segunda-feira, 28 de agosto de 2006
Autores do Clube do Conto: Ronaldo Monte (1)
Publicado em NO MÍNIMO / TODO PROSA
http://todoprosa.nominimo.com.br/?p=81
Primeira mão
Ronaldo Monte: ‘Memória do fogo’
“Memória do fogo” (Objetiva, 128 páginas, R$ 27,90), de Ronaldo Monte, é o terceiro título da coleção Fora dos Eixos, que já lançou “O vôo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, e “Voláteis”, de Paulo Scott. A coleção pretende, nas palavras escolhidas pela editora, “buscar a qualidade literária fora do eixo Rio/São Paulo”. O ponto de partida é lá um tanto questionável: as idéias de centro e periferia andam embaralhadas pela internet, e a velha convicção de que existe um mundão de talento inexplorado fora do “eixo” anda cada vez mais parecida com um mito. Mesmo assim o resultado da coleção tem sido mais que animador. “Memória do fogo” não é um livro fácil. Regionalista e intimista ao mesmo tempo, tem uma prosa de alta densidade poética dentro da qual a narrativa avança com lentidão de sonho. Vale a pena embarcar na viagem porque Ronaldo Monte, nascido em 1947, psicanalista alagoano radicado em João Pessoa, tem voz própria e um admirável domínio da linguagem. Qualidades incomuns dentro ou fora dos eixos.
Foi então que viu pela primeira vez o que nunca queria ter visto. Via as pessoas por dentro. Não as suas carnes, não as suas tripas, não seus esqueletos, nem o azul das veias carregadas do vermelho de seu sangue. Via o que não sabia dizer. Não era bem uma luz, nem parecia uma cor, lembrava a visão de um som, o granulado de um cheiro. Era mais uma impressão, como se a marca da alma do outro fizesse uma marca na sua própria alma. E esse não saber dizer era o que mais o agoniava.
O povo fez uma roda em volta dele. Todo mundo parava para ver o menino de olhos arregalados, olhando assustado para cada rosto, com o que via por trás de cada rosto. Que é que está vendo, menino, me olhando desse jeito? Estou vendo uma mancha escura no lugar do seu coração. A senhora deve ter muita raiva de alguém. Deve ser de algum homem que lhe deixou. O povo começou a rir. Todo mundo sabia que aquela mulher tinha sido deixada há muito tempo por um noivo que foi embora com outra. A mulher teve raiva e saiu apressada, amaldiçoando o menino. O menino é adivinho, o menino é adivinho, a notícia se espalhou de ponta a ponta da rua. A roda aumentou, o círculo em volta dele ficou mais apertado. Sua respiração foi ficando mais difícil. Para não morrer sufocado, começou a olhar para cada pessoa e a dizer, com a voz engrolada, não mais o que via, e sim o que sentia na cara e no corpo dos outros. O senhor roubou seu irmão, esse aqui deu na cara da mãe, essa aqui se perdeu com o patrão, esse outro não pensa em mulher, essa outra matou um anjinho… E as pessoas adivinhadas saíam correndo e dizendo nomes feios com o menino. As pessoas desconfiadas do que poderiam ouvir cuidaram de sair dali antes que a verdade de dentro lhes fosse atirada na cara, na frente dos outros.
Até que uma hora só ficaram cinco pessoas. Cinco não, seis, pois eram quatro homens e uma mulher com uma menina no colo, os olhos das duas meio desencontrados, quase zarolhos, fazendo sentir uma nesga de pena. Os outros, reparando bem, não eram homens feitos. Metidos no trabalho da palha da cana ou no calor da moenda da usina, seus corpos atarracados pareciam de homens, pois ninguém ali crescia muito, era difícil distinguir pelo tamanho um homem de um menino. Mas a cara deles era de menino. Cara de quem ainda espera pelo tempo. E estavam ali para saber o que o tempo havia de lhes dar. O menino olhou de um em um e foi sentindo um aperto no peito. Era difícil dizer o que via. Porque a bem dizer não via. Umas manchas se mexiam no espaço pouco iluminado entre ele e cada um, como a pedir me diga. E ele não sabia dizer. Olhou mais, olhou muito e aos poucos as manchas foram tomando sentido. Mas as palavras, as palavras que as manchas pediam, não se formavam no peito do menino, não subiam pela sua garganta, não ferviam em sua boca como as que cuspiu na cara dos primeiros adivinhados. Olhou primeiro para a mulher com a menina e não viu nada separando as duas. Eram uma coisa só, como se tivessem um só destino. Só no fim, sentia, alguma coisa ia quebrar em muitos pedaços o que agora ele via inteiro. No primeiro menino viu uma lança enfeitada de fitas espetando seu peito. Depois viu um com a cara vermelha de frente para o fogo. Numa cara de menino com dois olhos viu a cara de um homem com um olho só. Num outro, viu um corpo coberto de uma lama cinzenta, parecendo a armadura de São Jorge rachada pelo sol. Não sabia direito o que estava vendo. Baixou a cabeça e disse: não estou vendo nada não, minha gente, vão embora. A verdade da gente ainda está pra se fazer. Disse assim, da gente, sem saber direito por que se botava no meio deles. Nunca tinha visto aquelas pessoas, mas era como se fossem seus irmãos.
Publicado por Sérgio Rodrigues - 24/06/06 12:01 AM
Autores do Clube do Conto: Geraldo Maciel
Estranhas criaturas em cenário desacertado
Cecília Zokner [22/07/2006]
www.parana-online.com.br
A primeira edição, com data de 1995 e pela Editora Rio Fundo, do Rio de Janeiro, esgotou e, dois anos depois, Aquelas criaturas tão estranhas foi, novamente, publicado pela Editora Manufatura de João Pessoa: pequeno volume de agradável manuseio, que reúne vinte e um contos de Geraldo Maciel, engenheiro civil que se revela um exímio contador de histórias. Sua galeria de personagens é instigante. Nela, embora alguns se abriguem, muito bem, sob o título do livro – o pai e seus dois filhos se refugiando num lugar inóspito, as três irmãs possuidoras de poderes misteriosos, Aldonário e suas mágicas deploráveis, Lezama, o bonequeiro que, embriagado, destruía os seus bonecos – outros não estão longe dos humanos que lhe serviram de modelo e, quer se queira ou não, ainda vicejam por esse país afora: Adãozinho que, na cidade, exercia “o férreo poder sobre várias cabeças de gado e gente”; o delegado que a enxaqueca fazia lembrar os “serviços” que fizera; o velho Pompeu que a vida inteira trabalhou fazendo estradas e se conforma com uma aposentadoria de “três tostões furados”; Agrípio que não conseguiu, pela miséria em que viveu, criar os filhos que tivera; o preso por ter matado mulher e filhos porque não podia, sequer, alimentá-los.
Obediência filial, cobiça, o drama da mulher, relações amorosas inusuais, autoridade arbitrária e desmedida, solidão, irreversível pobreza, ensejam relatos que testemunham a realidade do país ou ultrapassam as fronteiras do real para se aproximar do fantasioso de um moderno conto de fadas, para palmilhar caminhos delineados pelo sobrenatural. Universos que se recriam numa expressão que oscila entre o lirismo e a troça e se constrói com hábil e sutil manejo de um conhecedor de seu ofício.
Vozes anônimas como a da mulher do conto “Meus meninos” ou a do homem que “O que posso lhe contar?” que uma vida paupérrima leva à situações extremas. O sofrimento de quem deve – “desgraça silenciosa” – comerciar o seu corpo. E disso não apenas ter grande pejo como consciência de que é “surrupiado de uma outra vida” quase tão miserável quanto a sua, “esse dinheiro sebento e amarrotado” que recebe para não morrer de fome ainda que os bocados amarguem a boca e façam “marejar os olhos de lágrimas”.
Dirigida a uma senhora que o fora visitar na cadeia, a confidência iniciada com a pergunta que dá o título ao conto “o que posso lhe contar?” que encadeia as outras: “A senhora conhece o interior? Já viveu por lá? Sabe o que é uma seca?” Repostas que ele mesmo dá e que se referem a viver em chão alheio, em casa alheia, à injustiças, a trabalhar “de sol a sol”, “de inverno a verão” e comer pouco “para não ficar devendo ao patrão”. E, num crescendo, o testemunho de uma sobrevivência na miséria: a fome, o acirrado desespero de ser incapaz de supri-la, a louca decisão: “A mulher me olhou como quem já sabia o que eu ia fazer e tenho certeza que até pedindo para que eu fizesse logo”.
Contrapondo-se ao doloroso viver – martírio sem redenção – que tais vozes, perturbadoras e terríveis, afirmam existir, as seqüências que revelam situações tão descabidas que pareceriam uma invenção trocista não fossem as já conhecidas trapalhadas com que os governos subdesenvolvidos aquinhoam o seu povo: engenheiros do governo – “Pensavam que a terra era um pedaço de papel colorido e traçaram um risco preto de um ponto a outro” – a determinar, planejar, decidir tarefas e rumos, explicar muito, para fazer uma estrada que resulta em nada. Porque os “trechos se trespassaram com distância de léguas. Uma turma foi detida quando, já na Bahía, se preparava para demolir uma igreja que o imperativo da engenharia mandava demolir; uma outra turma desapareceu num túnel que ela mesma escavou num paredão da serra de Borborema. O grupo que abria caminho e piqueteava na vanguarda perdeu-se para sempre: ultrapassou os limites do mapa do engenheiro. Só foi encontrado o grupo que passou três anos trabalhando em círculos, atapetando de poeira os próprios rastros e dando acabamento naquele moto perpétuo. Os engenheiros também nunca mais apareceram”.
GERALDO MACIEL é membro do Clube do Conto da Paraíba.
sexta-feira, 25 de agosto de 2006
Romeiros (Clube do Conto representado na FLIP)
sexta-feira, 14 de julho de 2006
Ata chocante (do dia 8/7/2006)
André Ricardo Aguiar
domingo, 9 de julho de 2006
Uma mera proposta sujeita a chuvas e trovoadas *
Sei que o Clube do Conto tem a informalidade como princípio. Nada de academicismo. Se bem entendi, a regra é evitar a regra. Na entidade prevaleceria um clima de descontração que induz seus participantes a cometimentos inusitados. Estimula-se, dessa forma, consciente ou inconscientemente, a criatividade – característica que tem iluminado essa grei sabatina, a começar pela escolha dos temas dos contos, alguns insólitos. Destaco, a escatologia – um tema imundo, nos termos da historiadora da confraria em seus registros internéticos (1). Imundo, repugnante, fétido, nauseabundo, grotesco, de extremo mau-gosto e muito impróprio para quem logo mais, no jantar, irá deglutir uma sopa. Impregnado pela enxurrada literário-escatológico de há pouco, o confrade ou a confreira poderá ter anulada a sua apetência. A trivial e até então bendita sopa poderá lhe parecer agora uma gosma marrom-diarréia onde bóiam restos de vômito, resquícios de expectoração e bem nutridas ascaris lumbricoides ao invés de nutritivos pedaços de legumes, saudáveis nacos de carne e suculenta porção de macarrão. A vítima trófico-literária poderá perder completamente o apetite. E ainda mais dificilmente conseguirá vencer a inapetência se após a sopa vierem quibes bem tostados.
Concordo com a contista e historiadora Dorinha Limeira quanto ser a escatologia um tema imundo. Mas, transcendendo a etiqueta pequeno-burguesa – ah, ninguém fala mais na ideologia pequeno-burguesa..., saiu da moda, desapareceu dos discursos progressistas –, reconheço, também, que os assuntos catarrais, pútridos, excrementícios e outros abundantes temas, têm sua validade como instigadores literários. Vejam-se, entre outros, os exemplos do norte-americano Charles Bukowski, do cubano Pedro Juan Gutiérrez e o do brasileiro Rubem Fonseca, que os inserem nos seus escritos. Agrego a esses o tabajara Augusto dos Anjos (rasgo nativista?), que, entre outras inspirados versos, poetou:
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Psicologia de um vencido)
O injustiçado sapeense chegou a divinizar o Fator universal do transformismo/ Filho da teleológica matéria (...) no soneto O Deus-verme, cujos tercetos informam dietas alimentares da divindade:
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus a maior porção!
Indiferentes a eventuais engulhos, obstruções de narinas, rictos de nojo e outras reações voluntárias ou involuntárias, os temas evacuatórios e similares podem estimular outras dimensões da imaginação. Esse acréscimo criatico foi demonstrado pela contista historiadora em suas reminiscências ciberespaciais. No registro da sessão dedicada à escatologia, Dorinha Limeira acrescentou uma nova faceta criativa – um adereço original – ao clima literário da reunião:
O objeto de cena era um imenso penico de alumínio com um bolo inglês dentro (massa pronta). O bolo estava desarrumado, todo troncho, com uma cobertura marrom escura de chocolate, gosmenta, desarranjada. Misturados àquela cobertura gosmenta, havia pedaços de papel higiênico, sujos de chocolate. Parecia que alguém com diarréia braba tinha usado o penico, tinha se limpado e jogado o papel lá dentro. E assim, inspirados nesse cenário, íamos lendo nossos contos. Tinha gente que se contorcia de tanto rir. Como ainda estávamos usando o espaço do cafezinho, os passantes olhavam, detinham-se um pouco e nada entendiam. (...)
Ao término das leituras dos contos escatológicos, foi a hora do lanche. Todos comeram da sebozeira que estava dentro do penico. Aliás, uma delícia. Só quem não comeu foi Barreto (Geraldo Maciel). "Quero comer essa porcaria, não!!!", dizia ele. Mas, que cabra besta (e educado – acrescento eu – pois usou o termo porcaria evitando palavra mais realista).
A idéia da ilustração do tema é interessante, motivadora. Se a moda se consolidar, será necessária muitíssima ou nenhuíssima criatividade quando os escritos versarem sobre erotismo. Temática universal e imemorial, vem sendo explorada desde a conhecida história do binômio formado pela cobra de Adão e a maça de Eva, abordado naquela velha marchinha de carnaval, gravada pelo fanhoso Jorge Veiga. (A história da maça/ É pura fantasia/ Maça igual aquela/ O papai também comia/ Eu li num almanaque/ Que um dia de manhã/ Adão tava com fome/ E comeu a tal maça/ Comeu com casca e tudo/ Não deixando nem semente/ Depois botou a culpa/ Na pobre da serpente...).
Após tais considerações e cônscio de que o informalismo deve prevalecer no Clube do Conto, gostaria – sem desprezar tal princípio – de sugerir uma pequena inovação. Proponho que haja alguma discussão sobre os contos apresentados. Ao menos sobre uma amostra deles. Como fazê-lo, seria mais um desafio à nossa criatividade. É frustrante para quem escreve ter o laconismo ou o silêncio como reação ao seu texto. Após a leitura dos mesmos advirem apenas alguns elogios vagos (Beleza! Muito bem! Bom! Valeu...) ou aquele hum hum... hum hum que, muitas vezes, insinuam uma bem-comportada aprovação sobre algo que poderia ser melhor fruído caso houvesse algumas perguntas. Por outro lado, acredito que seria benéfico, enriquecedor, para todos nós, haver informações sobre o que gerou o texto, o que ele encerra de realidade e de ficção, quais as transformações sofridas por ele ao longo da sua feitura... enfim, qual o processo da sua criação.
Não estou propondo nenhuma defesa de tese, nenhum esgrima monográfico, nenhum pega-pra-capar teórico. Sugiro, apenas, uma troca de idéias mais acurada sobre os textos. Considero tal medida estimulante bem como uma forma de aprendizagem recíproca.
Cláudio José Lopes Rodrigues
* Texto apresentado na reunião do sábado, 08 de julho de 2006.
(1) Clube do Conto História do Clube - 5º capítulo - Um tema difícil. http://clubedoconto.blogspot.com/2006/04/clube-do-conto_07.html