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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Leitura de conto

Maria Valéria Rezende lê Um escritor de Geraldo Maciel (Barreto)


SOBRE O AUTOR DO CONTO

GERALDO MACIEL (BARRETO) paraibano, nascido em Nova Palmeira, em 1950. Foi professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba.

Seu primeiro livro de contos Aquelas ciaturas tão estranhas, foi lançado em 1995, pela Editora Rio Fundo, RJ, tendo já uma segunda edição pela Editora Manufatura.

Publicou um segundo livro de contos, Inventário de pequenas paixões, em 2000 e lançou em 2005 seu terceiro livro de contos O Concertista e a Concertina.

Publicou contos em revistas culturais e em Antologias nacionais, a exemplo da Contos Cruéis, pela Geração Editorial e Quartas Histórias, pela Editora Garamond. Seu romance Peccata Mundi ganhou o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008.

Faleceu em 31 de maio de 2009 deixando uma saudade imensa no Clube do Conto da Paraíba, do qual era um dos membros mais atuantes.


SOBRE A LEITORA
MARIA VALÉRIA REZENDE nasceu em Santos SP, em 1942, viveu lá até os 17 anos. Vive há mais de 30 anos na Paraíba, dedicando-se à educação popular. Passou boa parte da infância escavando a praia e o quintal, pra ver se achava o tesouro do pirata Cavendish que frequentava as praias lá de Santos. De vez em quando ainda dá uma cavada no quintal ou na praia... vai que o Cavendish passou incógnito aqui pela Paraíba e enterrou o tesouro no Cabo Branco pra despistar? Por gostar de lendas e levá-las a sério, acabou escrevendo e publicando livros de ficção pra gente de qualquer idade e, principalmente, apegando-se ao Clube do Conto, tribo nômade que vaga há quase sete anos por João Pessoa. Alguns dos seus livros foram finalistas de concursos, mas nunca receberam "o" prêmio, de modo que ainda tem muito que melhorar, se for capaz.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Autores da Semana (2)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta segunda edição: Maria Valéria Rezende.

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MARIA VALÉRIA REZENDE

Nasceu em Santos , em 1942 , andou pelo mundo e veio dar às costas de João Pessoa porque, enfim, achou outra terra como a sua: não tem centro e periferia, mas sim frente e verso. Daí, por causa do clima favorável, deu pra publicar ficção e poesia a partir de 2001. Tem a mania de livros, por isso apóia a Biblioteca Livro em Roda que carrega, conta e empresta livro para milhares de crianças. Publicou, entre vários outros, O vôo da guará vermelha, que bateu asas e partiu para Portugal, França e Espanha.

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CADA NOITE

Quando vovó me diz boa noite, fecha a porta e apaga a luz pelo lado de fora do quarto, encolho-me por debaixo das cobertas, buscando a proteção do escuro absoluto, deixando lá fora, na penumbra coada pelas telhas vãs e pelas frestas da janela, os fantasmas, os morcegos, os escorpiões, o papa-figo, o vampiro, a bruxa e tudo o mais que me assombra cada noite. Então, sem medo do mundo, adormeço até que o dia pleno me desperte. Assim é, no inverno.

Mas, no verão, a cada noite, tenho de escolher entre sufocar-me no calor sob as cobertas, ou tremer de medo diante daquele vulto escuro que nunca falta, que me apavora movendo-se para perto de mim e de novo se afastando, por horas, até que o desespero me leve ao extremo da coragem para saltar da cama, correr para a janela, quase roçando na horrível figura, e abri-la com um safanão para que entre um pouco mais de claridade e descobrir, mais uma vez, que o monstro é apenas a capa de gabardine escura e o velho chapéu de feltro de meu avô, dependurados num prego atrás da porta.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Naquele tempo


Maria Valéria Rezende

Ele era o alvo de todos os nossos olhares e devaneios. Não das esperanças, que não ousávamos. Tínhamos quinze anos. Ele, vinte e um. Muuuuuito mais velho que nós. Maior de idade, usava livremente uma suposta fortuna que herdou de um tio-padrinho. Era o único rapaz dessa idade que já tinha seu próprio carro e já fora esquiar nos Alpes. Incrível, naquele tempo. Isto era o de menos. Sim, tinha olhos verdes, uma covinha no queixo quadrado, era dourado de sol, campeão de tamboréu na praia e vice-campeão de tênis nas quadras. Aquelas pernas, aquele peito! E inteligentíssimo! Lia de tudo, olhava de cima, condescendente, para todos nós, o resto.
Era um gentleman culto e blasé. Estudava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ele fazia disso uma coisa assombrosa, caminhando com ademanes de quem portasse a capa preta de Coimbra. As capas pretas esfarrapadas que adorávamos e que periodicamente ocupavam, em revoadas, nossos sonhos adolescentes, quando se anunciava mais um navio com estudantes da universidade portuguesa atracando em breve em nosso porto. Era um tal de aprender os últimos fados que as rádios de nossa cidade meio lusitana repetiam todas as manhãs. Mas nem os estudantes de Coimbra, com suas vozes, suas histórias de touradas, nem suas guitarras ofuscavam o brilho de nosso galã.
Era isso. Um brilho que não nos cansávamos de olhar. À distância. Até que um dia ele veio e sentou-se na cadeira vazia junto à mesa em que sempre nos reuníamos num bar da praia, que ele sempre desprezara. Sentou-se, fez girar seu olhar distante dez centímetros acima de nossas cabeças, lançou um longo suspiro e disse:
- Já não agüento mais esta cidadezinha. Não há mais nada a descobrir aqui. Pequena demais, provinciana demais para mim, que tenho mais lembranças do que se tivesse mil anos.
Nem pensei. Saiu-me automaticamente, sem hesitação:
- Beaudelaire: J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans...
Já teria valido a pena o olhar de espanto que me cercou por todos os lados. Alguns segundos, a turma toda pôs-se a rir. Menos ele.
Durante um mês minha vida virou de ponta-cabeça.
Ele me cortejava, me assediava, aparecia todos os fins-de-semana com flores, caixas de bombons e livros de poetas franceses. Insistia para que fôssemos juntos ao clube, ao bar da praia, a qualquer lugar onde todos nos vissem, e pedia-me que lesse poemas, enquanto ele fumava seu Pall Mall acompanhando as volutas de fumaça com olhar sonhador e suspiros profundos. Aquilo era extremamente chato, mas eu não tinha como resistir.
Minha turma afastou-se de mim como seu eu tivesse contraído uma infecção contagiosa. Minha vida tornou-se um tédio, um verdadeiro spleen, eu poderia dizer, naquele tempo.
Uma tarde de sábado, depois de ouvi-lo dissertar exaustivamente sobre Le bateau îvre, tentando encontrar uma saída daquela armadilha, arrisquei um palpite qualquer sobre Rimbaud (bom e velho professor Bertrand!). Ele olhou-me absolutamente encantado. Esperei um elogio, mas, assim, sem mais nem menos, ele me insultou:
- Sabe porque é que eu gosto de você? Porque você tem uma cabeça de homem!
Levantei-me, indignada, agarrei minha bolsa e fui-me embora. Livrei-me dele para sempre.

Clube do Conto da Paraíba – setembro 2007 – mote: Insulto.
Ilustração: Egon Schiele. Obtida em helderpoeta@blogspot.com