domingo, 26 de abril de 2009

Autores da Semana (3)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta terceira edição: Geraldo Maciel, também conhecido por Barreto.

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Geraldo Maciel é paraibano, nascido em Nova Palmeira, em 1950. É professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba, engenheiro civil e Doutor em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP.

Seu primeiro livro de contos Aquelas Criaturas tão Estranhas, foi lançado em 1995, pela Editora Rio Fundo, RJ, tendo já uma segunda edição pela Editora Manufatura.

Publicou um segundo livro de contos, Inventário de pequenas paixões, em 2000 e lançou em 2005 seu terceiro livro de contos O Concertista e a Concertina.

Tem contos publicado em revistas culturais e em Antologias nacionais, a exemplo da Contos Cruéis, pela Geração Editorial e Quartas Histórias, pela Editora Garamond. Tem um romance pronto – Aqui As Noites São Mais longas e editará em breve um quarto livro de contos. Seu romance Peccata Mundi ganhou o primeiro lugar no concurso literário cidade do Recife 2008.

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A GARRAFA

ÀS CINCO E TRINTA DA MANHÃ, ao abrir a porta para pegar o jornal, o morador da quadra 25, lote 6, da Rua Portal do Paraíso encontrou uma garrafa de vidro, fechada com uma rolha de cortiça, na soleira de sua porta. Escura, não deixava ver se algo havia em seu interior. O jornal do dia estava atirado dois degraus abaixo. Nem pegou os jornais. Passou sobre a garrafa, olhou a garrafa, cheirou a garrafa e afastou-se, parando no jardim, a cerca de três metros do inusitado objeto, protegendo-se atrás de um canteiro de rosas, como se pressentisse algum perigo. Começou a examinar de longe aquele objeto estranho e inoportuno que não devia estar ali. Como não sabia o que fazer, ficou andando de um lado para outro até que resolveu chamar os vizinhos.

Chamou os vizinhos da direita e da esquerda, com quem não mantinha relações estreitas, apesar de três anos morando lado a lado, comunicou a inusitada aparição e pediu a opinião dos dois. O vizinho da direita, ainda sonolento, achou que aquilo lá era o que parecia: uma garrafa. Por precaução sugeriu chamarem os bombeiros, a polícia, a defesa civil. O vizinho da esquerda, imaginando não se sabe o quê, afastou-se dez metros da cena e disse não saber o que aquilo poderia ser, além de ser, na aparência, uma garrafa.

O morador da quadra 25, lote 6, acordou a família e tentou convencer a mulher a levar as crianças até à casa do cunhado, seis quadras adiante. Aquele objeto conhecido podia ser um enorme problema caso não fosse uma inocente garrafa. E caso fosse algo mais que uma garrafa, poderia ser perigoso. Poderia ser uma bomba, poderia conter um líquido envenenado, disse o aflito morador da quadra 25, lote 6. Mas pode ser só uma garrafa de leite que um leiteiro deixou por engano, disse a mulher do intranqüilo morador. Ah, não! Retrucou a filhinha do casal, a de oito anos, bem que pode ser uma garrafa com uma mensagem! Podia conter uma mensagem, sim, já que era uma garrafa, e transportar mensagens sempre foi a principal finalidade das garrafas. Afinal garrafas trazendo mensagens em seu interior são acontecimentos corriqueiros desde que existem garrafas, náufragos e crianças. O que não se sabe é do conteúdo de tais mensagens. Pode ser uma simples brincadeira ou uma verdade perturbadora e perigosa.

Parece que a opinião da criança acalmou os adultos, pois em poucos instantes desistiram de chamar os bombeiros e o esquadrão anti-bombas, não restando outra coisa ao morador da quadra 25, lote 6 senão destampar a garrafa. Ainda temeroso, destampou-a como se abrisse um envelope, curioso pelo que pudesse haver no seu interior.

A criança menor esperou que saísse uma fumacinha da garrafa e se formasse o gênio ao qual ela faria três pedidos; a mãe olhando por cima do ombro do marido, o incentivava a agir com presteza, acabar com o mistério. A criança de oito anos insistia na mensagem que com certeza havia no interior da garrafa. O morador olhou para dentro da garrafa, viu alguma coisa, olhou novamente, agora colocando-a contra a luz e finalmente disse: parece haver uma mensagem.

Conseguiu retirar um papel enrolado como um charuto e, diante de todos, desenrolou-o lentamente. Leu: “Quando você ler esta mensagem, tudo já terá terminado”. E havia um rabisco como se fosse uma assinatura. Uma brincadeira! Coisa de quem não tem o que fazer! Disse a mulher, e os vizinhos repetiram: Coisa de quem não tem o que fazer!

O morador da quadra 25, lote 6, no entanto não dormiu naquela noite. Já tarde, quando todos dormiam, levantou e foi olhar a garrafa que havia deixado ao pé de um vaso no jardim. Pegou-a, cheirou-a, cheirava a sal e mar, recolocou-a ao pé do vaso. Como ela pode ter vindo parar aqui? Quem escreveu aquele bilhete? O que ele quis dizer?

Voltou até sua escrivaninha, pegou uma folha de papel, um lápis, e escreveu: “Se você ler esta mensagem é porque nada terá terminado.” Enrolou-a como um charuto e colocou-a dentro da garrafa; apertou a rolha para que não pudesse entrar água e deixou-a no mesmo local onde a havia encontrado pela manhã.

À noite sonhou com uma garrafa à deriva.

No outro dia, muito cedo, levantou e foi pegar o jornal. A garrafa já não estava lá.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Autores da Semana (2)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Nesta segunda edição: Maria Valéria Rezende.

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MARIA VALÉRIA REZENDE

Nasceu em Santos , em 1942 , andou pelo mundo e veio dar às costas de João Pessoa porque, enfim, achou outra terra como a sua: não tem centro e periferia, mas sim frente e verso. Daí, por causa do clima favorável, deu pra publicar ficção e poesia a partir de 2001. Tem a mania de livros, por isso apóia a Biblioteca Livro em Roda que carrega, conta e empresta livro para milhares de crianças. Publicou, entre vários outros, O vôo da guará vermelha, que bateu asas e partiu para Portugal, França e Espanha.

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CADA NOITE

Quando vovó me diz boa noite, fecha a porta e apaga a luz pelo lado de fora do quarto, encolho-me por debaixo das cobertas, buscando a proteção do escuro absoluto, deixando lá fora, na penumbra coada pelas telhas vãs e pelas frestas da janela, os fantasmas, os morcegos, os escorpiões, o papa-figo, o vampiro, a bruxa e tudo o mais que me assombra cada noite. Então, sem medo do mundo, adormeço até que o dia pleno me desperte. Assim é, no inverno.

Mas, no verão, a cada noite, tenho de escolher entre sufocar-me no calor sob as cobertas, ou tremer de medo diante daquele vulto escuro que nunca falta, que me apavora movendo-se para perto de mim e de novo se afastando, por horas, até que o desespero me leve ao extremo da coragem para saltar da cama, correr para a janela, quase roçando na horrível figura, e abri-la com um safanão para que entre um pouco mais de claridade e descobrir, mais uma vez, que o monstro é apenas a capa de gabardine escura e o velho chapéu de feltro de meu avô, dependurados num prego atrás da porta.

domingo, 5 de abril de 2009

Pequeno quorum faz grande reunião

Pouca gente. Nesse período que antecede a Semana Santa, muitos já começam a santificar os dias. Ontem, sábado, foi um desses dias. Somente os desnaturados, os hereges, os suspensos de ordem ou excomungados compareceram. E levaram suas tarefas e suas oferendas para serem depositadas no centro da roda, onde as brasas de uma fogueira crepitavam. As oferendas se materializaram em forma de contos. Lá estavam os Beatles e outros assuntos.

Beto Menezes levou o seu “Pirilampos Cegos”, autografou e entregou a alguém, se não me engano, a Cartaxo. O fato suscitou a sugestão de que todos os autores que já têm livros publicados sejam lidos pelos próprios membros do Clube do Conto. Quem escreve, sabe o quão interessante é saber que alguém tenha lido seu livro ou seus livros. Apesar da sugestão ter sido simpática, não sei se a levaremos adiante.

Como de costume, procedeu-se à leitura dos textos seguida de comentários, propostas, ressalvas e tudo o mais. Houve até uma tentativa de teorizar determinados contos, mas chegou-se à conclusão de que a maioria não dá cabimento à teoria literária.

Quanto ao tema, sugeri que, devido ao quorum diminuto, que se deixasse o tema ficar livre. Porém Beto Menezes, muito timidamente, propôs que seja “Tiradentes”. Eu topei, não lembro se os demais toparam.

Estiveram em volta da fogueira com suas oferendas os seguintes contistas: Cartaxo, Beto, Alfredo, eu e, no finalzinho da reunião, chegou Laudelino anunciando que o próximo contista a ter seu texto postado no blogger será Beto Menezes.

Se por acaso, aconteceu algum lapso de memória, lacuna ou erro na formulação desta ata, por favor, completem ou corrijam. E assim, “La nave vá”.

(Ata da reunião de 04/04/2009)

Dôra Limeira

sábado, 21 de março de 2009

Um arremesso (sobre o lançamento da antologia)

Grande parte dos participantes do Clube do Conto chegaram atrasados no lançamento da antologia Histórias de Sábado, pra não cometer injustiças: alguns chegaram adiantados, outros na hora marcada. O evento estava marcado pras 17h e, pra nossa surpresa, ficamos sabendo que lá eles são pontuais para fechar, tudo tinha de terminar às 18h em ponto. Lembrando que boa parte da trupe chegou em cima da hora, o lançamento começou por volta das 17h30. Quase todos os participantes do Clube subiram no palco, Valéria se disse mercenária e foi vender umas antologias.

Pois bem, Petra nos apresentou e, em seguida, Antonio Mariano comentou sobre o que é o Clube do Conto, depois o microfone, que mais parecia uma batata-quente, foi rodando de mão em mão até chegar em Barreto, que complementou o que Mariano falou, explicou o que é feito em uma reunião do Clube do Conto: leitura e discussão dos contos e o que ocorrer. Mais uma vez a batata-quente, o microfone pulava de mão em mão, até que Joana Belarmino falou o que o clube representava para ela; mais uma rodada de batata-quente e Ronaldo Monte leu um conto dele, que está publicado na antologia; de novo batata-quente, até que sugeriram a leitura de mais um conto da antologia, André foi o porta-voz nessa leitura, leu um conto de Barreto, findada a leitura, o relógio marcava 17h59, então André se despediu da platéia e agradeceu a presença de todos, estava encerrado o lançamento da antologia. 18h.

Laudelino

Ata referente ao dia 14/03/2009.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Autores da Semana (1)

Semanalmente, ou quinzenalmente, ou, no máximo, mensalmente, publicaremos contos dos participantes do Clube do Conto. Estreando esta nova seção do blog: André Ricardo Aguiar.

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André Ricardo Aguiar é leitor de todo tipo de histórias, mas quando pode, se realiza entre o terror e o humor. Publicou poesia, cometendo alguns livros, mas não satisfeito, cravou um livro de crônicas de viagem e outros dois para as crianças. Com o Rato que roeu o rei (Ed. Rocco), que foi selecionado pelo PNBE, iniciou sua mais nova fase. Do seu baú preguiçoso, ainda guarda inéditos outro livro de poemas, contos e umas bolinhas de naftalina.

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Carmela

Quando deu por si, veio uma preguiça infinita. Estava contido espantosamente em forros de veludo, chumaços de algodão no nariz, um descabimento em madeira talhada. A princípio, o ponto de vista era o telhado. Estava morto, mas não sabia que estava. Riu-se do fato. E novamente consegui tirar essa equação: solidão, noves fora, ironia. Só o pensamento, esse motor metafísico, lembrou-lhe que estava no seu próprio velório. O que poderia fazer? Os parentes, amigos e condolentes tricotando conversas a meio tom e pondo em movimento a máquina do óbvio viver.

Teve medo de se mexer, mesmo com o rabo do olho: pois não seria de bom tom sair da etiqueta do defunto. E se causasse um movimento involuntário ao cadáver? Sim, todos estavam ali. Ouvia vozes, chorinhos abafados, murmúrios. A maior sensação era a falta de costume: pouco sentindo dos efeitos a que comumente chamamos emoções, não atinava com o ambiente. A sala, tão familiar, agora parecia também um caixão onde cabiam, provisoriamente (no sentido figurado), seus cadáveres. Sua maior estranheza foi descobrir apenas a melancólica imagem de apagados seres. Eles se moviam numa espécie de ritual sem religião.

Vieram-lhe visões sobre o que seria o rosto furtivo e sagrado do nada, o ar rarefeito, o tipo de eternidade que lhe cabia. Não adiantou, sentiu-se mais só do que um verme. Mas nada, nada causou mais espanto do que descobrir, maravilhado, que podia, com sucessivos exercícios, ir saindo aos pouquinhos de si. Não foi tão fácil. A carcaça, para alívio seu, continuava numa moldura de coroas de flores e enjôo. Pôs uma perna desajeitadamente para fora, pôs a outra, espreguiçou-se e desceu do féretro. Ninguém notou. Via tudo de forma chapada, como se a fronteira entre a vida e a morte consistisse numa lente fosca. Teve uma sensação de que ia esbarrar no farmacêutico ou em Lázaro, dono da funerária, de que podia atravessar com relativo perigo a própria esposa, mas nada disso aconteceu. Um pouco cansado – afinal, horas antes tivera grande constrangimento e desperdício de energia enquanto agonizava. O movimento ganhava alguma novidade com ruídos de choros ou pequenos escândalos para os lados da cozinha. Algo ali estava lhe chamando a atenção, como uma fluida sintonia de rádio, mas não soube precisar. Saiu andando a esmo, deixando o seu corpo em stand-by

Afinal, muito chato ficar mofando ali. Estava até meio decepcionado pela correção ética do velório. Correu dali, atravessou paredes como se fossem gelatina, foi bater nos lados do quintal para acariciar, sem tocar, seu dálmata. Em algum ponto da casa um grupo de marmanjos contava uma anedota enquanto numa escala menor, talheres e copos eram lavados com certa displicência. Sabia que o crédito da eternidade já estava no bolso, mas, segundo os padrões ainda vigentes, não deveria descuidar de suas obrigações de defunto, deveria resignar-se e tomar seu lugar, numa postura idêntica ao funcionário que toma posse de uma mesa e faz o que lhe pedem as tais forças superiores.

Estava disfarçando o nervosismo. Essa etapa intermediária entre sair da vida e pular para o desconhecido parecia um vestibular ou uma sala de espera de dentista. O sentimento de uma presença alarmava-lhe o espírito. Lembrou um trecho que lera de um livro de filosofia de almanaque: os acontecimentos de uma vida, mesmo comezinhos, poderiam vir a ser uma semente para a morte ou o que quer que esteja do outro lado. Alguma mancha afetiva de sua vida estava ali, dizia a sua recém-clarividência. E era verdade, o que pôde comprovar ao tomar o rumo do centro do velório.

Quando voltou à sala, teve uma surpresa: num canto, um pouco pálida e reservada, estava Carmela, uma prima distante que lhe devotara meteórica paixão. Não tinha dado certo e os desvios familiares mudaram a rota do destino de ambos. Agora a prima apareceu ali, um olhar entre adormecido e mórbido. Causou certo incômodo o fato de que, se ainda não falhava a memória, Carmela tinha morrido de tifo em 1957 aos dezoito anos. Estava enterrada no mesmo cemitério onde jazia a família e que seria o destino do seu corpo.

Mas agora bateu a dúvida. Tinha morrido ou não tinha morrido? Não era Amelinha, parente da parte paterna, que tinha adquirido a malfadada doença? Mas também jurava de pés juntos que ali estavam os traços inconfundíveis da prima: sua obstinação velada, seu ar meio distante, o que dava a sensação para muitos de que Carmela não tinha nascido para os dissabores do mundo – e que em verdade pouco se lhe dava viver aventurosamente. Viveu, sim, para amar alguém uma só vez toda a vida. E sua presença ali corroborava o seu estilo.

Um detalhe furtivo não lhe escapou: a prima segurava, com muito zelo, um objeto, talvez um pedaço de papel. Olhava de forma fixa para o caixão e parecia prestes a burlar a vigilância dos presentes, mas só parecia prestes. Mostrava-se consolada e esperançosa.

Estava nessas elucubrações quando sentiu a pontada metafísica, como que um cifrado chamado para tomar o seu lugar. Assumiu sua responsabilidade, embora com certa relutância, pois desejara falar com a prima, mesmo que como leve brisa assombrada. Acomodou-se o melhor que pôde no caixão e já ia afundando numa morna inexistência quando sentiu que lhe fechavam a tampa. Pela última fresta de luz mortiça uma mão pálida se insinuou e por entre as flores depositou um delicado envelope. Era um bilhete, e numa letra tremida, quase apagada, estava escrito:

CARMELA

JAZIGO 3547, À SOMBRA DO FÍCUS.