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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Autores da Semana (9)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número nove: Regina Behar.

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Regina Behar é professora de história da UFPB e escreve contos mais esporadicamente do que gostaria. Associou-se ao Clube do Conto tempos atrás, sumiu, e agora voltou pra tentar não “perder a mão”. Sempre viu o Clube como espaço de caos e criatividade onde alimenta seu fascínio pelas histórias imaginadas e pela arte da palavra.

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Entre o eclipse e os bandolins

Eles se conheceram no início da adolescência. A mãe dela mudara para a rua transversal havia seis meses. Se encontravam na escola do bairro diariamente e andaram juntos durante anos. Ela tinha um gato pardo chamado zeca e ele tinha uma cadela vira-lata chamada marilyn. Trocavam selos por moedas antigas. Entre o cuidado com os bichos domésticos e as tarefas escolares andavam ocupados com espinhas e mudanças hormonais.

Ela lhe apresentou a praça do bairro que ele jamais tinha olhado. Ele a iniciou no gosto pela poesia, o mundo das palavras com melodia que ela não conhecia. Então as praças, parques e praias povoaram o universo. Então a poesia, os romances e a musicalidade invadiram a vida. Entre as tarefas escolares e a preocupação com as espinhas, faziam planos de poeta e bailarina.

Ela o considerava a pessoa mais inteligente do mundo e ele não conseguia passar um dia sem lhe falar ao menos qualquer bobagem. Suas almas flutuavam como se andassem de mãos dadas, entretanto, nunca se tocaram. A valsa que dançavam era incompreensível aos mortais. Entre os planos de poeta e bailarina e a concretude do cotidiano, imaginavam-se felizes.

Um dia, depois das espinhas e da crise dos hormônios, ela considerou que estava perigosamente dependente dele. Um dia, depois do aumento do buraco na camada de ozônio e em meio da seca de 1983, ele cismou que ela o considerava um tolo, não levava a sério os seus sentimentos e só queria mantê-lo indefinidamente preso. Entre as divagações sobre o ozônio e a incomunicabilidade dos gestos deixaram de se encontrar.

Ele tomou rumo, casou, e foi morar no alto da rua. Ela mudou de bairro e foi morar longe da praça. Assim ficaram durante anos, apartados pelo espaço e pela fantasia de personagens irreais. O passado se tornou distante e a poesia se dissolveu na fumaça urbana. Fecharam-se em seus carros com vidro fumê. Entre fraldas de crianças e questões profissionais abandonaram o poeta e a bailarina.

Tangenciavam o mesmo lugar do mundo, mas suas almas não mais bailavam juntas. Vez por outra o passado invadia a casa e acordava a memória. Ele lembrava dela quando ouvia “Bandolins” e ela pensava nele quando ouvia “Eclipse Oculto”. Evitavam as praças como se fossem lugares malditos. Entre as lembranças do passado e o medo dos fantasmas, encontraram-se, um dia, a caminho do trabalho.

Já não eram tão jovens. Ele achou que ela estava muito envelhecida e ela admirou-se de sua calvice pronunciada. Passaram-se vinte anos, como se fosse dias, como se fosse um século. O tempo mudara tudo. Ficaram sem saber o que falar. Ela tomou a iniciativa e perguntou pelas crianças. Ele respondeu aparentando tranqüilidade e devolveu a pergunta. Ela disse que deviam sair qualquer dia com os meninos. Ele perguntou irônico: “passear na praça?”. Ela ficou vermelha. Entre a ironia e o medo despediram-se para sempre.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Autores da Semana (8)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número oito: Raoni Xavier.

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Raoni Xavier nasceu em 1984, é ilustrador free-lancer, está terminando educação artística na UFPB, escreve contos e produz quadrinhos nas horas vagas. Há mais de um ano trabalha na organização do Projeto Calango (www.prac.ufpb.br/projetocalango) de quadrinhos.

Seu blog: www.ocadonix.blogspot.com

O conto de Raoni foi criado a partir de um exercício de uma das reuniões do Clube do Conto, escrever uma história a partir do desenho feito por Geraldo Maciel, o Barreto. Confiram!

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Adeus velho amigo

- Coriolano? Você esta ai?

- Por favor homem, deixe eu sair, o que teme dessa velha carcaça? Me diga. Que posso eu fazer além de esperar pelo fim?

Coriolano contorce a face relutante. Pensava que apenas um crápula, sangue frio, prenderia alguém por todo aquele tempo. Por outro lado, ainda não confiava nas palavras de redenção daquele maligno. Coriolano olhava para o objeto cinza-níquel em sua mão como quem procura sombras no breu. Experimentava-o na superfície do cárcere, esboçando uma decisão, quando tudo o que tinha eram dilemas. Como enfrentaria sua própria consciência se deixasse escapar aquele monstro.

É certo que já não era o mesmo monstro do passado. Suas articulações enrijecidas e seu olhar grisalho, escancaravam o fato óbvio de que mal podia pôr-se de pé. Mesmo sendo alguém tão perigoso, o sujeito merecia uma chance. Ao menos a oportunidade de poder ver a morte com dignidade. E no fim das contas, eram duas almas velhas, um prisioneiro, o outro carcereiro, dois resultados de uma vida de dívidas. Ele próprio, Coriolano, também merecia seu descanso, assim como um fiel servo de Deus merece o céu.

Ergueu a mão olhando pro seu prisioneiro, como se visse naqueles olhos os seus, acertou o objeto na superfície suada e disparou, abrindo uma fenda de sangue na parede de seus pensamentos. Pela fenda, um homem velho se rastejou, ergueu-se e rastejou, passos incertos, como se deixasse um velho amigo para trás.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Autores da Semana (7)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número sete: Laudelino Menezes.

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Laudelino Menezes é natural de Recife e começou a morar na cidade de João Pessoa em 1995, desde então fica viajando entre estas duas capitais. Passou a escrever contos depois que frequentou uma oficina literária do Fenart, em 2005, local onde teve contato com integrantes do Clube do Conto da Paraíba. Bastou este primeiro contato para se tornar um frequentador assiduo das reuniões do Clube.

Até o momento, Laudelino tem poucos contos publicados, alguns aqui no Blog, outros nas Atas do Clube do Conto (mais especificamente nas edições #4 e #5), um na antologia do Clube e outro na revista ponto #1.

Além de escrever alguns contos, Laudelino estuda e ensina matemática e tem a honra de ser o "blogueiro oficial" do Clube.

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EM BRANCO

Ficou surpreso, não conseguia escrever nada e assim fez, nada escreveu. Foi uma produção longa, mais de 1698 laudas de puro branco, uma verdadeira história épica, o autor destemido estava orgulhoso. Apresentou os manuscritos e surpreendeu a todos os editores, até os que não conheciam a obra queriam publicá-la a todo custo. Optou pelo editor que lhe ofereceu n regalias, n maior do que 1.

Para promover o seu tão esperado livro, preparou um longo discurso, interpretou, decorou e dramatizou cada palavra e cada gesto, iria encantar a todos da platéia. Chegou o tão esperado dia, nunca havia visto público tão grande em toda sua vida. O apresentador o anunciou, subiu no palco e recebeu a salva de palmas. Preparou-se, tossiu um pouco e principiou o seu longo silêncio, não proferiu uma palavra durante horas e horas, ficou imóvel, suando frio. Todos o olhavam com olhos de lince, atenciosos ao silêncio. Disse um Boa noite inaudível e a platéia o aplaudiu, todos estavam felizes por terem escutado um discurso tão belo.

Já nas livrarias o livro vendeu aos milhares e várias e várias pessoas lotavam o dia, à tarde e a noite de autógrafos. O empurra-empurra era tão grande que o autor não conseguia assinar livro algum. Por outro lado, os fãs ficavam contentes em ter aquela assinatura em branco.

Um belo dia, uma ex-namorada sua, que não via há muito tempo, bateu em sua porta. Ela estava fula da vida, não entendia como o autor pudera escrever tanto da intimidade vivida por eles no livro. Foi difícil, mas conseguiu convencê-la de que não havia tanto do antigo relacionamento deles escrito nas páginas em branco do romance.

Depois de todo esse burburinho, encontro de ex-amores, autógrafos e lançamentos, o livro continua sendo procurado, porém o que é mais esperado é o segundo livro do audacioso escritor. Vagando por sua modesta casa, encontramo-lo debruçado sobre sua escrivaninha, aguardando as idéias surgirem, por enquanto, só existe uma pilha de papéis em branco.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Autores da Semana (6)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número meia-duzia: Dôra Limeira.

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Dôra Limeira tenta trazer a lume realidades que, por se esconderem atrás do óbvio, pouco são percebidas. Ruídos do cotidiano, gemidos de carências alimentares, de necessidades sexuais e afetivas. Sussurros de pessoas velhas, doentes terminais, pessoas desagasalhadas. Em seus escritos, esta contista tenta ouvir e expressar murmúrios escatológicos, religiosos, libidinosos, murmúrios domésticos. No ato de criação, todos os gemidos valem a pena.

Dôra Limeira é paraibana, nascida em João Pessoa, bairro de Cruz das Armas.

Fez os primeiros estudos em escola pública. Na seqüência, estudou em colégio particular religioso, de onde saiu para a Universidade Federal da Paraiba. Graduou-se e especializou-se em Historia. Ministrou aulas em escolas particulares e públicas. Também lecionou na Universidade Federal da Paraíba. Como professora/pesquisadora, desenvolveu projetos de pesquisa sobre Historia Regional do Nordeste. Como parte da vida acadêmica, escreveu e publicou textos técnicos restritos à sua área profissional.

Depois que se aposentou, Dôra Limeira passou a dispor de tempo e espaço onde colocar em prática uma atividade que sempre a fascinara desde criança e que não desenvolvera até então por falta de oportunidades: literatura. A internet foi seu primeiro canal de expressão e divulgação literária. Participou de sites literários, escrevendo contos, comentando, interagindo com outros escritores. Estimulada pela satisfação de escrever e incentivada por amigos, recolheu todo o material acumulado e publicou seu primeiro livro - Arquitetura de um Abandono que lhe valeu um destaque: foi considerada a Revelação Literária de 2003 pelo Correio das Artes, suplemento do jornal local A União.

Dôra Limeira é uma das pessoas fundadoras do Clube do Conto da Paraíba, que existe desde junho de 2004.

Livros de contos publicados até o momento: Arquitetura de um Abandono (2003), Preces e Orgasmos dos Desvalidos (2005), O Beijo de Deus (2007), todos editados pela Editora Manufatura, com ilustrações de Vant. Está prestes a ser publicado o “Os gemidos da rua”.

Dôra Limeira tem projetos para um próximo livro que, certamente, não será de contos, segundo ela mesma adiantou.

O e-mail válido para contatos é doralims@bol.com.br.

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EU QUERO COMER BRIGADEIRO

Preto, traje roto, sandálias de dedo, ele morava num aglomerado habitacional de taipa, na periferia. Era menino ainda, mas suspeitaram que fosse bandido. Seu corpo amiúde fazia mogangas sobre um monte de barro, no arruado onde morava, equilibrando-se com agilidade. Brincava de ser cristo redentor, braços esticados, mãos estendidas sobre um corcovado de brasilites e isopores rasgados. Vadiava sob os aplausos da meninada e dos adultos desocupados. De tanto repetir a brincadeira, ganhou um apelido: “Cristo Redentor”, Cristim na intimidade. Era franzino, comprido e não tinha medo de nada. Nos horários da escola, ora estendia seus braços em cruz sobre o arruado, ora se postava junto aos semáforos. Fazia malabarismos e virava cambalhotas diante dos carros parados no sinal vermelho. Comia fogo, canivetes, tesouras. Assim, ganhava uns trocados e entregava, em casa, à sua mãe que também tinha apelido – Dona Maria de Cristim. Um dia, final de tarde, parou junto à vitrine de uma lanchonete. Foi quando suspeitaram que fosse bandido. Imóvel, avistou os doces e brigadeiros, bolos confeitados, empadas e pastéis. As glândulas salivaram. Com a fome nos olhos e a boca babando, Cristim apalpou os bolsos rasos da bermuda. Ouviu o tilintar das moedas que arrecadara comendo tesouras no último semáforo. Retirou as moedas do bolso e pensou eu quero comer brigadeiro. Mas não houve tempo. Um jato de sangue jorrou-lhe das entranhas e as moedas tilintaram no chão. Rolaram ladeira abaixo, alegres. Para Cristim, já não valiam nada. Seu corpo deu entrada no IML, sem sinais especiais que o identificassem, sem dono. Serviu de exemplo nos noticiários de televisão. O rosto morto foi capa de revista policial. Tarjas pretas cobriram-lhe os olhos desbotados, envergonhados. Cristo Redentor era menor de idade, um menino ainda, mas pensaram que fosse bandido. Em casa, sua mãe esperou a noite inteira. Volta para casa, Cristim, pensava. E chorava feito uma pietá. Dona Maria não sabia que, rígido e frio, Cristo jazia numa gaveta de frigorífico, sem túnica.

sábado, 29 de agosto de 2009

Autores da Semana (5)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número cinco: Roberto Menezes.

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Nascido em Recife-PE e residente em Santa Rita-PB desde a infância, Roberto Menezes escreve desde os dezesseis anos. Doutor em Física por profissão e escritor por malcriação...

Tem uma grande quantidade de contos escritos. Seu romance de estreia, Pirilampos Cegos, tem personagens fortes e marcantes, e mostra fielmente o estilo do escritor.

O conto a seguir foi lido na reunião do dia 8 de agosto de 2009. A brincadeira era levar contos e não assiná-los para que os demais participantes descobrissem quem era o autor. Roberto conseguiu disfarçar o conto e fez alguns participantes pensarem que o texto era de Laudelino.

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UMA IDÉIA

Acordei com uma idéia fixa no pé.

Mas não sabia o que fazer com ela, pelo simples motivo de não saber do que tratava. Era uma idéia irritante, apertava as unhas encravadas. Não pude calçar os sapatos. Tive que ir ao trabalho de sandálias e inventar para o patrão um calo estourado.

Corri no computador e fiz a pesquisa: idéia no pé. Nunca ouviram falar. No máximo, falavam de idéia no coração, no sentido figurado. A idéia que eu tinha no pé era real, estava ali. Como ninguém no mundo havia tido? Achei tão natural, do tipo que vez ou outra alguém pode sentir durante a vida.

Olhei ao redor e fiquei com vergonha de compartilhar o problema com os colegas de trabalho. Procurei um profissional. Fui ao analista. Tinha ido lá no dia anterior.

Ele logo falou:

“Você disse que era urgência. O que era aconteceu com você? Tudo bem com você?”.

“Hoje não amanheci bem, doutor. Acordei com uma idéia no meu pé!”.

“Idéia no pé?

“É. Acordei com ela”.

“No esquerdo ou no direito?”.

“No direito”.

“Entendo... Acho que tou percebendo mesmo uma coisa entre os dois pés”.

“O senhor percebeu???”.

“Siiiiim. A sua idéia até me deu outra idéia!”.

“Uma idéia na sua cabeça, doutor?”.

“Sim senhor, e essa surgiu bem aqui entre as têmporas”.

“Inda bem... uma idéia normal”.

“É, uma idéia fajuta. Mas vamos a ela. Deite aqui no chão.”.

“Assim?”.

“Não, coloque as pernas em cima do divã. Assim, bem pra cima.”.

“Isso é relaxante.”.

“É relaxante mesmo, ajuda a reduzir a pressão arterial nos membros inferiores. Mas não vamos nos dispersar. E a idéia, ainda tá no pé?”.

“Acho que tá”.

“Acha? Você tem que saber onde tá. Ela já pode tá descendo. Olha o joelho. Ela já passou pelo joelho?”.

“Doutor, agora que você falou, posso até tá impressionado. Tou sentindo algo se mexer”.

“É ela, é ela”.

“É!!! Ela tá descendo, passou agora pela batata da perna”.

“Não tou vendo. Vai dizendo, vai dizendo”.

“Tá escorregando, aqui na virilha, que frio na barriga!”.

“Ela tá indo rápido”.

“É, tá.”.

“Conta. Conta. Tou pra ter um enfarto”.

“Passou pelo peito. Aqui, aqui na garganta”.

“Vai chegar à cabeça, vai chegar à cabeça”.

Até achei que ele ia enfartar.

E a idéia chegou à minha cabeça. Olhei para o analista. E ansioso, ele implorava para eu dizer qual era a idéia:

“Fale, meu filho, fale. Qual é a idéia?”.

“Não era idéia. Acho que era uma bolha de ar. Sei lá.”, menti para ele.

Decepcionado, me cobrou a fortuna de rotina.

“Até semana que vem”.

“Até”.

Saí de lá com a idéia fixa na cabeça: dispensar meu analista. No entanto, voltei atrás. Ele conseguiu curar o meu problema.

sábado, 6 de junho de 2009

Autores da Semana (4)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número quatro: Ronaldo Monte.

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RONALDO MONTE

Nasceu em 1947, em Maceió, Alagoas. Com onze anos de idade foi aprender a viver no Recife. Mora em João Pessoa desde 1978, o que o faz paraibano por opção e tempo de serviço. Além de poeta e escritor, é psicanalista e professor, com Doutorado em Teoria Psicanalítica pela UFRJ. É autor de crônicas e ensaios publicados em jornais de João Pessoa. e mantém um blog (blog-do-rona.blogspot.com).

Publicou:
- Pelo canto dos olhos (poemas), 1983.
- Memória Curta (Contos e crônicas), Editora Universitária – UFPB, 1996.
- Tecelagem noturna, (Poemas), Editora Universitária – UFPB, 2000.
- Pequeno caos (Crônicas), Editora Manufatura, 2003.
- Memória do fogo, (Romance), Editora Objetiva, 2006.
- O lugar da cura – Construção da situação psicanalítica, Editora Universitária – UFPB, 2007.

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OFÍCIO

Quando o marido morreu, ela não sabia o que fazer. Pois depois que casou, ele nunca deixou que ela fizesse nada. Não podia sair, nem pra ver a família. Não podia conversar com ninguém. Até com a empregada velha que cuidava da casa ela não podia falar. Se ele pegasse, ela ia pro quarto de porta trancada a chave. Tudo que ela precisava, ele trazia da rua. Roupa, sapato, remédio. Só servia para a cama. Isso ele dizia que ela fazia bem. Mas só dizia perto do fim, enquanto gozava. Depois não tocava no assunto. Por isso, quando ele morreu e ela procurou uma coisa para ganhar a vida, foi só isso que lhe passou pela cabeça.

Daí que pegou uma tampa de caixa de sapato, tirou as bordas, fez dois furos por onde passou um cordão e pendurou na porta da casa. Lia-se em letras redondas escritas com esmalte: fode-se.

O primeiro a passar foi o padeiro. Quando leu o anúncio, empurrou a porta que não estava no trinco. Foi até a cozinha, onde ela esperava. Botou o pacote de pão ma mesa, pegou na mão dela e a conduziu para a cama. Gozou uma vez, gozou duas e três. Levantou-se arfando, vestiu-se às pressas, saiu e trancou a porta, levando a chave no bolso.

domingo, 26 de abril de 2009

Autores da Semana (3)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta terceira edição: Geraldo Maciel, também conhecido por Barreto.

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Geraldo Maciel é paraibano, nascido em Nova Palmeira, em 1950. É professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba, engenheiro civil e Doutor em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP.

Seu primeiro livro de contos Aquelas Criaturas tão Estranhas, foi lançado em 1995, pela Editora Rio Fundo, RJ, tendo já uma segunda edição pela Editora Manufatura.

Publicou um segundo livro de contos, Inventário de pequenas paixões, em 2000 e lançou em 2005 seu terceiro livro de contos O Concertista e a Concertina.

Tem contos publicado em revistas culturais e em Antologias nacionais, a exemplo da Contos Cruéis, pela Geração Editorial e Quartas Histórias, pela Editora Garamond. Tem um romance pronto – Aqui As Noites São Mais longas e editará em breve um quarto livro de contos. Seu romance Peccata Mundi ganhou o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008.

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A GARRAFA

ÀS CINCO E TRINTA DA MANHÃ, ao abrir a porta para pegar o jornal, o morador da quadra 25, lote 6, da Rua Portal do Paraíso encontrou uma garrafa de vidro, fechada com uma rolha de cortiça, na soleira de sua porta. Escura, não deixava ver se algo havia em seu interior. O jornal do dia estava atirado dois degraus abaixo. Nem pegou os jornais. Passou sobre a garrafa, olhou a garrafa, cheirou a garrafa e afastou-se, parando no jardim, a cerca de três metros do inusitado objeto, protegendo-se atrás de um canteiro de rosas, como se pressentisse algum perigo. Começou a examinar de longe aquele objeto estranho e inoportuno que não devia estar ali. Como não sabia o que fazer, ficou andando de um lado para outro até que resolveu chamar os vizinhos.

Chamou os vizinhos da direita e da esquerda, com quem não mantinha relações estreitas, apesar de três anos morando lado a lado, comunicou a inusitada aparição e pediu a opinião dos dois. O vizinho da direita, ainda sonolento, achou que aquilo lá era o que parecia: uma garrafa. Por precaução sugeriu chamarem os bombeiros, a polícia, a defesa civil. O vizinho da esquerda, imaginando não se sabe o quê, afastou-se dez metros da cena e disse não saber o que aquilo poderia ser, além de ser, na aparência, uma garrafa.

O morador da quadra 25, lote 6, acordou a família e tentou convencer a mulher a levar as crianças até à casa do cunhado, seis quadras adiante. Aquele objeto conhecido podia ser um enorme problema caso não fosse uma inocente garrafa. E caso fosse algo mais que uma garrafa, poderia ser perigoso. Poderia ser uma bomba, poderia conter um líquido envenenado, disse o aflito morador da quadra 25, lote 6. Mas pode ser só uma garrafa de leite que um leiteiro deixou por engano, disse a mulher do intranqüilo morador. Ah, não! Retrucou a filhinha do casal, a de oito anos, bem que pode ser uma garrafa com uma mensagem! Podia conter uma mensagem, sim, já que era uma garrafa, e transportar mensagens sempre foi a principal finalidade das garrafas. Afinal garrafas trazendo mensagens em seu interior são acontecimentos corriqueiros desde que existem garrafas, náufragos e crianças. O que não se sabe é do conteúdo de tais mensagens. Pode ser uma simples brincadeira ou uma verdade perturbadora e perigosa.

Parece que a opinião da criança acalmou os adultos, pois em poucos instantes desistiram de chamar os bombeiros e o esquadrão anti-bombas, não restando outra coisa ao morador da quadra 25, lote 6 senão destampar a garrafa. Ainda temeroso, destampou-a como se abrisse um envelope, curioso pelo que pudesse haver no seu interior.

A criança menor esperou que saísse uma fumacinha da garrafa e se formasse o gênio ao qual ela faria três pedidos; a mãe olhando por cima do ombro do marido, o incentivava a agir com presteza, acabar com o mistério. A criança de oito anos insistia na mensagem que com certeza havia no interior da garrafa. O morador olhou para dentro da garrafa, viu alguma coisa, olhou novamente, agora colocando-a contra a luz e finalmente disse: parece haver uma mensagem.

Conseguiu retirar um papel enrolado como um charuto e, diante de todos, desenrolou-o lentamente. Leu: “Quando você ler esta mensagem, tudo já terá terminado”. E havia um rabisco como se fosse uma assinatura. Uma brincadeira! Coisa de quem não tem o que fazer! Disse a mulher, e os vizinhos repetiram: Coisa de quem não tem o que fazer!

O morador da quadra 25, lote 6, no entanto não dormiu naquela noite. Já tarde, quando todos dormiam, levantou e foi olhar a garrafa que havia deixado ao pé de um vaso no jardim. Pegou-a, cheirou-a, cheirava a sal e mar, recolocou-a ao pé do vaso. Como ela pode ter vindo parar aqui? Quem escreveu aquele bilhete? O que ele quis dizer?

Voltou até sua escrivaninha, pegou uma folha de papel, um lápis, e escreveu: “Se você ler esta mensagem é porque nada terá terminado.” Enrolou-a como um charuto e colocou-a dentro da garrafa; apertou a rolha para que não pudesse entrar água e deixou-a no mesmo local onde a havia encontrado pela manhã.

À noite sonhou com uma garrafa à deriva.

No outro dia, muito cedo, levantou e foi pegar o jornal. A garrafa já não estava lá.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Autores da Semana (2)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta segunda edição: Maria Valéria Rezende.

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MARIA VALÉRIA REZENDE

Nasceu em Santos , em 1942 , andou pelo mundo e veio dar às costas de João Pessoa porque, enfim, achou outra terra como a sua: não tem centro e periferia, mas sim frente e verso. Daí, por causa do clima favorável, deu pra publicar ficção e poesia a partir de 2001. Tem a mania de livros, por isso apóia a Biblioteca Livro em Roda que carrega, conta e empresta livro para milhares de crianças. Publicou, entre vários outros, O vôo da guará vermelha, que bateu asas e partiu para Portugal, França e Espanha.

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CADA NOITE

Quando vovó me diz boa noite, fecha a porta e apaga a luz pelo lado de fora do quarto, encolho-me por debaixo das cobertas, buscando a proteção do escuro absoluto, deixando lá fora, na penumbra coada pelas telhas vãs e pelas frestas da janela, os fantasmas, os morcegos, os escorpiões, o papa-figo, o vampiro, a bruxa e tudo o mais que me assombra cada noite. Então, sem medo do mundo, adormeço até que o dia pleno me desperte. Assim é, no inverno.

Mas, no verão, a cada noite, tenho de escolher entre sufocar-me no calor sob as cobertas, ou tremer de medo diante daquele vulto escuro que nunca falta, que me apavora movendo-se para perto de mim e de novo se afastando, por horas, até que o desespero me leve ao extremo da coragem para saltar da cama, correr para a janela, quase roçando na horrível figura, e abri-la com um safanão para que entre um pouco mais de claridade e descobrir, mais uma vez, que o monstro é apenas a capa de gabardine escura e o velho chapéu de feltro de meu avô, dependurados num prego atrás da porta.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Autores da Semana (1)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Estreando esta nova seção do blog: André Ricardo Aguiar.

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André Ricardo Aguiar é leitor de todo tipo de histórias, mas quando pode, se realiza entre o terror e o humor. Publicou poesia, cometendo alguns livros, mas não satisfeito, cravou um livro de crônicas de viagem e outros dois para as crianças. Com o Rato que roeu o rei (Ed. Rocco), que foi selecionado pelo PNBE, iniciou sua mais nova fase. Do seu baú preguiçoso, ainda guarda inéditos outro livro de poemas, contos e umas bolinhas de naftalina.

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Carmela

Quando deu por si, veio uma preguiça infinita. Estava contido espantosamente em forros de veludo, chumaços de algodão no nariz, um descabimento em madeira talhada. A princípio, o ponto de vista era o telhado. Estava morto, mas não sabia que estava. Riu-se do fato. E novamente consegui tirar essa equação: solidão, noves fora, ironia. Só o pensamento, esse motor metafísico, lembrou-lhe que estava no seu próprio velório. O que poderia fazer? Os parentes, amigos e condolentes tricotando conversas a meio tom e pondo em movimento a máquina do óbvio viver.

Teve medo de se mexer, mesmo com o rabo do olho: pois não seria de bom tom sair da etiqueta do defunto. E se causasse um movimento involuntário ao cadáver? Sim, todos estavam ali. Ouvia vozes, chorinhos abafados, murmúrios. A maior sensação era a falta de costume: pouco sentindo dos efeitos a que comumente chamamos emoções, não atinava com o ambiente. A sala, tão familiar, agora parecia também um caixão onde cabiam, provisoriamente (no sentido figurado), seus cadáveres. Sua maior estranheza foi descobrir apenas a melancólica imagem de apagados seres. Eles se moviam numa espécie de ritual sem religião.

Vieram-lhe visões sobre o que seria o rosto furtivo e sagrado do nada, o ar rarefeito, o tipo de eternidade que lhe cabia. Não adiantou, sentiu-se mais só do que um verme. Mas nada, nada causou mais espanto do que descobrir, maravilhado, que podia, com sucessivos exercícios, ir saindo aos pouquinhos de si. Não foi tão fácil. A carcaça, para alívio seu, continuava numa moldura de coroas de flores e enjôo. Pôs uma perna desajeitadamente para fora, pôs a outra, espreguiçou-se e desceu do féretro. Ninguém notou. Via tudo de forma chapada, como se a fronteira entre a vida e a morte consistisse numa lente fosca. Teve uma sensação de que ia esbarrar no farmacêutico ou em Lázaro, dono da funerária, de que podia atravessar com relativo perigo a própria esposa, mas nada disso aconteceu. Um pouco cansado – afinal, horas antes tivera grande constrangimento e desperdício de energia enquanto agonizava. O movimento ganhava alguma novidade com ruídos de choros ou pequenos escândalos para os lados da cozinha. Algo ali estava lhe chamando a atenção, como uma fluida sintonia de rádio, mas não soube precisar. Saiu andando a esmo, deixando o seu corpo em stand-by

Afinal, muito chato ficar mofando ali. Estava até meio decepcionado pela correção ética do velório. Correu dali, atravessou paredes como se fossem gelatina, foi bater nos lados do quintal para acariciar, sem tocar, seu dálmata. Em algum ponto da casa um grupo de marmanjos contava uma anedota enquanto numa escala menor, talheres e copos eram lavados com certa displicência. Sabia que o crédito da eternidade já estava no bolso, mas, segundo os padrões ainda vigentes, não deveria descuidar de suas obrigações de defunto, deveria resignar-se e tomar seu lugar, numa postura idêntica ao funcionário que toma posse de uma mesa e faz o que lhe pedem as tais forças superiores.

Estava disfarçando o nervosismo. Essa etapa intermediária entre sair da vida e pular para o desconhecido parecia um vestibular ou uma sala de espera de dentista. O sentimento de uma presença alarmava-lhe o espírito. Lembrou um trecho que lera de um livro de filosofia de almanaque: os acontecimentos de uma vida, mesmo comezinhos, poderiam vir a ser uma semente para a morte ou o que quer que esteja do outro lado. Alguma mancha afetiva de sua vida estava ali, dizia a sua recém-clarividência. E era verdade, o que pôde comprovar ao tomar o rumo do centro do velório.

Quando voltou à sala, teve uma surpresa: num canto, um pouco pálida e reservada, estava Carmela, uma prima distante que lhe devotara meteórica paixão. Não tinha dado certo e os desvios familiares mudaram a rota do destino de ambos. Agora a prima apareceu ali, um olhar entre adormecido e mórbido. Causou certo incômodo o fato de que, se ainda não falhava a memória, Carmela tinha morrido de tifo em 1957 aos dezoito anos. Estava enterrada no mesmo cemitério onde jazia a família e que seria o destino do seu corpo.

Mas agora bateu a dúvida. Tinha morrido ou não tinha morrido? Não era Amelinha, parente da parte paterna, que tinha adquirido a malfadada doença? Mas também jurava de pés juntos que ali estavam os traços inconfundíveis da prima: sua obstinação velada, seu ar meio distante, o que dava a sensação para muitos de que Carmela não tinha nascido para os dissabores do mundo – e que em verdade pouco se lhe dava viver aventurosamente. Viveu, sim, para amar alguém uma só vez toda a vida. E sua presença ali corroborava o seu estilo.

Um detalhe furtivo não lhe escapou: a prima segurava, com muito zelo, um objeto, talvez um pedaço de papel. Olhava de forma fixa para o caixão e parecia prestes a burlar a vigilância dos presentes, mas só parecia prestes. Mostrava-se consolada e esperançosa.

Estava nessas elucubrações quando sentiu a pontada metafísica, como que um cifrado chamado para tomar o seu lugar. Assumiu sua responsabilidade, embora com certa relutância, pois desejara falar com a prima, mesmo que como leve brisa assombrada. Acomodou-se o melhor que pôde no caixão e já ia afundando numa morna inexistência quando sentiu que lhe fechavam a tampa. Pela última fresta de luz mortiça uma mão pálida se insinuou e por entre as flores depositou um delicado envelope. Era um bilhete, e numa letra tremida, quase apagada, estava escrito:

CARMELA

JAZIGO 3547, À SOMBRA DO FÍCUS.