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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ilusão de ata

Ata referente ao dia 18 de janeiro de 2013.


Uma ata pode ser uma ilusão de ótica. pode estar aqui ou não. Como pode ser também aquele exercício temeroso que o sedentário vai tentar. Pode ser também uma falta de assunto, tema muito caro ontem, ou visitas inesperadas. Uma ata pode ser a memória dos que não foram. Ou a presença dos que já estavam por lá. Uma ata pode ser engolida, pode render fuzuês e quiproquós. Uma ata pode ser meramente um registro carimbado, aqui estivemos, e o referido é verdade e dou fé.

Reuniram-se na Toka do Pastel os mambembes do clube do conto, que é misto de circo e folia. Sérgio, Sandro, Bonifácio, Joedson, Valéria, Romarta, Suênia I e II, Norma, Valéria e as convidadas Alessandra e Tatiana. (Se faltar alguém, identifique-se e perdoe a falha memória de quem faz a ata...) Discutimos, além da leitura dos contos, a participação do Clube na Flicabedelo, em março, e inauguramos o novo local, com banner e tudo. Foram lidos contos fora do tema, e sem papel, com as tecnologias à mão. 

O tema escolhido para a próxima semana é "Morreu na praia", mas outros temas foram bem recebidos, como quiproquó - não lembro dos outros...

E assim, quem quiser que conte outra...

André Ricardo Aguiar

domingo, 25 de novembro de 2012

Modo de apanhar contistas à mão


Ata referente ao dia 24 de novembro de 2012.

E lá vão eles, em formato de livro
dizer que são livres – e são.
Como Sansão indo ao cabeleireiro.
Como Tristão dizendo: me larga Isolda!
Como João, não o Guimarães, mas qualquer João.
O leitor, ah o leitor!
Assim foi o sábado, dia do Senhor
(mpb de um lado, na praça, procissão à véspera
Do barulho, na rua). 
Entre uma coisa e outra,
Deus há-de. O Sertão são os contos, os causos,
O redemoinho. 
Contistas à mão cheia.
Como o canto da sereia, só que no seco.
No piso do shopping em vão. Todos de esguelha.
Pé de conto nasce a todo instante. Colher é que são elas.
O tema é orelha.

André Ricardo Aguiar

domingo, 21 de outubro de 2012

23 minutos: uma ata de relógio


Ata referente ao dia 20 de outubro de 2012.


Com o clube do conto não há quem troça. E não há quem força. Feito marchinha de carnaval, passeata do Solidaridad, ritual de acasalamento das tribos massai, estamos nem aí, mas o nem-aí fica no shopping plantado em pleno bairro. Fomos apresentados, não há o que discutir: conto e contistas dão as mãos. Este sábado não é exceção (vasto, vasto, vasto mundo, mais fácil é Drummond pedindo a rosa do povo). Vamos ao novo: Então vamos furar! disse um conto, a certa altura, do Betomenezes. Prontamente, pode dizer...

Às 18 horas e pouco ou mais ou menos este horário uma ruma de contistas rumaram para os costados do SS e com certa dificuldade exigiram as tais ditas cadeiras de plástico e assentaram bundas. Norma em bordado, Déa em ponto, Dôra em primazia, Gilmar e Glícia, renovados, Beto e Lau, jograis em cena, Sergio em degrau, Regina em Behar, André e Manuela em banco. O tabuleiro de contos teve algumas casas preenchidas, as jogadas foram ficcionais e os ausentes não foram baixados em download, a conexão estava péssima, menos para os presentes (wi-fi). Foram lidos contos e outros tantos sonhados. Um fato pitoresco foi a distribuição da obra de Maria José Limeira para os presentes. Caixa-surpresa do encontro. 

Esta ata faz um pequeno recesso para as notícias futuras. Votação dos temas com direito a segundo turno, acabou, por um nariz, o tema dos 23 minutos, tempo mais que suficiente para que uma ata seja feita com esmero e distinção (não esta, que ainda é candidata a estes cargos).

Por fim, já é tempo de acabá-la. O referido é verdade, etc, etc, etc.

André Ricardo Aguiar

domingo, 14 de outubro de 2012

Ata Quintal Mágico


Ata referente ao dia 13 de outubro de 2012.

Em pleno Quintal Mágico.
É certo que um quintal é um espaço que, conforme o uso, o expande. Mesmo que um grupo como o Clube do Conto, também acostumado a um aperto, consiga variar em tamanho, assim é o espaço de Dora Limeira, senhora da comarca do conto. O encontro foi estabelecido com o tema apropriado ao lugar: quintal. O clima foi de festa de são João sem fogueira, ano-novo sem  réveillon, carnaval sem marchinhas. Os fogos de artifício foram os contos. Estiveram presentes as  filhas de Dora, Nara e Déa, os contistas da vez Cartaxo, Beto (ipadiano), Suenia, Norma, Joana (rainha do twitter), Laudelino (entre sonolento e engraçadinho) e eu.

De acordo com os trabalhos executados (corte de bolo, preenchimento de copos de café) nos revezamos nas histórias e fofocas. Com a fera da casa, um pastor no cio, tivemos um momento de caracterização genuína do pânico (Beto, melhor representante da categoria). Depois dos contos lidos, optamos, sem muitas oposições, pelo tema Necrofilia. Sim, Clube do Conto engorda, mas não mata. Oremos.

Abraços!

André Aguiar

domingo, 30 de setembro de 2012

ATA ERRATA

Ata referente ao dia 29/09/2012.

Presentes na reunião
Eu tenho uma ata aqui para ser dispensada porque estou com preguiça feita com esmero e certo pudor. O Clube do Conto resolveu fazer uma revolução só escrevendo contos com vogais se reunir com propósitos bem definidos: ler bulas de remédio contos, combinar estratégias da edição da antologia, estabelecer novos temas. Estiveram irritados presentes Suenia, Gabryelle, Gilmar, Gandhi e Sidarta, Romarta, André e Manuela, Beto, Cartaxo, Joedson, Laudelino e Sérgio.

Ata feita, vamos aos fatos. O Clube do Conto está prestes a fechar o ano com dois shows de rock pauleira-progressivo-punk duas apresentações na Boate Sexxxus Estação Ciência. E a antologia já na ponta da faca. Estabelecidos estes critérios de calendário, damos por encerrada a aula sobre Como desmontar uma granada a ata.

Tema pra próxima semana: perna olho braço boca cabeça ORELHA.

André Ricardo Aguiar

domingo, 29 de julho de 2012

Avestruz e uma ata

Ata referente ao dia 28 de julho de 2012.


Não queria revelar aos integrantes do clube que os meus motivos para indicar o avestruz como tema são obscuros. Eu o sonhei, este tema, em todas as suas penas, em sua turva estranheza. Por isso, ave boba e grandalhona, o avestruz se justificou sábado passado. No entanto, os dias correram e ninguém se dispôs a relatar qualquer experiência com um avestruz. Não quis relacionar o dia a dia ao estrutionídeo, nem tecer considerações beckettianas sobre a ideia de que um avestruz também podia esperar Godot – ou ser o próprio, na véspera de carnaval. Não, caros senhores visitantes do clube mais longevo na área da contística. Preferimos matar o avestruz antes de fazê-lo correr pelos lisos pisos do Shopping Sul – o que seria um problema para a direção, para os consumidores, para a fila do banco. Não se põe um avestruz impunemente da imaginação torpe de um dos integrantes para a realidade – também caótica, vá lá, das terras tabajaras. Da pena para o papel não houve sequer uma continuidade. Os contistas, poucos, preferiram evitar o assunto e ficar no mero cafezinho com algum resquício de partida de xadrez. Norma, Regina e Gabryelle sugeriram o tema da ausência. Meu debelado avestruz recolheu-se em penas e enfiou o bico num silêncio atado. Oremos.

André Ricardo Aguiar

terça-feira, 19 de junho de 2012

ATA EM TESE – Ou: Como orientar contistas?


Ata referente ao dia 16 de junho de 2012.

Variação pequeníssima do universo em expansão, devemos analisar nesta tese as implicações contingentes da entrada das cadeiras (E aqui cito Schilling, “as disposições não ferem o caos, apenas o reordena”) com os agentes em atual estado de partilha (contistas) que, imbuídos de indesejados meios em celuloides e copiados para um fim, se notabilizam pela expansão do teor narrativo através de um modus operandi chamado ar versus barulho, com clara desvantagem do último.

É preciso citar, no entanto, que a presença de uma força integradora gera o grupo

como um dínamo não-previsto, onde a raiva de existir pode virar matéria factual e necessária aos mecanismos líricos (Menezes, Laudelino, p. 235)”

De outro modo, a presença de uma autora como Gabryelle justifica, em fartos exemplos, este caráter aglutinador do grupo. Ou, como na definição cartaxiana de teatro da inclusão, “num tem o que discutir, entrou, tá dentro”. (sic)

As referidas normas de conduta – ou na verdade, só uma, de cara inchada, pode ser balizada por n fatores, n exemplos:

a) Contos podem ser lidos, mas jamais encenados por pandas;
b) Contos são inflamáveis, portanto, não faremos reuniões em paiol ou barracas de fogos;
c) Contos não existem sem contistas.

Em resumo, uma reunião que decida, por quase voto unânime, o tema TÚNEL, não pode ser de todo relegada a uma teoria behaviorista de bolso. O comportamento é explicitamente reelaborado para um momento posterior, traduzido ou não, numa forma marcadamente moderada, como no exemplo da chamada ata, e que segundo o filósofo franco-atirador, Michel Teló, diz em tom universalista “Nossa, nossa, assim você me ata / ai se eu te cito, ai ai, se eu te cito”.

AGUIAR, André  Conto e Sociedade em Prol de Clubes ou O Shopping não é Aqui, Idiota! – João Pessoa, 2012, p. 13.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cordel Atado


Ata referente ao dia 5 de maio de 2012.
Aqui então nesta ata
Vou recontar um encontro
Desses que posso lembrar:
Um tal de Clube do Conto,
reunião lá num shopping
próximo ao café do ponto.

Pode-se contar história
Verdadeira ou inventada
Nem precisa de ingresso
Pra contar a sua toada
E chegar e se largar
Numa cadeira escanchada.

Também por aceitação
Se convida o povo alheio
Passarinho curioso,
Mosquinha de entremeio
Tudo muito escandido
Para contar sem receio.

Na contagem deste sábado
Veio o povo costumeiro
E uma tal de Janaina
De talento por inteiro
E demos o pontapé
Que tempo custa dinheiro.

Foi conto pra todo lado
E risadagem também:
Pequena grande Romarta
Deu-nos conto de vintém,
Beto até jogou trocado
Nos despoemas que tem.

Valéria quis desafio,
Norma ficou no padrão,
Laudelino ficou ao lado
Costurando a contação
Era este o tal do ritmo
Do nosso conto-baião.

Ainda Jéssica e Sergio
Na emenda o fio de prosa
Parecíamos um fieis
Gritando em polvorosa
As histórias de calibre
Do Clube que nos entrosa.

Assim eu fecho esta ata
De pavão misterioso
E assino e dou fé
Como quem bota um ovo
Online e redondinho;
Quem quiser conte de novo.

André Ricardo Aguiar

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ata da Feira Solidária - Parte II


ATA DE FEIRA (referente ao dia 11/2/2012)
André Ricardo Aguiar

O artesanato até que funciona, entalhe e madeira, palha que se trança, argila a moldar, costuras e bordados. É quase um bloco de carnaval: em vez de repique e surdo, vai silêncio e prosa. A evolução é sagrada, segue um ritmo de avenida nas alegorias do conto. Nota 10 para todos,

Foram lidos contos de Joana, Beto, Wander, André, Norma e Romarta. Em redor do artesanado, palavras foram costuradas e embaladas como itens turísticos de diversa lavra. Presenças de Valéria e família, Eli, Emilayne, Sérgio Janna e filha, Mariana, Valeska e o povo da feira.

O tema escolhido, Desde o outro carnaval, foi quase unânime. Estão previstos um folheto com os contos do tema Feira Solidária e um cordel com os participantes da feira.

O referido é verdade e dou fé.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

André R. Aguiar (Cartum + Conto)

ANDRÉ RICARDO AGUIAR nasceu em Itabaiana, Paraíba e ficou tempo suficiente nesta zona rural para adquirir o olhar para as coisas mais básicas da vida, tempo e memória. Veio para João Pessoa, tomou contato com livros e bibliotecas e nunca mais parou de beber da fonte. Passou por jornalismo e letras e através de muitas amizades, integrou os movimentos culturais do fim de século, além de colaborar com jornais e revistas, entre eles, Correio das Artes, sua estréia. Participou de concursos literários, fundou o selo Trema, junto com Antonio Mariano e José Caetano e ajudou a fundar o Clube do Conto. Começou na poesia, publicando A Flor em Construção (Idéia), Alvenaria (Ed. UFPB). Em seguida, o livro de crõnicas de viagem Bagagem Lírica (Sal da Terra) e os infantis O rato que roeu o rei (Rocco) e Pequenas Reinações. Tem inéditos outros livros.

***

O MÁGICO

Ele era mágico, vivia disso e se orgulhava, quando saiu de sua terra, de ter de memória, todas as técnicas que aprendeu com um sujeito velho, espécie de caixeiro-viajante, que lhe ensinou o básico: tudo é  ilusão. 

Agora vivia num quartinho alugado, perto da boate onde ele, com destreza, fazia mil e uma mágicas de enganar a vista, o dito ilusionismo para alguns. Desaparecia e aparecia com o espectador e sabia muito bem esticar o suspense; as inevitáveis e mirabolantes estripulias com cartas de baralhos; o truque de mover objetos. E em tudo isso o pouco rendimento, o suado resultado que  mal pagava as contas – e que mal alimentava o coelho da cartola. Também sonhava com Carolina, a filha do dono do estabelecimento. Ia e vinha entre as  mesas, atendendo os clientes. 

Lembrava bem da cidade em que nasceu, da prima que se espantou com a primeira mágica, do beijo roubado no crepúsculo, da estranheza em pouco mais que um fim de semana ver o pai desaparecer numa curva da estrada e nunca mais aparecer,  amargo número incompleto.

Estava  nas reminicencias naquela manhã, quando treinava os números daquele dia, e, num momento raro, pegou o coelho, o pôs na cartola e o viu sumir. A mão sentiu a penugem ir aos poucos se desfazendo numa matéria mínima até pouco restar, a não ser pelos entre os dedos. Depois, olhou para o fundo da cartola, para os lados, para a sala e nada. 

Demorou muito a cair em si. Não era apenas a cartola. Qualquer coisa que pudesse se oculta por ele, podia sim, sumir. E não mais voltar. Esperou dias pela volta do coelhinho e nada. Sentiu ânsias de vômito e teve a impressão de uma bola de pelos efervecentes subir a garganta, e nada. 

Na boate, a platéia entediada, como a esperar que ele fosse apenas a atração secundária para o show com mulheres voluptuosas. Então, de pirraça, começou a desaparecer com pessoas. Escolhia ao acaso, na platéia, aqueles seres desacompanhados, que geralmente ficavam nos cantos apenas pedindo, com  os gestos mínimos, para não serem perturbados. Mas quando chamados, talvez para evitar um constrangimento na recusa, iam ao palco e se submetiam à humilhação de serem vistos e analisados com os olhares. Durava pouco, pois entravam numa cabine e, num zastrás, o vazio apenas, o holofote chicoteava e pronto, música de finalização. Ninguém reclamava o fechamento do círculo. Achavam que quem desaparecia, ia para os bastidores e de lá, talvez pegar a lateral da boate e ir embora. O dono do estabelecimento, vez ou outra, preocupado, perguntava mesmo, onde o sujeito? E ele, vestindo a roupa comum, desconversava dizendo, está na mesa perto do balcão, é só conferir. E dizia com poucas palavras, já anunciando que o silêncio era o que faltava vestir para ir cuidar da vida.

Mágica. Não tinha a capacidade, esta sim, necessária, de fazer aparecer coisas.  Dinheiro no bolso ou na cartola, por exemplo. Só desaparecia. Sabia, pois sonhou com isso, que as pessoas que desapareciam, forçosamente apareciam em outros lugares.  Os solitários caíam em antigas aldeias festivas e geralmente eram solicitados a cantar ou tocar.  Os tímidos ou feios terminavam em serviço social, os hospitais do outro lado do mundo, os contratavam para atender pacientes. Os que estavam terrivelmente molestados, com pouco tempo de vida, iam para as guerras fronteiriças, e na luta, descobriam um sentido imediato de vida. Morriam úteis, sem saber se foi a bala ou o tumor. 

Foi só quando Carolina confessou o seu amor, um amor que seria sempre proibido, que ele se lembrou do conselho do caixeiro-viajante e tornou a frase ao avesso: vida é ilusão. E programou seu último número, às ocultas. 

Naquela última noite, o mágico fez tudo às pressas, tão nervoso estava. Alguns números não funcionaram. Outros, arrancaram risadas, outros ainda nem foram aplaudidos. Deixou pra o final, já cansado e com a cartola jogada no canto do palco, o número da cabine. Olhou para a platéia na luz difusa e com um gesto, chamou a filha do dono do estabelecimento. Tudo combinado, ela veio às pressas, enquanto o pai estava ocupado, com urgências de última hora. E quando entrou na cabine, o mágico suspirou aliviado e sem muita cerimônia, para surpresa do público, também entrou, uma maleta nas mãos. Fechou e entrou no abafado mundo do seu talento. Escuro estava. Tateou até encontrar uma mão trêmula e febril. Podia ser Carolina ou a ilusão que lhe convinha, não importa. 

Desaparecer sempre era um bom começo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sessão de Contos (2)

Diferente da Sessão da Tarde, um programa quase diário que exibe filmes na televisão, a Sessão de Contos pretende ser um "programa" semanal do nosso blog, trazendo para todos os internautas um dos contos lidos nas reuniões de sábado do Clube.

Esta semana, um conto "requentado" de André Ricardo Aguiar, lido na reunião do dia 15/08/2009.

***

Moonlight Serenate

(baseado no poema Serenata Sintética do Cassiano Ricardo)

Lua morta*

A noite é fria e carregamos os instrumentos. Bandolim, cavaquinho, violão, uma flauta. Nós somos um grupo coeso e vivemos conforme a música. Aí pintou um serviço, família de conceito, menina romântica, bairro distante. Então conversamos, acertamos a música, que tipo de andamento e tal e torcemos, torcemos muito por uma noite de lua morta, baça, escondida.

Rua torta*

O caminho é um samba de crioulo doido. É um bairro de classe média baixa, cheio de ruas tortas, ladeiras, um ou outro trecho mal formado. O rapaz do violão diz, meio que brincando, que o bairro é assombrado pelos fantasmas de antigos traficantes. Não brinca, cara. Aí dobramos à esquerda e na última esquina, afinamos os instrumentos: estilete, alicate, chave inglesa.

Tua porta*

Quando chegamos defronte a casa, tomamos o cuidado de uma inspeção ampla. Nenhuma alma na rua. Começamos baixinho com uns dedilhados. Quando, em crescendo, espero lascar com meu vozeirão, quando as primeiras pupilas das janelas acendem, eu dispenso um e outro, que dão a volta na casa. O combinado – o código musical – será tocado no momento certo. Lá estão o pai, a mãe, a filha e a empregada pendurados nas janelas. Eles riem embevecidos da serenata. Aumentamos o tom, quando sentimos, pelo compasso, que o serviço está para ser feito. Não se ouve nada, não há latidos de cães, e nos fundos da casa, a música chega no calculado refrão, indicando que podem dar conta, fazer a feira, raspar o tacho. Depois, recolhemos os instrumentos e nem sequer aceitamos as gorjetas. Saímos de fininho.

Contamos o produto, dividimos com justeza e olhamos pros lados, meio temerosos dos assaltos. Descemos o caminho de volta com a sensação dupla: dançamos conforme a música e eles dançam juntos.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Autores da Semana (1)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Estreando esta nova seção do blog: André Ricardo Aguiar.

***

André Ricardo Aguiar é leitor de todo tipo de histórias, mas quando pode, se realiza entre o terror e o humor. Publicou poesia, cometendo alguns livros, mas não satisfeito, cravou um livro de crônicas de viagem e outros dois para as crianças. Com o Rato que roeu o rei (Ed. Rocco), que foi selecionado pelo PNBE, iniciou sua mais nova fase. Do seu baú preguiçoso, ainda guarda inéditos outro livro de poemas, contos e umas bolinhas de naftalina.

***

Carmela

Quando deu por si, veio uma preguiça infinita. Estava contido espantosamente em forros de veludo, chumaços de algodão no nariz, um descabimento em madeira talhada. A princípio, o ponto de vista era o telhado. Estava morto, mas não sabia que estava. Riu-se do fato. E novamente consegui tirar essa equação: solidão, noves fora, ironia. Só o pensamento, esse motor metafísico, lembrou-lhe que estava no seu próprio velório. O que poderia fazer? Os parentes, amigos e condolentes tricotando conversas a meio tom e pondo em movimento a máquina do óbvio viver.

Teve medo de se mexer, mesmo com o rabo do olho: pois não seria de bom tom sair da etiqueta do defunto. E se causasse um movimento involuntário ao cadáver? Sim, todos estavam ali. Ouvia vozes, chorinhos abafados, murmúrios. A maior sensação era a falta de costume: pouco sentindo dos efeitos a que comumente chamamos emoções, não atinava com o ambiente. A sala, tão familiar, agora parecia também um caixão onde cabiam, provisoriamente (no sentido figurado), seus cadáveres. Sua maior estranheza foi descobrir apenas a melancólica imagem de apagados seres. Eles se moviam numa espécie de ritual sem religião.

Vieram-lhe visões sobre o que seria o rosto furtivo e sagrado do nada, o ar rarefeito, o tipo de eternidade que lhe cabia. Não adiantou, sentiu-se mais só do que um verme. Mas nada, nada causou mais espanto do que descobrir, maravilhado, que podia, com sucessivos exercícios, ir saindo aos pouquinhos de si. Não foi tão fácil. A carcaça, para alívio seu, continuava numa moldura de coroas de flores e enjôo. Pôs uma perna desajeitadamente para fora, pôs a outra, espreguiçou-se e desceu do féretro. Ninguém notou. Via tudo de forma chapada, como se a fronteira entre a vida e a morte consistisse numa lente fosca. Teve uma sensação de que ia esbarrar no farmacêutico ou em Lázaro, dono da funerária, de que podia atravessar com relativo perigo a própria esposa, mas nada disso aconteceu. Um pouco cansado – afinal, horas antes tivera grande constrangimento e desperdício de energia enquanto agonizava. O movimento ganhava alguma novidade com ruídos de choros ou pequenos escândalos para os lados da cozinha. Algo ali estava lhe chamando a atenção, como uma fluida sintonia de rádio, mas não soube precisar. Saiu andando a esmo, deixando o seu corpo em stand-by

Afinal, muito chato ficar mofando ali. Estava até meio decepcionado pela correção ética do velório. Correu dali, atravessou paredes como se fossem gelatina, foi bater nos lados do quintal para acariciar, sem tocar, seu dálmata. Em algum ponto da casa um grupo de marmanjos contava uma anedota enquanto numa escala menor, talheres e copos eram lavados com certa displicência. Sabia que o crédito da eternidade já estava no bolso, mas, segundo os padrões ainda vigentes, não deveria descuidar de suas obrigações de defunto, deveria resignar-se e tomar seu lugar, numa postura idêntica ao funcionário que toma posse de uma mesa e faz o que lhe pedem as tais forças superiores.

Estava disfarçando o nervosismo. Essa etapa intermediária entre sair da vida e pular para o desconhecido parecia um vestibular ou uma sala de espera de dentista. O sentimento de uma presença alarmava-lhe o espírito. Lembrou um trecho que lera de um livro de filosofia de almanaque: os acontecimentos de uma vida, mesmo comezinhos, poderiam vir a ser uma semente para a morte ou o que quer que esteja do outro lado. Alguma mancha afetiva de sua vida estava ali, dizia a sua recém-clarividência. E era verdade, o que pôde comprovar ao tomar o rumo do centro do velório.

Quando voltou à sala, teve uma surpresa: num canto, um pouco pálida e reservada, estava Carmela, uma prima distante que lhe devotara meteórica paixão. Não tinha dado certo e os desvios familiares mudaram a rota do destino de ambos. Agora a prima apareceu ali, um olhar entre adormecido e mórbido. Causou certo incômodo o fato de que, se ainda não falhava a memória, Carmela tinha morrido de tifo em 1957 aos dezoito anos. Estava enterrada no mesmo cemitério onde jazia a família e que seria o destino do seu corpo.

Mas agora bateu a dúvida. Tinha morrido ou não tinha morrido? Não era Amelinha, parente da parte paterna, que tinha adquirido a malfadada doença? Mas também jurava de pés juntos que ali estavam os traços inconfundíveis da prima: sua obstinação velada, seu ar meio distante, o que dava a sensação para muitos de que Carmela não tinha nascido para os dissabores do mundo – e que em verdade pouco se lhe dava viver aventurosamente. Viveu, sim, para amar alguém uma só vez toda a vida. E sua presença ali corroborava o seu estilo.

Um detalhe furtivo não lhe escapou: a prima segurava, com muito zelo, um objeto, talvez um pedaço de papel. Olhava de forma fixa para o caixão e parecia prestes a burlar a vigilância dos presentes, mas só parecia prestes. Mostrava-se consolada e esperançosa.

Estava nessas elucubrações quando sentiu a pontada metafísica, como que um cifrado chamado para tomar o seu lugar. Assumiu sua responsabilidade, embora com certa relutância, pois desejara falar com a prima, mesmo que como leve brisa assombrada. Acomodou-se o melhor que pôde no caixão e já ia afundando numa morna inexistência quando sentiu que lhe fechavam a tampa. Pela última fresta de luz mortiça uma mão pálida se insinuou e por entre as flores depositou um delicado envelope. Era um bilhete, e numa letra tremida, quase apagada, estava escrito:

CARMELA

JAZIGO 3547, À SOMBRA DO FÍCUS.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Os contdores circulares






Na cidade de Pândegas vivem os contadores de histórias. Vieram em caravanas e se instalaram de forma desordenada. Construíram cada parte da cidade de uma forma muito peculiar: no meio de conversas, contando histórias sobre a origem de cada recanto, como se o chão em que pisavam cobrisse uma cidade anterior. E assim, Pândegas, mesmo feita às pressas, ganhou a cor histórica, aceitando nos seus anais tanto reinados sanguinários quando períodos de paz.

Pândegas, séculos depois, passou a exportar histórias. Mesmo que cada habitante, do prefeito ao limpador de chaminés, sofressem do chamado bloqueio durante um tempo, chegava alguém com algum fato tão interessante que imediatamente a história ficava registrada na excelente memória dos pândegos. O comércio incluía não só contadores de histórias, mas revisores para que as histórias fossem impressas em rolos e pergaminhos, acomodadas no imenso galpão e posteriormente exportadas. Foram também contratados tradutores, adaptadores, roteiristas, críticos e organizadores de antologias.

Pândegas também ficou conhecida pelos seus piratas de terra firme, que atravessavam grandes distâncias e, disfarçados de mercadores ou meros turistas, recolhiam as histórias de outras cidades, dos portos e das docas, e com a carga guardada na memória (todo pândego tem uma memória avassaladora) faziam o percurso original e depositavam nos ouvidos dos escribas tudo o que foi recolhido.

O problema, conhecido apenas pelos mais temerosos da crise financeira, arruinando o comércio dessas histórias, é que os piratas não achavam exatamente cidades, mas ermos, despovoados, encostas íngremes que impediam de chegar a alguma civilização. Daí, cansados, montavam acampamento e ao redor de fogueiras, inventavam possíveis cidades com características próprias, jeito de viver, proliferação de pragas e, com muito debulhar, as histórias nascidas disso. Também não eram tão pródigos na memória, então desenvolveram uma linguagem de objetos: recolhiam na estrada ora galhos, pedras, flores, borboletas ressequidas e segundo uma disposição nos alforjes, construíam o enredo das lendas, a cor dos provérbios, a brasa do humor.

Pândegas era uma civilização terminal. Não se sabe se sofreu com o peso das histórias, mas por ter sido construída em terreno instável, dobrou-se sobre o seu epicentro e literalmente foi fechada como um livro, deixando como vestígio uma capa de poeira, escombros e cinzas.

André Ricardo Aguiar, clube do conto

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cronofobia (à sombra dos cronômetros em flor)

A proximidade dos aniversários lhe causava suores frios. Com a imunidade baixa para opiniões alheias, era facilmente cooptado para programas infinitos. Descobriu tarde demais que o medo aos filmes de Hitchcock decorria menos do suspense do assassinato do que da duração da película. Na saída da faculdade, a sensação de que seria cardíaco mais cedo, caso seu pai não chegasse com o carro. O pavor ao tempo também lhe trouxe a impotência e o câncer de prostração.

Única felicidade nem foi em vida: o caixão baixou em exatos 7 segundos.


André Ricardo Aguiar

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Náufrago


Eu afundo com muita facilidade.

Não em grandes extensões marítimas. Não tem nada a ver com água, afogamento, estertor. Não na praia, nem no rio, nem no lago.

Eu afundo perto de mulheres. As que eu desejo. As que eu quero tocar. Não tenho rotas definidas, e minha bússola não é confiável. Em vez de mapa, tenho espinhas. E não sou capitão coisa nenhuma. Sou marinheiro de primeira viagem. Sou do subúrbio, a quem chamo de ilhas.

Adoro Moby Dick, mas não cheguei ao fim. Não é o mar, mas a calmaria que me assusta ali. Então largo o romance, experimento a terra firme, vou de arpão para as mulheres. Tem uma menina na rua, eu consegui chegar muito perto. Ela aceitou dividir um banco de praça. Não sei se por curiosidade, troça e tédio dos dias. Talvez uma mistura. Até dobrar a esquina e ir me aproximando da praça, senti a dureza do chão, tinha uma rota - era eu. Quando me aproximei, fui me apagando, o chão ficou movediço, pantanoso. Quando sentei no banco, passei a enjoar, não tinha o prumo das frases. É assim mesmo, pensei. Você divisa ao longe um peixe que parece pequeno, e que cabe na idéia do arpão. Você tem a obsessão de Ahab. Aos poucos, basta aproximar, a brancura violenta e os olhinhos náufragos te observando, e as sardas (esta baleiazinha tem suas sardas) te faz sentir indo na direção dela com o arpão mais te ferindo do que ameaçando a presa. E mal ando na lâmina do oceano, fingindo heroísmo, o pé vai afundando. Juro a mim mesmo: isto é um banco, um banco, um banco. Pensava, de cimento: mas é de areia. Quem escapa para o fundo é a baleia. Quem encalha de vez sou eu.
André Ricardo Aguiar, tema naufrágio