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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Seis de abril de dois mil e treze

Ata referente ao dia 6 de abril de 2013.

Chegamos mais ou menos ao mesmo tempo, eu e Valéria no café e Carlos Cartaxo, o mais pontualmente britânico, no terraço. Cartaxo desceu para, gentilmente, como bom cavalheiro, nos fazer companhia. Terminada a pausa do cafezinho, subimos, esperamos um tanto e, intuindo ausências não justificadas, começamos a sessão ordinária (no sentido formal do termo) às 18:00, maldizendo os ausentes. Para não variar os temas e manter a rotina, falamos mal dos faltosos, reclamamos do horário flutuante que nos estimula as despresenças porque sábado é dia de compromissos noturnos frequentes e nos prometemos exigir do coletivo, pela enésima vez, que comecemos às 18:00 horas, mas duvido que funcione. Essa enrolação toda é porque tivemos poucos contos para relatar, na verdade fomos salvos pelo bravo Cartaxo que leu uma comovente história, de sua autoria, intitulada "Lau", que Lau perdeu de ouvir porque não estava lá. No meio da leitura chegou uma contista atrasada, Suenia Sousa (correto Cartaxo?) carregando pela mão a bela miniatura de si mesma, chamada Sofia. Terminada a leitura do conto, conversamos umas poucas potocas, depois Cartaxo nos contou peripécias de sua defesa de tese, provocamos Sofia para dar nome ao cachorro de estimação que apertava embaixo do braço e que se não fosse de pelúcia tinha morrido sufocado e votamos no tema para sábado que, em homenagem à infância, será cachorro. Nada mais havendo a relatar, eu, Regina Behar,vou encerrando por aqui, esperando encontra-los no próximo sábado, às 18:00 horas, pontualmente, no Shopping Sul.

Regina Behar

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Regina Behar (Cartum + Conto)

REGINA BEHAR nasceu em João Pessoa, gosta de arte em geral e literatura e cinema em particular. Se considera amadora em ambas as artes no dúbio sentido da palavra. Ensina história como profissão da qual gosta e lhe permite pagar contas, mas experimenta as artes por pura necessidade vital e deseja, do fundo da alma, um dia viver fazendo só isso, além de, obviamente,  amar as pessoas que ama. Integra o Clube do Conto desde não sei quando, mas tem certeza de que Dorinha, Ronaldo ou Valéria podem atestar que ela é da velha guarda.

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O SEGREDO DE JULIA

Mauro e Julia viviam uma vida pacata de cidade do interior, numa casa com quintal grande, um cachorro, dois gatos e três crianças, duas meninas e um menino.  Mauro era proprietário da Mercearia Fontes,  e Julia dava um expediente de quatro horas na Prefeitura de Tocáia, um lugar perdido no mapa mundi.

Mas, por trás da aparente tranqüilidade da vida comum, sem sobressaltos e sem grandes projetos, um mal estar  crescia entre eles, e tudo por causa do  segredo de Julia.  Era segredo porque ninguém sabia, só ela,  e Julia se recusava sistematicamente a contá-lo. Dizia-lhe que não havia segredo algum.

Mas ele, Mauro, tinha absoluta certeza desse segredo que lampejava nos olhos dela e, vez por outra, parecia transparecer em seu rosto, sem que pudesse decifrá-lo. Aliás, Julia sempre fora enigmática, silenciosa, embora nunca tenha sido tímida. E disso Mauro lembrava muito bem... Essa  mulher esconde um segredo, pensava e remoia.

E remoeu durante anos, enquanto se arrastava o tempo, e os filhos cresciam, e as árvores repetiam seus ciclos frutosos, e os gatos davam cria. E remoeu isso de dia, na Mercearia, enquanto atendia os clientes, e remoeu também de noite, no silêncio do quarto, quando iam dormir.  

Vez por outra, insistia na velha pergunta: Quando você vai me contar? E ela apenas sorria e repetia que não tinha o que contar. E se for outro homem? Pensou durante certo tempo. Seguiu Julia durante dias, e nada. Pode ser alguém da Repartição, pensou.  Obcecado pela idéia,  pagou o auxiliar de limpeza para ficar de olho nela durante meses... e nada! 

Um dia, quando os filhos estavam a meio caminho da adolescência, Julia adoeceu repentinamente. Mauro pareceu esquecer o segredo e se concentrou em manter Julia viva. Levou-a para a capital. Consultou  especialistas e mais especialistas.  O  diagnóstico era sempre o mesmo:  A tal doença no coração era degenerativa e Julia teria apenas alguns meses de vida.

Sem mais o que fazer, a não ser os procedimentos paliativos, Mauro voltou a pensar no segredo de Julia; esse que continuava a borbulhar nos olhos seus olhos, agora mais silenciosos, concentrados sabe-se lá em  que! Então começou a ficar desesperado diante da possibilidade de que ela partisse sem falar a respeito. Afinal, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, incluí  a lealdade, a verdade, a entrega dos segredos, apelava Mauro.

Nos últimos dias de vida de Júlia, Mauro tornou-se cruel e praticamente não falava com ela, magoado. Abriu suas caixas, leu papeis amarelados, vasculhou todas as gavetas, e bolsos de roupas antigas e guardadas.  Os parentes foram  submetidos a interrogatórios sobre sua vida pregressa,   numa tentativa desesperada por qualquer  pista que revelasse a secreta coisa  se escondia por trás dos olhos negros de Julia.

Ela enfrentou o marido e a doença, impassível! Sempre reafirmou que não havia segredo, pois apenas vivia e apenas via; e conforme o dia, era feliz ou infeliz, alegre ou triste. A vida era a vida e a morte seria a morte, nada havia para temer. Nada jamais temera.  E era só. Sabia que o sol nasceria de manhã e se poria à tarde e que a mangueira daria frutos em janeiro. Tudo muito simples! Dizia a Mauro que sossegasse, que deixasse de histórias, e isso era a única verdade, conforme Julia.

Julia  morreu um dia depois dessa conversa com Mauro, sentada na cadeira de balanço, embaixo da frondosa mangueira  no quintal de casa, num fim de tarde, um pouco antes da safra das mangas. Mauro jamais acreditou que não havia um segredo. Dois anos depois casou novamente. A nova mulher, dona  da lanchonete em frente à Mercearia  Fontes,  falava muito!  Brigavam quase todo dia, a propósito de quase tudo.  Mauro sentia-se levemente confortável. Essa mulher, diferente de Júlia, não tinha aquele jeito misterioso, nenhuma  luz estranha  nos olhos,  nem escondia  segredo algum. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Autores da Semana (9)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, trimensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta edição número nove: Regina Behar.

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Regina Behar é professora de história da UFPB e escreve contos mais esporadicamente do que gostaria. Associou-se ao Clube do Conto tempos atrás, sumiu, e agora voltou pra tentar não “perder a mão”. Sempre viu o Clube como espaço de caos e criatividade onde alimenta seu fascínio pelas histórias imaginadas e pela arte da palavra.

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Entre o eclipse e os bandolins

Eles se conheceram no início da adolescência. A mãe dela mudara para a rua transversal havia seis meses. Se encontravam na escola do bairro diariamente e andaram juntos durante anos. Ela tinha um gato pardo chamado zeca e ele tinha uma cadela vira-lata chamada marilyn. Trocavam selos por moedas antigas. Entre o cuidado com os bichos domésticos e as tarefas escolares andavam ocupados com espinhas e mudanças hormonais.

Ela lhe apresentou a praça do bairro que ele jamais tinha olhado. Ele a iniciou no gosto pela poesia, o mundo das palavras com melodia que ela não conhecia. Então as praças, parques e praias povoaram o universo. Então a poesia, os romances e a musicalidade invadiram a vida. Entre as tarefas escolares e a preocupação com as espinhas, faziam planos de poeta e bailarina.

Ela o considerava a pessoa mais inteligente do mundo e ele não conseguia passar um dia sem lhe falar ao menos qualquer bobagem. Suas almas flutuavam como se andassem de mãos dadas, entretanto, nunca se tocaram. A valsa que dançavam era incompreensível aos mortais. Entre os planos de poeta e bailarina e a concretude do cotidiano, imaginavam-se felizes.

Um dia, depois das espinhas e da crise dos hormônios, ela considerou que estava perigosamente dependente dele. Um dia, depois do aumento do buraco na camada de ozônio e em meio da seca de 1983, ele cismou que ela o considerava um tolo, não levava a sério os seus sentimentos e só queria mantê-lo indefinidamente preso. Entre as divagações sobre o ozônio e a incomunicabilidade dos gestos deixaram de se encontrar.

Ele tomou rumo, casou, e foi morar no alto da rua. Ela mudou de bairro e foi morar longe da praça. Assim ficaram durante anos, apartados pelo espaço e pela fantasia de personagens irreais. O passado se tornou distante e a poesia se dissolveu na fumaça urbana. Fecharam-se em seus carros com vidro fumê. Entre fraldas de crianças e questões profissionais abandonaram o poeta e a bailarina.

Tangenciavam o mesmo lugar do mundo, mas suas almas não mais bailavam juntas. Vez por outra o passado invadia a casa e acordava a memória. Ele lembrava dela quando ouvia “Bandolins” e ela pensava nele quando ouvia “Eclipse Oculto”. Evitavam as praças como se fossem lugares malditos. Entre as lembranças do passado e o medo dos fantasmas, encontraram-se, um dia, a caminho do trabalho.

Já não eram tão jovens. Ele achou que ela estava muito envelhecida e ela admirou-se de sua calvice pronunciada. Passaram-se vinte anos, como se fosse dias, como se fosse um século. O tempo mudara tudo. Ficaram sem saber o que falar. Ela tomou a iniciativa e perguntou pelas crianças. Ele respondeu aparentando tranqüilidade e devolveu a pergunta. Ela disse que deviam sair qualquer dia com os meninos. Ele perguntou irônico: “passear na praça?”. Ela ficou vermelha. Entre a ironia e o medo despediram-se para sempre.