vinte e um contos de Geraldo Maciel, engenheiro civil que se revela um exímio contador de histórias. Sua galeria de personagens é instigante. Nela, embora alguns se abriguem, muito bem, sob o título do livro – o pai e seus dois filhos se refugiando num lugar inóspito, as três irmãs possuidoras de poderes misteriosos, Aldonário e suas mágicas deploráveis, Lezama, o bonequeiro que, embriagado, destruía os seus bonecos – outros não estão longe dos humanos que lhe serviram de modelo e, quer se queira ou não, ainda vicejam por esse país afora: Adãozinho que, na cidade, exercia “o férreo poder sobre várias cabeças de gado e gente”; o delegado que a enxaqueca fazia lembrar os “serviços” que fizera; o velho Pompeu que a vida inteira trabalhou fazendo estradas e se conforma com uma aposentadoria de “três tostões furados”; Agrípio que não conseguiu, pela miséria em que viveu, criar os filhos que tivera; o preso por ter matado mulher e filhos porque não podia, sequer, alimentá-los.
Obediência filial, cobiça, o drama da mulher, relações amorosas inusuais, autoridade arbitrária e desmedida, solidão, irreversível pobreza, ensejam relatos que testemunham a realidade do país ou ultrapassam as fronteiras do real para se aproximar do fantasioso de um moderno conto de fadas, para palmilhar caminhos delineados pelo sobrenatural. Universos que se recriam numa expressão que oscila entre o lirismo e a troça e se constrói com hábil e sutil manejo de um conhecedor de seu ofício.
Vozes anônimas como a da mulher do conto “Meus meninos” ou a do homem que “O que posso lhe contar?” que uma vida paupérrima leva à situações extremas. O sofrimento de quem deve – “desgraça silenciosa” – comerciar o seu corpo. E disso não apenas ter grande pejo como consciência de que é “surrupiado de uma outra vida” quase tão miserável quanto a sua, “esse dinheiro sebento e amarrotado” que recebe para não morrer de fome ainda que os bocados amarguem a boca e façam “marejar os olhos de lágrimas”.
Dirigida a uma senhora que o fora visitar na cadeia, a confidência iniciada com a pergunta que dá o título ao conto “o que posso lhe contar?” que encadeia as outras: “A senhora conhece o interior? Já viveu por lá? Sabe o que é uma seca?” Repostas que ele mesmo dá e que se referem a viver em chão alheio, em casa alheia, à injustiças, a trabalhar “de sol a sol”, “de inverno a verão” e comer pouco “para não ficar devendo ao patrão”. E, num crescendo, o testemunho de uma sobrevivência na miséria: a fome, o acirrado desespero de ser incapaz de supri-la, a louca decisão: “A mulher me olhou como quem já sabia o que eu ia fazer e tenho certeza que até pedindo para que eu fizesse logo”.
Contrapondo-se ao doloroso viver – martírio sem redenção – que tais vozes, perturbadoras e terríveis, afirmam existir, as seqüências que revelam situações tão descabidas que pareceriam uma invenção trocista não fossem as já conhecidas trapalhadas com que os governos subdesenvolvidos aquinhoam o seu povo: engenheiros do governo – “Pensavam que a terra era um pedaço de papel colorido e traçaram um risco preto de um ponto a outro” – a determinar, planejar, decidir tarefas e rumos, explicar muito, para fazer uma estrada que resulta em nada. Porque os “trechos se trespassaram com distância de léguas. Uma turma foi detida quando, já na Bahía, se preparava para demolir uma igreja que o imperativo da engenharia mandava demolir; uma outra turma desapareceu num túnel que ela mesma escavou num paredão da serra de Borborema. O grupo que abria caminho e piqueteava na vanguarda perdeu-se para sempre: ultrapassou os limites do mapa do engenheiro. Só foi encontrado o grupo que passou três anos trabalhando em círculos, atapetando de poeira os próprios rastros e dando acabamento naquele moto perpétuo. Os engenheiros também nunca mais apareceram”.

GERALDO MACIEL é membro do Clube do Conto da Paraíba.